4. Analyse
4.2 Tillit
graus de sugestão e indicações bem precisas. Aparecem os diversos corretivos para tons de pele, maquiagem, e reflexões de luz. www.roscobrasil.com.br/filtros_supergel.htm
Roberto Gill Camargo25 afirma que a relação entre iluminação e realidade é de correspondência e analogia e não de semelhança e identidade, pois sabemos que os equipamentos possuem limites na sua capacidade de mimetizar a natureza. A linguagem teatral fundamenta-se desde sempre na criação de convenções entre a cena (palco) e a platéia (o público e sua imaginação).
A intenção realista na representação da luminosidade dos espaços obedece a uma lógica observância das características da luminosidade na realidade, e suas leis físicas, principalmente a angulação da luz solar, geratriz de sombras de diversos tamanhos, como desenvolveu McCandless nas suas teses até hoje canônicas sobre a afinação de PC’s, no palco italiano.
O estilo realista em iluminação deve observar com criteriosa atenção os ‘princípios de analogia’, pois como Gill Camargo afirma com bastante pertinência:
A iluminação realista não possui autonomia. Seu poder de intervenção é condicionado às circunstâncias de tempo e espaço fictícios. É um elemento passivo no conjunto do espetáculo, atuando como uma parte da cenografia e confundindo-se com ela.
Numa encenação ‘realista’ um item importante da tarefa do iluminador é o controle em todos os detalhes das fontes de luz e sua incidência sobre objetos e superfícies, e as respectivas sombras geradas, de forma a imitar a realidade.
Portanto, é muito importante o controle das sombras que se apresentam à retina do espectador. As sombras dos corpos dos atores não poderão banhar os cenários aleatoriamente, e só serão permitidas se alguma convenção realista estiver presente como na foto 2: a luz do sol ou do luar banha uma janela em determinada angulação e passa pelo ator gerando uma sombra. A sombra que o espectador verá tem uma intenção ‘realisticamente motivada’, que é a luz (do sol ou do luar) entrando pela janela.
Foto 2 - Ziembinski em "O Grilo da Lareira" 1951 – TBC Foto: Fred Kleeman
Vemos aqui a lição deixada por Van Eyck, pintor europeu da época do Renascimento, e suas sombras ‘realisticamente motivadas’ em pleno exercício no teatro.
As convenções realistas não precisam de muita participação da interpretação da platéia para serem compreendidas. Elas se dão mais por denotação e por ‘circunstâncias dadas’ para usar uma expressão de Stanislavski, um dos mestres do Naturalismo.
Sabemos que o cinema e a fotografia são linguagens capazes de um movimento mimético superior às potencialidades da linguagem teatral, e que a encenação teatral em boa parte da sua história desenvolveu-se no âmbito da referência ou da sugestão da realidade. E podemos pensar aqui na encenação elizabetana e mesmo no ilusionismo que se iniciou no Renascimento, que ainda era um realismo de sugestão. Dessa maneira a luz trabalha muito mais com a ‘sugestão da luminosidade’ natural, que hoje os filtros de cor e lentes, conseguem dar muito bem ‘conta do recado’.
Porém, Max Keller, que paradoxalmente foi um dos maiores estudiosos de como reproduzir a luz branca do dia na sala escura do teatro noturno26, afirma que “o trabalho do iluminador não é transferir o fenômeno da luz natural para dentro de um espaço fechado, ele tenta criar uma atmosfera relacionada ao momento, usando os recursos técnicos do desenho de luz artificial.” (KELLER, 1989, p.5)
Nas encenações contemporânea muitas cenografia realistas operam uma depuração dos objetos e elementos cenográficos, indo em busca de imagens que configurem uma sugestão ou alusão de realidade. Mas ainda assim, a fábula, o jogo e as imagens continuam ancorados em convenções realistas.
Simbolismo
O Simbolismo foi, talvez, o movimento teatral que mais contribuiu para o avanço do espaço que a luz teatral ocupou nos espetáculos desde o fim do século XIX. Esse estilo em iluminação teatral iniciado por Edward Gordon
26 Max Keller esteve no Brasil em 1989 fazendo palestras em São Paulo e Rio sobre suas pesquisas com lâmpadas HMI para conseguir no palco luminosidades cada vez mais brancas, na intenção de recriar a luz do dia na cena, livrando-se aos tons de âmbar e vermelho embutidos nas lâmpadas halógenas tradicionais.
