4.0 DRØFTING OG ANALYSE
4.1.2 Tillit i relasjon med kollegaer
Caracterizar o fenômeno da Nova Era não é das tarefas mais simples, afinal, é um fenômeno extremamente heterogêneo, cuja unidade interna é muito difícil de traçar. Uma análise corriqueira acerca da Nova Era por parte de muitos pesquisadores, conforme indica Magnani (2000), é a identificação dessa nova forma de religiosidade como a expressão máxima do individualismo e, portanto, típica da época do fim da modernidade e em resposta a uma suposta secularização imposta pela racionalidade científica, isto é, “... a Nova Era testemunha tanto a persistência do sagrado na sociedade moderna como as formas inéditas que o sagrado se manifesta na sociedade pós-moderna” (BERZANO,1999, p.9, tradução nossa).
Assim, no limite, o fim da modernidade – e também a crise da racionalidade moderna e iluminista – assiste a explosão de expressões religiosas e místicas como o movimento da Nova Era exemplifica bem. A New Age, surgido no bojo da crise da modernidade e, portanto, em um contexto de forte desinstitucionalização é:
Provavelmente mais idônea e adaptável à essência espiritual do nosso tempo, as distintas doutrinas e as formas espirituais identificados com o termo Nova Era e a sua rápida difusão foram também consideradas como a expressão da crise das religiões do livro e como evidência de uma transformação paradigmática. (DI FELICE, 2005, p.104, tradução nossa)
A nova era portadora de dispersas influências e de uma radical mobilidade interna é um movimento heterogêneo difícil de definir, uma reconfiguração muito eclética de idéias e de ensinamentos, às vezes até contraditórios, de tal modo que:
Mais que um substantivo que possa definir identidades religiosas bem demarcadas, Nova Era é um adjetivo para práticas espirituais e religiosas diferenciadas e em combinações variadas, independentes da definição ou inserções religiosas de seus praticantes (Amaral, 2000, p.32)
É um movimento que, como destaca Magnani (2000), é o resultado de um enorme fluxo entre ocidente e oriente, uma mistura de referências que vai da tradição do oriente, sobretudo das religiosidades hinduísta, taoísta e budista, no qual a idéia de
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imanência é a principal contribuição, passa pelas referências das sociedades iniciáticas ou esotéricas e grupos mágico-ocultistas presentes nas sociedades ocidentais que sempre estiveram à margem dos sistemas filosóficos e religiosos dominantes e chega as referências das cosmologias indígenas e xamânicas da America do norte e dos povos andinos, da qual a idéia de valorização da natureza, que indica a participação de todos os seres em um mesmo movimento cósmico, sem que se distingam do próprio princípio divino, é a principal contribuição.
Como observado por Perniola (2006), pela característica do movimento de confluência de tendências distintas entre si, resultando num movimento de múltiplas formas e indefinido, na Nova era, “... existe uma tendência para anular a percepção da oposição e do conflito: apresenta uma imagem do mundo na qual os contrastes são superáveis pela experiência individual da pacificação e da calma”.
(Perniola,2006,p.26).
Assim, esse enorme leque de influências não vão resultar numa síntese definitiva, antes, no limite, o movimento vai ser marcado por um contínuo dinamismo sem origem e, portanto, numa nova forma de religiosidade que Di Felice (2005, p.105, tradução nossa) denomina de pós-sincrética:
[...] a nova mística e sobretudo as formas de espiritualidades contemporânea, não são definidas como sincréticas porque não são a união de duas ou mais religiões, como também não provêm do movimento diaspórico-linear que hibridiza os elementos identitários de uma religião com as outras. Vice-Versa, parecem mais o resultado de contínuos dinamismos sem origem, nem centro nem periferia, nem unilinearidade, nem monoteísmo, fruto de estéticas temporárias e experimentais, de formas e práticas dinâmicas, que se modificam e se reinterpretam continuamente, sem mais gerar uma forma religiosa ou uma síntese definitiva.
