Recentemente, teóricos e investigadores têm centrado os seus estudos no papel que as relações de vinculação desempenham nas várias dimensões do desenvolvimento humano, entre outras, a construção da identidade, da intimidade e o desenvolvimento vocacional, por considerarem a vinculação como uma dimensão nuclear no desenvolvimento em geral, porque os padrões de vinculação, construídos na infância e reconstruídos ao longo do ciclo vital, são o suporte para a construção de vinculação na idade adulta; isto é, a qualidade das relações precoces com os outros significativos que configura a construção de representações internas irão nortear o sentido de segurança pessoal na adaptação psicológica e social do sujeito aos vários contextos de vida, incluindo o profissional (Ainsworth, 1989; Bowlby, 1982, 1988).
Na linha dos trabalhos de Bowlby e colaboradores (Ainsworth, 1989; Bowlby, 1982), o constructo de vinculação parental refere-se aos laços afectivos fortes que a criança constrói com os outros significativos (normalmente os pais) desde as fases mais precoces e que irão proporcionar a construção de um self seguro14. São as regularidades estruturadas nas interacções com as figuras significativas, construções de representações internas de vinculação, que constituem o núcleo duro da relação de
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A qualidade da vinculação com as figuras parentais é conceptualizada como base segura, quando promove na criança experiências de mestria e quando esta é encorajada
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vinculação, garantindo um sentido de segurança ao longo do ciclo vital nas novas interacções que se estabelecem com outras figuras significativas (e de vinculação), como os amigos, colegas de trabalho e, sobretudo, nas relações de intimidade (Ainsworth, 1989, 1991; Armsden & Greenberg, 1987; Bowlby, 1982, 1988).
Os modelos tradicionais psicodinâmicos (Blos, 1979; Freud, 1917; Jones, 1969) acentuavam a oposição e antagonismo entre vinculação e autonomia, fazendo depender a construção de novos laços afectivos da ruptura com os já existentes. Os modelos mais recentes da vinculação (Ainsworth, 1989; 1991; Lopez et al., 1992; Rice, 1990, 1992) enca- ram-nos como processos complementares e simultaneamente importantes do desenvolvimento dos jovens, implicando um processo de construção da identidade, envolvendo uma vinculação segura e uma crescente autonomia e individuação em relação às figuras parentais. Nas abordagens clássicas psicanalíticas parece traduzir-se a autonomia e a separação psicológica pela necessidade imperiosa de desvalorização dos vínculos afectivos que unem o sujeito às figuras parentais. Esta posição provém, precisamente, da oposição que se estabelece entre estar vinculado e ser autónomo; assim a vinculação parece ter, nesta perspectiva, uma conotação de dependência, inviabilizando a separação psicológica dos pais.
Como é sabido, a adolescência é um tempo privilegiado de construção da identidade e de transição para a idade adulta, onde o conflito entre pais e filhos é percebido, na maior parte das vezes, como um processo natural de desenvolvimento através da diferenciação e individuação do adolescente em relação às figuras parentais, para possibilitar o investimento emocional fora da família, e até mesmo para reconstruir vínculos mais
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adultos ou maduros com os pais. Daí que, nestas abordagens mais recentes da investigação (Armsden & Greenberg, 1987, Lopez et al., 1992; Rice, 1990, 1992; Youniss, 1983; Youniss & Smollar, 1985), a individuação tenha sido operacionalizada em termos de padrões de comunicação/interacção pais-filhos que reflectem os processos de vinculação e a autonomia no contexto da relação, aparecendo como dimensões complementares, e não mutuamente exclusivas (Grotevant & Cooper, 1985, 1986, 1988; Soares & Campos, 1988).
Estes dados da investigação permitem afirmar que uma vinculação segura aos pais não obstaculiza a autonomia e a separação dos adolescentes e jovens, antes constitui uma base segura desse mesmo processo. Isto é, a autonomia, parece ser construída no contexto da reformulação progressiva e da transformação das relações de vinculação; e a separação psicológica acaba por ser o luto das figuras parentais da infância, para fazer novos investimentos emocionais mais adultos e duradoiros.