Craig e Adolphe Appia foi responsável, direta ou indiretamente, por toda a imensa pesquisa tecnológica que fez desenvolver as lentes das fontes de luz, o uso da cor na cena através dos filtros coloridos e de efeitos (gelatinas e gobos), além de muitos outros recursos para transformar o espaço cênico, principalmente a caixa preta do palco italiano, num vivíssimo quadro em movimento organizado em formas, linhas, volumes, luzes e sombras, onde a imaginação do artista plástico tem que acompanhar o trabalho do encenador e do iluminador.
As questões das artes plásticas alimentaram muitos temas teatrais desde então; cores e texturas de figurinos e cenários passam a ser abordadas em harmonia com conceitos e intenções expressivas, e não só como indumentárias e ambientações verossímeis para as situações da fábula.
Desse estilo teatral em luz ficou-nos também a técnica de pensar os espaços cênicos como atmosferas especialmente preparadas para sensibilizar os sentidos do espectador, onde as cores utilizadas podem estabelecer camadas de percepção e significância simbólicas.
Em iluminação a questão da construção simbólica se apóia enfaticamente num imaginário que possa ser compartilhado entre o espectador e a cena, e construído, literalmente, com imagens e ‘sensações’ a serem despertadas utilizando toda a capacidade que esse encontro vivo entre palco-platéia tem para ser, potencialmente, emocionante e impactante num nível de comunicação que vai além da palavra e do enredo; e onde essas instâncias da encenação (opsis), podem adquirir maiores poderes de expressão por meio da liberdade de criar ‘maneiras de olhar’ o espetáculo, nos mais diversos contextos técnicos.
Antonin Artaud fez desse uso da luz sua proposição estética em iluminação no seu Teatro da Crueldade:
A ação particular da luz sobre o espírito passa a fazer parte do jogo dramático, novos efeitos de vibração luminosa devem ser procurados,
novos modos de difundir a iluminação em ondas, ou por camadas, ou como uma fuzilaria de flechas incendiárias.27
Dentro desse espírito de atmosferizar por intermédio da luz, utilizam-se todos os ângulos possíveis para atingir pontos do espaço com luminosidades, inclusive o corpo do ator que será iluminado de várias maneiras, e não só aquelas ‘realisticamente motivadas’, e tampouco se orientará por convenções que precisem reproduzir luminosidades naturais.
Figura 4 - "Bonitinha, mas ordinária" – Dir: Eduardo Wotzik 1991. Foto: Guga Melgar
Os próprios feixes de luz desenhando linhas no espaço tornam-se componentes da construção visual. Essas intenções de atmosfera e desenho ganham reforço com a utilização da fumaça (figura 4).
O lugar das sombras
Gordon Craig pedia a Bolelavski em 1905, numa carta28, a seguinte luz para a cena do assassinato do rei em Macbeth de Shakespeare:
Na cena do assassinato alguma coisa como isto. A fumaça da neblina se espalha lentamente durante a cena. Tente manter isso frio, estranho, parecendo terrível. Tente espalhar a escuridão como se fosse um véu. Então, enquanto o assassinato estiver sendo cometido,(...)permita um lento mas nítido descender da sombra, não um esmorecimento da luz.(...) tente arrancar as sombras das telas no pano de fundo, ou o que houver por trás dele. Nunca se preocupe por onde elas se enfiem mas use-as para colaborar na irrealidade da situação. Não fabrique as sombras, deixe que elas venham se vierem e puderem, enquanto você está iluminando o todo da cena. Tente colorir cada tela do fundo com verde, azul,ou cinza. Se você não conseguir então varie as cores para que lhe sirvam, mas sem vermelho ou laranja. [grifos nossos].
Vemos que nessas instruções para o desenho de cor e intensidade da luz descrita com detalhes precisos, Craig solicita a sombra, confere-lhe movimento, liberdade, importância para o desenrolar da ação, e para a impressão visual necessária para criar o clima gélido do assassinato, que envolverá os atores e personagens, onde certamente não cabem cores quentes
28 Extraído da Revista The Mask “In the murder scene something like this. The fog to sink