Pensamento similar tem a pesquisadora Leila Amaral (1999) para quem o movimento Nova Era também não pode ser interpretado como um movimento sincrético. A pesquisadora entende a Nova Era como uma religiosidade descentralizada e portadora de uma nova modalidade de sincretismo, que ela denomina de sincretismo em movimento, cuja característica predominante é uma forma de experimentação que busca exceder os limites de significação da modernidade e no qual o dilema da coerência – concordando com Perniola – não é
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posto em questão, afinal, “... é a própria ambigüidade do trânsito que oferece a flexibilidade necessária para o deslizar por domínios inusitados‖ (Amaral,2000,p.206) Fato é que, decorrente desse forte dinamismo, desse processo sempre em curso e nunca finalizado e definitivo, existe um enorme leque de fenômenos que vão receber a denominação de Nova Era, como destaca Magnani (2000, p.42):
A Combinação da multiplicidade de fontes – religiões orientais, tradições indígenas, ritos e mitologias pré-cristãs, conhecimentos esotéricos, contribuições de alguns ramos científicos –, mais o traço de autonomia, que permite junções de toda ordem, nem sempre muito compatíveis, tem como resultado uma multiplicidade de arranjos e propostas.
Em comum toda essa multiplicidade congrega de uma mesma expectativa de mudança e de um mesmo sentimento, o sentimento de que estamos vivendo um momento de mudança radical, vivendo uma mudança de época. A Nova Era se opõe a certos valores ocidentais dominantes:
Ao forte antropocentrismo, que contrapõe o homem a natureza, o espírito ao divino e que distingue, por exemplo, a medicina e a ciência moderna, o movimento Nova Era sustenta certo cosmocentrismo planetário e uma visão holística de todas as coisas. Sua característica é uma forma de pensamento eclético, de tal modo que é possível a convergência entre as religiões místicas orientais e o desencanto religioso do indivíduo ocidental. (BERZANO, p.19, tradução nossa)
Evidente que são transformações que exigem uma radical transformação, que o movimento como um todo é obcecado por alcançar, uma espécie de revolução silenciosa. Tais transformações, conforme Magnani (2000,p.10),“... são entendidas no sentido de um reequilíbrio entre pólos – corpo/mente, espírito/matéria, masculino/feminino, ciência/tradição etc. – até então opostos e em conflito”. Esse
reequilíbrio entre pólos nos remete a um conceito central na Nova Era que é aquele de Holismo( do grego holos, todo) que preconiza que o homem e a terra são partes interdependentes de um único organismo e que o todo não pode ser explicado apenas pela soma de seus componentes. O indivíduo como parte do todo é resultado da relação com o mundo, com a natureza e com o divino, isto é, “Não só o indivíduo não é divisível em si entre corpo e espírito, mas também na sua relação
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com a terra, com o universo e com o princípio divino ele é conjugado em uma unidade profunda”. (Berzano,1999,p.60)
Todos os envolvidos nesse movimento, “... compartilham o mesmo otimismo e a mesma confiança a respeito do futuro, as mesmas atitudes psicológicas e o mesmo desejo ético, a mesma reavaliação do sagrado, a mesma redescoberta da espiritualidade” (BERZANO, 1999, p.9, tradução nossa). Assim, “pode-se afirmar que o elemento mais importante no movimento é a possibilidade de facilitar o processo de transformação” (Amaral, 2000, p.30).
É a expressão ―Nova Era‖ que agrupa todo esse heterogêneo movimento. Ao entender seu sentido original, ligado ao esoterismo, entendemos a razão dessas diversas manifestações poderem estar reunidas sob uma mesma expressão. A esse respeito Magnani (2000,p.9) lembra que:
O Sentido Original da expressão Nova Era provém da cosmologia astrológica: refere-se a uma mudança – ocasionada pela chamada precessão dos equinócios – no aparente trajeto do sistema solar em relação ao zodíaco (uma espécie de faixa com 12 subdivisões projetada na abóbada celeste), ao longo do qual parecem mover-se os astros, perfazendo determinados ciclos. Os astrólogos acreditam que atualmente estamos entrando em uma Nova Era, momento que sempre anuncia ou acarreta importantes modificações para a humanidade.
Evidente que o sentido de Nova Era não se esgota no esoterismo, contudo é importante entender que a partir desse raciocínio estaríamos deixando a era de peixes – que marcou o predomínio do cristianismo e marcou o estilo de vida ocidental – e ingressando na Era de Aquário, que é tida, “... como a era cujo
elemento é o Ar e cujos planetas governantes são Saturno e Urano”
(Terrin,1996,p.15). Essa mudança acontece pois o sol atrasa o ponto da primavera em 51 segundos por ano e a cada 2500 anos a primavera se inicia em outro signo. No caso contemporâneo, a primavera deixaria de iniciar em peixes, para iniciar em aquário. A precessão do ponto vernal no signo de Aquário representaria e permitiria uma série de transformações, provocando aquele sentimento de mudança nos adeptos da nova era, como descrito acima.