A pertinência que a teoria da vinculação pode ter para o desenvolvimento vocacional, por um lado, advém-lhe da conexão existente entre vinculação e exploração, uma vez que postula que da qualidade da vinculação (base segura) pais-filhos dependerá a promoção de comportamentos exploratórios e de autonomia ao longo do desenvolvimento (Ainsworth, 1989; Grotevant & Cooper, 1985, 1988; Youniss, 1983; Youniss & Smollar, 1985); por outro lado, partindo do pressuposto de que o desenvolvimento vocacional constitui uma das dimensões do desenvolvimento psicológico global, aquele ocorre simultaneamente ao processo de construção da identidade, mediante mecanismos de individuação/autono-mia/diferenciação, sendo regulados
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pela qualidade das vinculações seguras construídas com as figuras significativas (Blustein et al., 1989; Blustein, et al., 1991; Lopez & Andrews, 1987; Lopez, et al., 1992).
Na mesma linha, Hartup (1979) defende que a segurança das relações familiares promove competências de autonomia nos filhos, envolvendo-os na exploração do mundo exterior à família, no domínio das relações com os pares e nas escolhas vocacionais. Assim, a experiência de um self seguro pode facilitar a exploração, através da relação que o sujeito estabelece com o mundo físico e social, processo central do desenvolvimento vocacional.
Josselson (1987) estudou a relação entre o processo de construção da identidade com as relações de vinculação. Ela conclui que os indivíduos cuja relação simbiótica é pouco diferenciada dos outros significativos têm uma certa propensão a investir em projectos outorgados, assumindo, numa ausência de exploração, as expectativas e desejos dos pais, e construindo um estatuto de identidade outorgada – foreclosure – (Marcia, 1986). Se as relações de vinculação estão marcadas pela insegurança, perda ou medo, os indivíduos constroem um estatuto de identidade de moratória ou de difusão, marcados por fortes lutas com as questões da identidade e com incidências negativas no desenvolvimento vocacional. Finalmente, os sujeitos que progridem de uma fase de exploração em ordem a um investimento manifestam níveis equilibrados de vinculação e de autonomia com os outros significativos e constroem um estatuto de identidade realizada – achievement – (Marcia, 1986).
Os estudos empíricos de Blustein e colaboradores (1991) revelam que uma vinculação segura, que garante a separação psicológica das figuras parentais, está positivamente relacionada com comportamentos de
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exploração e investimentos vocacionais e inversamente correlacionada com uma tendência para assumir projectos vocacionais outorgados pelos outros significativos. Especificamente, sujeitos que experienciam uma vinculação segura e um conflito de independência em relação às figuras significativas manifestam mais segurança na exploração da realidade e estão mais disponíveis para fazer escolhas vocacionais mais consistentes e desafiantes. Blustein e colaboradores (1995) sugerem que a relação de vinculação mais facilitadora do desenvolvimento vocacional é aquela em que o adolescente sente o apoio/desafio das figuras parentais e, simultaneamente, o seu espaço de autonomia, que lhe permite explorar por si mesmo o mundo, sendo o principal protagonista da construção do seu projecto de vida. É este movimento progressivo e doseado de vinculação e individuação que vai proporcionar a construção de um self seguro que terá incidências incontornáveis no desenvolvimento vocacional, a nível da qualidade e quantidade de experiências de exploração em ordem à realização de investimentos seguros.
Guidano (1987; 1990) sublinha que uma vinculação negativa com as figuras parentais está associada com o desenvolvimento de uma auto- organi-zação de um self inseguro que se confrontará com as transições e com os acontecimentos imprevisíveis da vida com respostas de medo/evitamento e indecisão. Extrapolando, não se poderá esperar que a criança desenvolva expectativas elevadas sobre o seu projecto vocacional se os seus pais inviabilizam experiências de exploração do mundo ou lhe retiram o apoio nesta exploração (Ryan, Solberg & Brown, 1996).
Estas investigações são indicadoras de que as percepções de uma vinculação segura em combinação com um equilibrado acordo de separação psicológica em relação aos pais estão associadas com os
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progressos no desenvolvimento vocacional dos adolescentes e jovens (Grotevant & Cooper, 1985, 1988; Kenny, 1991, 1994; Lopez, 1993; O’Brien, 1996; Ryan et al., 1996).
