Uma investigação científica no campo da Ciência da Informação, especificamente em Jornalismo, arrola conhecimentos de outros campos das Ciências Humanas e Sociais. No caso desta tese, que transita principalmente nos campos da História e do Jornalismo, os paradigmas que pretendem balizá-la do ponto de vista conceitual e metodológico se pautam numa tentativa de situá-la na tradição interpretativa, sem, entretanto, abrir mão de uma abordagem quantitativa para visualizar na totalidade do objeto as ocorrências que ratificam o elemento qualitativo da análise. Nomeadamente, pode-se dizer que esta investigação se situa na perspectiva da grounded theory.
Para Clara Coutinho (2014 p.17), a grounded theory parte da gênese do positivismo de Comte, do empirismo de Locke e das aproximações interpretativas da fenomenologia de Husserl e Schutz. “De uma forma sintética pode afirmar-se que este paradigma pretende substituir as noções científicas de explicação, previsão e controlo do paradigma positivista pelas de compreensão, significação e ação. ” Ora, do ponto de vista desse paradigma, Coutinho refere ainda que para analisar os significados dos atos humanos é preciso situá-los a partir de um pano de fundo, “num dado contexto social”, tendo como
premissa que aquele que se propõe a tarefa de interpretação sempre a faz duplamente a partir de si de mesmo, ou nas palavras da autora “investigar implica interpretar ações de quem é também intérprete, envolve interpretações de interpretações (...). Além de parciais e perspectivadas as interpretações são circulares” (Coutinho, 2014, p. 18).
Assim, esta investigação surgiu do problema que indagava como se caracterizou a cobertura da Primeira Guerra Mundial a partir de jornais brasileiros, mais particularmente, em três jornais do estado do Pará, na região Norte do Brasil. A escolha pelos jornais em tela nasceu da pesquisa exploratória inicial, a qual apontou para três jornais. A Folha do Norte e o Estado do Pará e o A Tarde. Os critérios utilizados para a seleção dos periódicos se deram a partir das seguintes premissas: 1) jornais generalistas de circulação regular durante o período da Grande Guerra, 2) longo tempo de permanência no cenário da imprensa local, 3) o uso de elementos gráficos como imagens e fotografias, e 4) incorporação de conteúdo proveniente de agências de notícias e/ou correspondentes. Nesse caso, os dois primeiros jornais atendiam plenamente a esses critérios. O terceiro jornal, de caráter ocasional, de periodicidade circunscrita a determinado período, faz um contraponto aos dois anteriores, pois surgiu em 1915 e cessou em 1916, com linha editorial visivelmente germanófilo. A análise do A Tarde presta-se à verificação do surgimento de uma imprensa pontual e que destoava de boa parte do jornalismo do período, mas que compunha o fenômeno de abundância de publicações no Pará nos final do século XIX e início do século XX, conforme já mencionado no capítulo anterior. O próximo capítulo trata de detalhar o histórico de cada um dos jornais.
Certamente havia outro jornal de referência que se julga preencher os mesmo pré- requisitos no tocante ao perfil generalista e de longo tempo de permanência, o A Província
do Pará, entretanto, esta deixou de circular em 1912 e só retornou em 1919, portanto, não
cobria o período compreendido pela Grande Guerra.
Além da análise da natureza da cobertura de cada jornal ao longo da Grande Guerra, o capítulo cinco ainda se atém às análises cruzadas com o objetivo de perceber-se as aproximações e distanciamentos entre as coberturas, mesmo que isso signifique em certa medida deixar de fora um ou outro aspecto que possa traçar as diferenças, para tal a
pesquisa que ora apresenta-se nesta tese orientou-se por uma análise longitudinal que permitirá identificar as oscilações na cobertura.
Também utiliza-se secundariamente nas análises o material iconográfico, nomeadamente as fotografias, as fotos-legendas e as ilustrações. Nesse quesito, a iconografia serve para completar a interpretação do material jornalístico, portanto, basicamente é um acessório descritivo, por isso mesmo não se utiliza o ferramental semiótico – que seria o mais adequado se o objetivo principal deste estudo fosse o estudo iconográfico.