O exemplo pioneiro e mais evidente de tais transformações no âmbito cultural e dessa abertura cujo limite é o não-limite, é aquele movimento que ficou conhecido
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por contracultura e marcou a cultura juvenil nos anos 60 que atingiu a esfera da sexualidade, do estilo de vida e dos valores espirituais. Buscou-se construir uma nova cultura que, obviamente, se contrapõe a cultura bíblica. Magnani (2000) lembra, a propósito, que os antecedentes da Nova Era são evidentes mesmo antes da contracultura, notadamente na corrente do transcendentalismo norte-americano, na teosofia, astrologia e em correntes esotéricas e ocultistas européias. Ocorre que com a contracultura, essa tendência se consolida e atinge públicos mais amplos. Historicamente, o movimento até meados dos anos 90 permanecia com o estigma de ser um movimento de uma recusa radical dos valores dominantes associado a um modo de vida psicodélico e rural. Contudo, a partir dos anos 90, ganha uma nova faceta, ligado ao aperfeiçoamento de potencialidades interiores e a busca pela melhoria da qualidade de vida e, portanto, totalmente coadunado com o modo de vida cosmopolita e urbano, a tal ponto dos pesquisadores identificarem o movimento como a expressão do individualismo pós-moderno. É como se o movimento assistisse a uma passagem de uma fase de uma utopia coletiva a uma dimensão de ofertas de soluções individuais.
Nesse sentido, Leila Amaral (2000) identifica duas tendências básicas concernentes a Nova Era. Mesmo raciocínio desenvolve Berzano(1999) que identifica duas correntes no movimento, uma quente outra fria. A primeira tendência, ou corrente quente – ligada aos primórdios do movimento – está associado com o modo de vida contestador dos valores centrais e ligada à exploração de novos sistemas religiosos, que busca cultivar a transformação e o crescimento espiritual do indivíduo e sobretudo da humanidade. Nessa corrente há até a criação de comunidades alternativas que se apresentam como novos movimentos religiosos, inclusive com membros definitivos. No Brasil atualmente dois casos são emblemáticos dessa tendência, a Doutrina do Santo Daime e o Vale do amanhecer61.
Apesar das idealizações dessas comunidades, há outra tendência mais significativa do movimento, uma corrente fria da Nova Era (Berzano,1999) não só ligada à busca pela visão transformadora de si e do mundo e pelo desejo de ultrapassar os limites dos velhos paradigmas ocidentais, mas principalmente uma corrente que está
61 Amplamente presentes na Internet nos sites oficiais: http://www.santodaime.org/e
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atrelado ao empreendedorismo econômico, a produção e o consumo. É um novo modo de lidar com a religiosidade que se coaduna com a época de crise da modernidade e da crise das grandes religiões burocratizadas, um modo – como lembra Perniola (2006) – indefinido, mas economicamente rentável.
Na Nova Era, sobretudo nessa tendência, não há um clero especializado, não há uma rigidez doutrinária, não há práticas proselitistas, muito menos congregações estruturadas e igrejas permanentes. Há uma facilidade de trânsito enorme e assim não há a figura do ―new-ager‖, afinal não há fixação e tampouco conversões de qualquer ordem, a participação – que varia de um participante mais ativo, a um mero simpatizante ou consumidor – é sempre voluntária e tolerante. Como lembra Magnani (2000,p.38), na Nova Era “... sem a presença de uma autoridade central, a maior parte dos sistemas e integrantes com ela identificados define-se pelo caráter autônomo, aberto e não-dogmático”.
Nessa tendência os chamados centros holísticos têm importância capital. São centros integrados geridos de modo empresarial e que num mesmo espaço congrega atividades para desenvolver integralmente as capacidades humanas, com palestras, cursos de formação, vivências, terapias alternativas, venda de produtos, enfim toda a sorte de ofertas de serviços ligadas a essa nova maneira de lidar com os fenômenos religiosos. Dentro do território urbano, como lembra Magnani (2000,p.33), o conjunto desses centros holísticos formam um circuito “... ao longo do qual os usuários, adeptos ou freqüentadores ocasionais constroem seus trajetos e fazem suas escolhas”.
