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Bicha ou, simplesmente, gay? Viado ou, simplesmente, boga? Passivo ou ativo? Homossexual ou homoerótico? Pouco importa o tratamento lingüístico que se lhes dê, uma vez que, a mudança lingüística ou do tratamento lingüístico que se lhes dispense não mudará a realidade de que é preciso identificar e ser identificado. É preciso, portanto, ter em mente o padrão capaz de reconhecer sem perturbações neuroniais a formatação da

assunção; o jeito pelo qual se identifica, genericamente, um gay, ou antes, a maneira e/ou modo violento pelo qual uma pessoa é identificada, enquadrada, valorizada. Mas, na verdade, não é bem a pessoa o que se taxa, identifica, enquadra, valoriza, mas ainda – e por mais que se bata e se rebata – continua no campo do estranho, do anormal e do não natural, pois é preciso enxergar, ver, procurar o que não é evidentemente ‘notado’ ou inscrito no corpo e na mente.

Curioso é que, antes, o homossexualismo (do séc. XIX início do séc. XX) para ser assim tratado passava por alguns exames que iam de testes antropométricos à coleta de material nos canais seminíferos. Com a virada cultural dos anos 1960 – especificamente, com os acontecimentos de maio de 1968 – a homossexualidade veio misturar-se fortemente com concepções menos científicas e mais ideológicas por assim dizer. Identificava-se, então, o homossexual – entendido, fresco, frango, etc. – por seus trejeitos emasculados, pelo seu olhar lúgubre, uma espécie de ser doidão por sexo, flanando em busca de uma teta moreninha e máscula na qual pudesse pousar a cabeça e descansar tranquilamente. A concepção geral de viados, ainda assim, era de doentes mentais com algum grau de degeneração menos orgânica do que moral. Estas imagens que sobejavam ainda no Brasil da segunda metade do séc. XX precisavam ser expurgadas, depuradas. Talvez, a melhor forma de fazer este trabalho fosse mesmo por meio da imprensa. Afirmava-se a condição de homossexual livre de patologizações e etiologizações de seu desejo negando aquelas outras. Assim é que o famoso jornalista do jornal Última Hora (de São Paulo), Celso Cury, criador da famosa Coluna do Meio – coluna jornalística especificamente dirigida aos homossexuais – pensava sobre a homossexualidade de seu tempo. Em uma matéria intitulada “A explosão

do homossexualismo” publicada da revista Nova (Ed. De agosto de 1977) Celso é um dos entrevistados e relata que:

Eu acho que está havendo não um aumento do homossexualismo (sic), mas um aumento do número de pessoas que já declaram, publicamente, que são homossexuais. Ou, se não declaram, pelo menos não escondem (...) A existência da coluna [a “Coluna do meio”] é uma prova de que a mentalidade das pessoas está mudando, e já não se aceitam tão facilmente as velhas idéias de que a homossexualidade é doença. Só que, alto lá: estou falando que há uma mudança, mas não é para ser entendida e lida com um playback de trombone: é uma mudancinha. Temos ainda muito o que fazer. (...) Não defendo um movimento gay, no Brasil. As pessoas precisam primeiro tomar consciência de que sua condição não é doença, para poderem saber, mais tarde, o que reivindicar. (...) Vejo mudança (...). Embora o gênero bicha ainda dê cartaz

por aí –, digo a bichona bem saidona, o homossexual pintoso –, essa é uma raça em extinção. Por quê? Justamente porque a mentalidade das pessoas está mudando. Há tempos atrás, por

pura necessidade de identificação, quem era homossexual exibia sua condição. Desmunhecava, e pronto. Hoje não, o preconceito está diminuindo, não é preciso mais exteriorizar o que o cara é: aliás, apenas o que ele, ou ela, são, na cama. Pois, o resto é igual (apud. Green e Polito, 2006: s/p). Os grifos em negrito são meus.

Os termos usados de modo tão desencorajado, de maneira tão pejorativa – bichona bem saidona e homossexual pintoso – ajudarão na confecção do macho homossexual de verdade; aquele que jamais poderia lembrar, nem mesmo residualmente, aquelas figuras de proas que bateram de frente com as instituições.

Assim, o jornal Lampião da Esquina, nesta mesma linha de combate aos estereótipos em seu editorial de nº. 0 de abril de 1978 diz que

O que nos interessa é destruir a imagem-padrão que se faz do

homossexual, segundo a qual ele é um ser que vive nas sombras,

que prefere a noite, que encara a sua preferência homossexual como uma espécie de maldição, que é dado aos ademanes (sic) e que sempre esbarra, em qualquer tentativa de se realizar mais amplamente enquanto ser humano, neste fator capital: seu sexo não é aquele que ele desejaria ter. Para acabar com essa imagem-padrão, O Lampião não pretende soluçar (sic) a opressão nossa de cada dia, nem pressionar válvulas de escape. Apenas lembrará que uma parte estatisticamente definível da população brasileira, por carregar nas costas o estigma da não reprodutividade numa sociedade petrificada na mitologia hebraico-cristã, deve ser caracterizada como uma minoria oprimida. E uma minoria, é elementar nos dias de hoje,

precisa de voz. A essa minoria não interessam posições como as

dos que aderindo ao sistema – do qual se tornam apenas “bobos da corte” –, declaram-se, por ledo engano, livres de toda discriminação e com acesso a amplas oportunidades; o que O Lampião reivindica

em nome dessa minoria é não apenas se assumir e ser aceito – o que nós queremos é resgatar essa condição que todas as sociedades construídas em bases machistas lhes negou: o fato de que os homossexuais são seres humanos e que, portanto, têm todo o direito de lutar por sua plena realização, enquanto tal

[...] Mostrando que o homossexual recusa para si e para as demais minorias a pecha de casta, acima ou abaixo das camadas sociais; que ele não quer viver em guetos, nem erguer bandeiras que o

estigmatizem; que ele não é um eleito nem um maldito; e que sua

preferência sexual deve ser vista dentro do contexto psicossocial de uma humanidade como um dos muitos traços que um caráter pode ter, O lampião deixa bem claro o que vai orientar a sua luta: nós nos empenharemos em desmoralizar esse conceito que alguns nos querem impor – que a nossa preferência sexual possa interferir negativamente em nossa atuação dentro do mundo em que vivemos (apud. Green e Polito, 2006: 184-185).

Trevisan (2002) criticando, por exemplo, posturas intelectualóides de alguns antropólogos a respeito da fixação identitária gay, então, em curso no país, parece fechar os olhos para o seu jornal Lampião da Esquina. Enfim, o desejo de não levantar nenhuma bandeira para minorias era, realmente, um grande avanço... No entanto, o arco-íris se tornou o grande destino. Enfim, os anos seguintes demonstrariam que as “bichas” intelectualizadas e artistas de Lampião faleceriam de tédio, se não tivessem falecidos naturalmente (simbolicamente, claro), uma vez que, suas “sucessoras” não aceitaram seus

ditames – digamos artístico-intelectuais – e preferiram polarizar em dois ambientes – mas cursando para a superação de um dos – estes padrões que os lampiônicos desejavam negar em prol de uma identidade ao sabor da boa língua.

2.3.2 “IDENTIFICAÇÕES DESGOVERNADAS: TU ÉS GAY QUE EU SEI”