4.1. A opção pelas análises quantitativa e qualitativa do discurso
Nesta investigação, optou-se por analisar o universo dos jornais paraenses usando as ferramentas de análise de discurso. Jorge Pedro Sousa (2006) oferece uma sistematização pertinente sobre os tipos esses dois tipos de análise. A primeira diz respeito à análise quantitativa do discurso, ou a análise de conteúdo. A análise de conteúdo é uma ferramenta bastante utilizada pelas ciências sociais para investigar o comportamento de um dado fenômeno, notadamente perceptíveis por meio de análise de textos. Martin Bauer afirma que a análise de conteúdo “reduz a complexidade de uma coleção de textos. (...) É uma técnica para produzir inferências de texto focal para seu contexto social de maneira objetivada” (Bauer, 2002, p. 191).
i. Análise quantitativa do discurso
Pode-se dizer que a AC adequa-se bem aos estudos dos media. Sousa (2006; 2015), Hohlfelt e Strelow (2008); Wimmer e Dominick (1996) e Bauer (2002) assinalam que a AC é um método sistemático, objetivo e que tem por finalidade de dimensionar determinadas variáveis de um determinado fenômeno de investigação. O uso de ferramentas estatísticas para definir as amostras de um amplo corpus de estudo possibilita a delimitação, a identificação e a descrição de um comportamento ou elementos referencias para uma análise quantitativa. Assim, do ponto de vista quantitativo, utilizou- se técnica estatística de Estratificação Amostral Sistemática75, que possibilita verificar o
75A técnica de Estratificação Amostral Sistemática baseia-se na definição do número de unidades de
análise. A amostra estratificada diz respeito a separar parte da amostra que possuam determinadas características de investigação, nesta pesquisa o estrato da imprensa paraense no período está relacionado aos três jornais selecionados.
comportamento do fenômeno a partir do uso de uma amostra randômica dentro da estratificação proposta.
Dentro dos estratos amostrais, identificou-se num recorte mais macro duas categorias principais: Gêneros Informativos e Cobertura Dedicada. A primeira procura identificar elementos de cunho opinativo como: os artigos de fundo, os editoriais; e os noticiosos tais como: as reportagens, as notas telegráficas (seção que em geral se concentravam as últimas notícias via agências de notícias) e as fotos-legendas. Sabe-se que a noção de gêneros jornalísticos tal qual se conhece na atualidade ainda não estava bem delineada na primeira década do século XX, pois a própria evolução do conceito de jornalismo tratou de defini-la posteriormente, sobretudo após as duas Guerras Mundiais. Entretanto, é possível adequar a ideia de gênero informativo, pois os achados nos jornais já apontavam para a presença desses formatos jornalísticos nos anos 1910. Nesse sentido, Sousa (2006), afirma que a própria definição de gêneros não possui “fronteiras rígidas” e a linha que separa um formato de matéria de outro nem sempre está bem definida, portanto, não se pode dissociar a noção de gênero jornalístico do seu contexto. “Os géneros jornalísticos existem em determinados momentos e contextos sócio-histórico-culturais. Há, certamente, géneros jornalísticos que ainda não viram a luz do dia e outros que já não se praticam” (Sousa, 2006, p. 706).
A segunda macro categoria denomina-se Cobertura Dedicada e foi idealizada a partir da análise exploratória e diz respeito ao espaço dedicado para informações dedicadas que surgiram conforme o conflito se intensificou e a cobertura ampliou-se. Identificou-se que quatro modalidades nessa categoria: Portugal na Guerra, Estados Unidos na Guerra, Brasil na Guerra e Conflagração Europeia. Esta última aglutinava informações de modo sistemática e quase que diário sobre o desenrolar dos acontecimentos nos fronts. Assim, a seleção de unidades de análise foi dividida da seguinte forma:
1) Gêneros Informativos Opinião o Artigo de fundo o Editorial Notícia o Reportagens o Notas telegráficas
o Fotolegenda 2) Cobertura Dedicada
o Portugal na Guerra
o Estados Unidos na Guerra o Brasil na Guerra
o Conflagração na Europa.