É uma religiosidade porosa, no qual não há um agendamento e, portanto, esses centros não exercem uma função hierárquica dentro do movimento. A Nova Era, assim, se apresenta também em sua manifestação concreta e nas suas atividades de modo indefinido e multiforme, afinal, os centros holísticos são, antes, pontos de referências heterogêneos, abertos a vários campos de sentido e no qual cada um constrói seu próprio trajeto, sempre singular, numa busca, antes de tudo, individualizada:
Através de suas publicações e centros locais, os diversos interessados mantêm-se informados sobre a rede de serviços, práticas, palestras, workshops e vivências, oferecidos pelo movimento no seu conjunto. Mas, se não há, como não havia, nos
191 seus primórdios, uma organização central, existem pontos de encontros ou Centros Holísticos que apresentam um conjunto eclético de crenças e atividades ao redor de um amplo leque de interesses, passando pela religião, filosofia, misticismo, saúde, psicologia, parapsicologia, arte, ecologia e o oculto.(AMARAL, 2000,p.29).
Diante dessa apresentação sumária da caracterização do movimento Nova Era, que percebemos sobretudo como uma religiosidade do indefinido, do caótico, é perceptível o porquê de apontarmos tal movimento como um movimento espiritual e místico eminentemente comunicacional. Cabe agora explorar mais detidamente essa característica da Nova Era.
4.1.1- Nova Era e Mídia
A relação entre comunicação e religião não é exclusiva da Nova Era, sustentamos que não há tecnologia midiática que deixe de influenciar o seu ambiente sociocultural, inclusive os fenômenos religiosos. A particularidade da Nova Era é que sua gênese e desenvolvimento estão atrelados ao advento e difusão dos meios de comunicação eletrônicos (rádio, cinema, televisão), que, no limite, nos faz concluir que a Nova Era é um fenômeno místico-comunicativo, por excelência.
Podemos, portanto, considerar a grande influência dos meios eletrônicos no advento da Nova Era, não porque eles se valem muito deles, ou tem na eletricidade um elemento místico, como o movimento neo-pentecostal ou o espiritismo, até porque, muitas vezes o movimento parece rejeitar a tecnologia e estilo de vida ocidental, resgatando modos de vida tidos como mais naturais.
Contudo, sendo sua marca esse enorme fluxo informativo entre diversas tradições místicas do ocidente e do oriente fica difícil entender essa mistura de tendências por vezes até contraditórias e essas novas formas de sincretismos sem o papel determinante das mídias eletrônicas. Não é por acaso que ocidente começou a olhar para a mística do oriente justamente no bojo da modernidade, da revolução industrial e da comunicação eletrônica. Grande marco dessa virada de olhar aconteceu em 1983 quando os representantes de todas as religiões mundiais se
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reunirão em Chicago no parlamente mundial das religiões, um evento extremamente comumicacional. É o mundo das comunicações generalizadas que trouxe à superfície uma multiplicidade de racionalidades locais, toda a sorte de minorias religiosas, que como lembra Vattimo (1990), estavam reprimidas pela idéia de que havia somente uma forma verdadeira de não só, realizar a humanidade, como também, vivenciar a religiosidade.
Ademais desses pressupostos comunicativos para a possibilidade do fluxo informativo de religiosidades diversas, essencial para a gênese da nova era, vale ressaltar o papel determinante da comunicação para a difusão do movimento.
Por exemplo, a contracultura, como já apontado, foi aquele momento de grande visibilidade da Nova Era, que como movimento ainda era muito incipiente. A contracultura foi uma experiência extremamente comunicativa, basta refletirmos sobre o papel da música e do cinema para entender o quão comunicativa foi essa experiência dos anos 60. A música, sobretudo o rock psicodélico, sem dúvida, nessa época, foi a grande responsável para a visibilidade dessa nova religiosidade que então emergia, suas letras amiúde faziam alusão aos temas dessa nova forma de mística. A música e a poesia de Jim Morrison, registrados no filme de Oliver Stone, é um exemplo clássico. Sem falar do filme Hair, que ecoava os primeiros temas da Nova Era e mostrava o sonho em que o momento da Era de Aquário chegaria. Também vale destacar o papel do mercado editorial no crescimento posterior da Nova Era, afinal durante muito tempo foram às revistas especializadas e os milhares de novos títulos lançados todos os anos que serviam de guia para aqueles que experimentavam a Nova Era.