Ainda, tendo como quadro teórico a teoria da vinculação no desenvolvimento vocacional, é importante referir o estudo inovador realizado por Hazan e Shaver (1990) com profissionais adultos. Estes investigadores, partindo dos três padrões de vinculação extrapolados das investigações de Ainsworth et al., (1978), a saber, vinculação segura, evitante e ansiosa/ambivalente, relacionam-os com variáveis de ajustamento vocacional (satisfação no trabalho, competência, relações profissionais). Os resultados revelaram que o padrão de vinculação segura está relacionado com índices elevados de realização profissional, enquanto que os padrões evitantes e ambivalentes estão correlacionados com grandes dificuldades e desadaptação profissional.
Num estudo recente, Hardy e Barkham (1994) desenvolvem e confirmam a investigação de Hazan e Shaver (1990). O estudo foi realizado com um grupo de clientes que estavam em consulta, pelo facto de experienciarem stress e depressão no contexto de trabalho. Os resultados revelaram que os indivíduos que funcionam com um padrão de vinculação ambivalente e ansioso são também ansiosos nas performances profissionais e nas relações que estabelecem com os seus colegas de trabalho; os que funcionam com um padrão evitante revelam grande insatisfação profissional e relações de conflito com os colegas de trabalho.
Os resultados das investigações fazem-nos admitir que os estilos de vinculação com as figuras significativas ao longo da história desenvolvimental não só interferem nos processos auto-referenciais que
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estão subjacentes à auto-organização do self, como terão incidências a nível dos outputs vocacionais.
Em forma de síntese, pode avançar-se algumas conclusões da investigação sobre a influência da qualidade das relações de vinculação no desenvolvimento vocacional (Blustein & Prezioso, 1995):
∗ A experiência do self seguro, que é característica dos sujeitos com uma relação de vinculação segura com os outros significativos, promove exploração do self e do mundo das formações e das profissões através da relação segura que o sujeito estabelece com o mundo físico e social. ∗ Indivíduos com uma vinculação segura têm condições para progredir na
carreira e reformular os seus investimentos através de novas explorações. ∗ Indivíduos com uma vinculação segura demonstram níveis elevados de
mestria no desempenho profissional, satisfação com os seus investimentos profissionais e boas relações com os colegas de trabalho. ∗ Indivíduos com uma vinculação segura experienciam uma maior
capacidade de adaptação no contexto profissional.
Como podemos constatar através desta revisão da literatura, os estudos empíricos até ao momento realizados não têm centrado os seus interesses de investigação no papel que poderão desempenhar as relações de vinculação no desenvolvimento vocacional de jovens e adultos, daí que as conclusões extraídas deverão ser confirmadas ou infirmadas por investigações futuras. No entanto, os resultados parecem ser indicadores da importância que as experiências de vinculação realizadas ao longo do ciclo vital poderão ter para a construção de um self seguro e de como este pode interferir nas experiências de exploração do mundo, ingrediente
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fundamental do desenvolvimento vocacional. Assim, poder-se-á antecipar que pais, que garantem um contexto familiar facilitador da construção de um self seguro, proporcionarão uma maior gama de oportunidades de exploração vocacional e incentivarão os seus filhos à construção de expectativas de formação/profissão com maior satisfação e adaptação psicológica. Contextos familiares que, pela sua auto-organização,
propiciam a construção de padrões de vinculação15 marcados pela
insegurança (superprotector, ansioso/evitante, ambivalente, marcado por perdas) inibirão os comportamentos exploratórios e de autonomia do jovem e do adulto em relação ao mundo (Grotevant & Cooper, 1988; Hazan & Shaver, 1990; Hardy & Barkham 1994).
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Bartholomew e Horowitz (1991), a partir das suas investigações realizadas com adultos, propõem uma categorização alternativa dos padrões de vinculação: a) seguro: mantém relações significativas sem perda da autonomia pessoal, sente-se confortável na interdependência; b) preocupado (preoccupied): caracteriza-se por uma forte dependência nas relações, dependendo o seu bem estar pessoal da aceitação dos outros; c) desligado (dismissing): minimiza a importância das relações de intimidade pela anestesia emocional, pela relevância atribuída à independência e à auto-determinação; d) medroso (fearful) evita as relações de proximidade, com medo de ser abandonado e por desconfiança nos outros.
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5. AS REPRESENTAÇÕES DOS PAIS E DOS FILHOS QUANTO À