Como a análise de conteúdo adotada nesta investigação utiliza para o cálculo amostral a distribuição das proporções e a correção para pequenas amostras a partir da seguinte população-alvo (universo de análise), tendo como foco as páginas onde se localizavam o material informativo sobre a Grande Guerra. Para os jornais Estado do Pará e Folha do
Norte, considerou-se desde a edição do dia posterior ao assassinato do Arquiduque
Francisco Ferdinando e esposa, 29 de julho de 1914 até o dia 11 de novembro de 1918, quando foi declarado feriado no Brasil para comemoração do armistício. Para o jornal A
Tarde, parte desde o dia 01 de outubro de 1915 - a primeira edição disponível no Arquivo
Público do Pará e que se trata da sétima edição, conforme registro no topo da página – até a edição do dia 30 de novembro de 1916, última disponível no Arquivo. Não serão objeto de análise as notícias locais ou nacionais (apenas quando da análise qualitativa para algum contraponto necessário) e nem as páginas de propaganda e publicidade. Os três jornais juntos contabilizam um total de 3.589 edições, aproximadamente 13.626 páginas, que estão divididas da seguinte forma:
Folha do Norte, de 30 de junho de 1914 a 28 de novembro de 1918, 1.612 edições e
6.448 páginas que serão subdivididos para análise, Capas – 1.612 páginas e Outras folhas – fl2 a fl4 – 4.836;
Estado do Pará, de 30 de junho de 1914 a 28 de novembro de 1918, 1.612 edições e
6.448 páginas que serão subdivididos para análise, Capas – 1.612 páginas e Outras folhas – fl2 a fl4 – 4.836;
A Tarde, de 01 de outubro de 1915 a 30 de setembro de 1916, 365 edições e 730
páginas que serão subdivididos para análise, Capas – 365 páginas e Outras folhas – fl2 –365.
Para o cálculo do tamanho da amostra, utilizou-se o proposto por Anderson et al. (2002). Os autores sugerem que a partir de cada estrato, calcula-se o tamanho amostral considerando intervalo de confiança de 95% e admitindo-se 10% de erro para cada um deles individualmente, quando considerados no conjunto, espera-se um erro de 3,84% no total. Tendo em vista os estratos terem uma quantidade estatisticamente finitas, ou seja,
estão abaixo de 10 mil, utilizou-se a fórmula de correção das populações finitas (N-n/N- 1) para o cálculo do tamanho da amostra nas Distribuições das Proporções, conforme (Bracarense, 2012, p. 109). Então, para o cálculo amostral considerou-se:
n = tamanho da amostra (a ser calculado) D = Erro permitido ou aceito (10%)
p = porcentagem do sucesso (adotou-se 50% para cálculo amostral) Z = variável padronizada => intervalo de confiança adotado 95% Z = 1,96 => intervalo é de 95,000%
�2 = variância
�2 = p(1-p) [nas distribuições das proporções]
Assim: � =σ� � �−��− , � =� −� � � �−� �− ou � = � +� −� ��− � Para os estratos:
Folha do Norte e Estado do Pará
N = 1.612 , Z2 = 1,962 = 3,8416, P = 50% e D = 10 Assim temos: � = .6 + . −− , , � = .6 + .∗ , − = 91 A Tarde: N=204 � = 4 + −− , , � = 4 + ∗ ,− = 66
Para a seleção de cada observação da amostra em cada estrato, utilizou-se a técnica da
Amostragem Sistematizada. Assim, nos dois jornais (Folha do Norte e Estado do Pará)
com N=1.612 e n=91, teremos um k=1.612/91=17 e para o jornal (A Tarde) com N=204 e n=66, teremos um k=204/66=3. Na seleção da primeira amostra dos dois jornais maiores encontrou-se aleatoriamente entre um a 17, o número 10, assim a décima edição contando do dia 30/06/1914 é a do dia 09/07/1914 encontrando-se as demais de 17 em 17 edições. Na amostra do jornal A Tarde, o número sorteado entre um e quatro foi o dois. Assim, a amostra foi selecionada a partir da segunda edição disponível após o dia 25/09/1915 é a do dia 02/07/1914 encontrando-se as demais de três em três edições disponíveis (Ver Apêndice 2 - Tabela de Categorias Quantitativas).
ii. Análise qualitativa do discurso
Aliado à análise de conteúdo, busca-se nesta tese uma leitura interpretativa do fenômeno da cobertura jornalística dos jornais paraenses sobre a Grande Guerra, a partir da análise qualitativa do discurso e tendo como pano de fundo o contexto histórico internacional, nacional e regional. Sousa (2015; 2006) explica que o uso de dados quantitativos aliado à análise do discurso concedem mais consistência aos estudos. Para o autor, ao se propor a usar a análise qualitativa do discurso, o investigador deve “localizar, identificar, selecionar, recolher, descrever e analisar elementos de interesse para a sua pesquisa (...) e procurar individualizar, circunscrever e definir os itens que vai analisar nos documentos que se propõe analisar” (Sousa, 2006, p. 679-680).
Neste estudo identificou-se uma grade de análise a partir das seguintes perguntas de investigação:
P1) A cobertura sobre os fatos e desdobramentos que culminaram com a I Guerra Mundial foi realizada de modo sistemático pelos principais jornais impressos de capital do Pará? P2) A cobertura dos jornais paraenses tendeu a se enquadrar de modo neutro, pró-Aliados, Germanófilo ou Germafóbico conforme o conflito se acirrou?