Assim, percebemos que o papel da comunicação está não só na origem e nos primórdios do movimento – ao permitir os fluxos informativos de inúmeras tendências místicas – como também no seu desenvolvimento e expansão.
Percebe-se, portanto, que a Nova Era é expressão da crise da modernidade, tanto porque representa o descrédito das instituições religiosas tradicionais e por suas expressões estarem articuladas sem a presença de uma autoridade central se definindo como autônomas, abertas e não-dogmáticas, como porque teve como elemento fundamental para sua gênese e desenvolvimento as mídias.
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4.1.2 New Age Network
É característica fundamental da Nova Era o modo organizativo em rede – uma rede de redes – complexa e extensa, no qual fazem parte diversos atores, desde terapeutas, lojas especializadas, simpatizantes, centros holísticos, etc. É uma rede que envolve todos os envolvidos, sem posições hierárquicas, sem agendamento central, no limite, sem centro e sem periferia. Portanto, a Nova Era – que surgiu num contexto pré-digital – é naturalmente organizada em rede: “A Nova Era é uma rede
de redes, isto é, é um conjunto de redes abertas, flexíveis, segmentadas, composta de tantos elementos em interação livre entre eles, com qualquer finalidade comum, mas com muita autonomia”. (BERZANO, 1999, p.23, tradução nossa.)
Percebe-se, portanto, uma natural afinidade entre a filosofia das redes digitais e a Nova Era. No limite, a rede permite levar a cabo o ideal da ‗conspiração de aquário‘,conforme a expressão cunhada pela escritora new age Marilyn Ferguson que em 1980 definiu a Nova Era como uma rede: “ A conspiração de aquário é uma rotação de rotações, uma rede de redes cuja vocação é a transformação social. O seu centro esta em toda parte, e seu projeto essencial é a redistribuição do poder”(FERGUSON,1980, apud BERZANO,1999,p.24, tradução nossa). Com as
redes digitais o ideal de um modo organizativo elástico que permite a cada componente ser o centro, é potencialmente elevado. Para o Movimento Nova Era, a metáfora da rede não tem uma dimensão apenas técnica, como também mística e espiritual:
A metáfora da rede, enquanto rede de comutação ou conjunto de relações compreende seja uma dimensão técnica quanto espiritual, isto é, é o instrumento mais adequado para relações de tipo global, mas também é uma forma que alguns new agers difiniram como mística por sua profundidade. Enquanto sistema aberto, a rede se mantêm em equilíbrio de acordo com sua constante flutuação e transformação(BERZANO,1999,P.24,tradução nossa)
Assim, cabe se questionar agora como o deslocamento da religião para as redes digitais influencia a religiosidade contemporânea especificamente no que se refere ao movimento da Nova Era, afinal:
194 A constituição das redes e sua crescente expansão são extremamente correlatas ao desenvolvimento da tecnologia informática. Os meios informáticos, de fato, oferecem a possibilidade de colocar em contato indivíduos e grupos com interesses similares, sobretudo na atual sociedade diferenciada e complexa. (BERZANO,1999,P.23, tradução nossa)
Diante do inegável e significativo deslocamento da Nova Era para as redes digitais o movimento pode ser definido contemporaneamente como sendo totalizante sem ser autoritário, no limite, uma rede planetária. Assim, o deslocamento da Nova Era paras as redes digitais forja :
Uma rede global composta por um conjunto de símbolos, crenças, palavras e práticas de todo gênero, que uni os indivíduos independente de sua identidade primária, étnica, cultural, religiosa. A rede da nova era une, em um único e eclético amálgama, saberes antigos e ciência moderna, tradição secular e tecnologia pós- moderna, percursos de iniciação, métodos formativos, terapêuticos e espirituais diversos (BERZANO, 1999, p.9, tradução nossa)
É natural, portando, que a introdução da tecnologia digital propicie transformações no bojo do movimento, mais, nos parece, no sentido de reforçar o movimento e lhe dar contornos ainda mais radicais, do que a ele se contrapor. Partindo dessa hipótese empreenderemos nossa pesquisa empírica com o intuito de perceber se certas características do movimento sofreram um processo de radicalização, ou seja, buscamos entender se características como ser um movimento sem centro, e conseqüentemente sem periferia e sem burocracia que se manifesta em ações convergentes sem controle e nem organização, entre outras características, são