P3) A partir do “endurecimento” do conflito, a imprensa ocasional surgiu como contraponto Germanófilo, corroborando, de certa forma, com manifestação de admiração pelas noções de “raça forte”, “disciplinada” comuns no ideários eugênicos que persistiram no Brasil pós-colonial até em cidades não povoadas com imigrantes alemães?
P4) A cobertura no período se deteve mais em temas como a eleição para o governo do estado em pleno conflito, demonstrando o quanto a imprensa local, a despeito de se cobrir eventos internacionais preteria-os diante da cultura do jornalismo local que era essencialmente panfletário?
P5) Os jornais, eventualmente, apontavam os efeitos da crise no abastecimento de gêneros de primeira necessidade, preços da borracha, escassez de carvão mineral (e efeitos na devastação da floresta pra produzir carvão vegetal), papel e demais produtos afetados pela guerra e o bloqueio marítimo?
iii. Categorias analíticas qualitativas
A análise qualitativa surge a partir da grades de análise que estão divididas quanto ao Tema, Enquadramento, Adjetivação de Atores e Assuntos Tangenciais. Essas categorias estão relacionadas e com fatos que marcaram os anos da guerra, numa tentativa de abarcar os principais eventos de forma cronológica. Obviamente que não será possível cobrir todo conflito e os vários episódios que conduziram a guerra por mais de quatro anos. Contudo, acredita-se que ao pinçar as batalhas, os massacres, as armas químicas e os esforços de paz criar-se-á um fio condutor para compreender os enunciados presentes nos jornais. Quanto as aspectos recortados para a análise, usou-se nos temas uma redução dos e
Com a clareza de que em um corpo de trabalho de mais de 13 mil páginas, é provável que partes relevantes possam estar de fora da análise, espera-se compreender minimamente a cobertura dos jornais paraense a respeito da Grande Guerra. Entretanto, procurou-se a partir da eleição de categorias já dimensionadas em outros trabalhos de análise qualitativa do discurso avaliar o comportamento dos jornais em relação aos eventos pré-guerra e pós- armistício.
A escolha temática refere-se praticamente aos tópicos discutidos no segundo capítulo desta tese, no qual o contexto da guerra se desenvolveu, tendo em conta oito macro temas, mas que não impediram a análise de outros aspectos ao longo do estudo dos testos e imagens dos jornais tais como dificuldades da cobertura a distância esclarecimentos de boatos e horizontes de análise do pensamento militar das potências envolvidas, dentre outros. O enquadramento é o que permite visualizar as duas dimensões do discurso (Sousa, 2015). A primeira que dá conta do caráter objetivo dos fatos, em geral, seguem a linha da descrição pura e simples. A segunda diz respeito às interpretações que surgem a partir dos sentidos que emergem do discurso ao contextualizá-lo histórica e socialmente. A categoria de Adjetivação dos Atores é complementar ao enquadramento, pois a partir da identificação das formas enunciativas que qualificam os países, os governantes e os comandantes de destaque ao longo do conflito é possível estabelecer maior percepção dos posicionamentos que os jornais assumiram ao longo de mais de quatro anos de cobertura.
Quadro 04 - Categorias de análise qualitativa quanto aos temas Temas
Eventos pré-guerra
Mobilização e movimentação de guerra Guerra terrestre, submarina e aérea Neutralidade brasileira
Portugal e Estados Unidos na guerra O Brasil vai à guerra
Quadro 05 - Categorias de análise qualitativa quanto aos enquadramentos Enquadramento
Neutros Pró-Aliados
Pró-Potências Centrais
Quadro 06 - Categorias de análise qualitativa quanto à adjetivação dos atores Adjetivação dos Atores
Franceses Ingleses Russos Portugueses Norte-Americanos Alemães Austro-Húngaros Brasileiros
Quadro 07 - Categorias de análise qualitativa quanto aos assuntos tangenciais Assuntos Tangenciais
Borracha
Abastecimento e carestia de preços Política Interna
Gripe espanhola Outros
Os quadros acima se propõem a estabelecer um norte para a coleta de informações para a análise qualitativa objeto do próximo capítulo. Convém esclarecer que na seção que se atém ao estudo do jornais na abordagem os temas surgirão na forma da discussão entre os achados no corpus de investigação e o pano de fundo histórico e conceitual que sustenta o diálogo entre a História e o Jornalismo.