O culto, antes de tudo, pode ser definido como um ritual. No ritual, estão presentes os ritos que, interligados de forma coesa e simbólica, dão sentido aos celebrantes. O rito é a repetição gestual que traz à memória o ato fundador que o originou. Portanto, trata-se de um movimento que se exterioriza ou a partir de algo subjetivado, a experiência religiosa, ou pode levar a ela. Nesse sentido, dizemos que o rito é a manifestação objetivada da religião, e, por conseguinte, o culto também o é. O culto é o espaço no
qual as experiências subjetivas da religião encontram-se de forma objetivada, ou seja, ritualística.
Por meio do rito, o indivíduo pode ter uma experiência religiosa ou emocional naquele momento. O que acontece? O rito foi construído a partir da experiência individual, ou é o que permite a construção desta experiência subjetiva? Propomos uma resposta dialética entre os movimentos de exteriorização e interiorização dos ritos, partindo do princípio de que o ser humano constrói e é construído pela sociedade e todas as suas formas ideológicas e institucionais.
Peter Berger (1985, pp. 15-41) mostrou esse processo dialético do ser humano com a sociedade, identificando três divisões dessa dinâmica: “exteriorização’, “objetivação” e “interiorização”. A exteriorização seria a “necessidade antropológica” do ser humano, que não pode ser entendido como um ser que, primeiro, concebe, recebe informações e, depois, expressa-se com o mundo, nem tampouco como um ser que só concebe idéias subjetivas de modo totalmente autônomo e, logo em seguida, exterioriza-as. Berger diz que o ser humano é, desde sempre, exteriorizante, e assim o é por uma essência antropológica. Ou seja, já nascemos com o ímpeto de nos comunicar, expressar-nos com o exterior. Nesse processo de interação com o que nos é exterior que o ser humano de fato “se torna” humano – não um movimento primeiro, mas uma imediata comunicação com o exterior desde que nascemos. Nessa interatividade, o ser humano cria, transforma e constrói o mundo em que vive. O fato de ser exteriorizante possibilita que atue sobre a cultura; aliás, que a construa e recrie. Por tal motivo, “a cultura consiste na totalidade dos produtos do homem. Alguns destes são materiais, outros não” (Berger, 1985, p. 19). A exteriorização é, portanto, aquela natureza antropológica e social que permite ao ser humano construir seus mitos e ritos, doutrinas e cultos, como formas distintas da expressão religiosa. As idéias e as linguagens – e, aqui, todos os tipos de linguagem são importantes tais como gestos corporais, palavra e música – são construídas pelo ser humano como forma de exteriorização da religiosidade.
Quando o processo de exteriorização ocorre, o que foi exteriorizado, seja o que for, torna-se quase autônomo do ser humano que o criou. Em outras palavras, ganha vida própria, desvinculando-se de seu criador: é o processo de objetivação. Pensemos na lei: os seres humanos a criam, mas, ao ser exteriorizada, assume uma força e vitalidade fora do ser humano e age em sua direção, forçando-o a cumpri-la. A objetivação é um
processo social fortíssimo exatamente porque o que foi construído e idealizado adquire autonomia em relação ao ser humano como se sempre tivesse existido, bem ali, sem a presença de quem o criou. Não é difícil perceber tal processo no campo religioso: a doutrina, exteriorizada pela capacidade humana, torna-se algo fora do ser humano e age em sua direção, forçando a sua total incorporação. Ou seja, o que foi objetivado, o que está externo ao indivíduo, compele um movimento de interiorização; é quando o ser humano absorve, internaliza as idéias, expressões e criações e passa, de certa forma, a sujeitar-se a elas. O exemplo mais tranqüilo para entender este processo é o da própria cultura. Desde a infância, os padrões culturais – e aqui se inclui, com muita força, o padrão moral – são introduzidos de forma que o comportamento individual, na realidade, seja o comportamento esperado pelo grupo.
Portanto, se a força é criativa na exteriorização, há uma passividade necessária na interiorização para que as coisas objetivadas sejam aprendidas e incorporadas. Sem este processo, não haveria socialização, pois a sociedade é um dos aspectos da cultura no qual ele se revela de forma mais forte. O ser humano constrói a sociedade e é construído por ela; por isso, é um ser social. O movimento todo é dialético de maneira que os processos ocorrem ao mesmo tempo numa total interação sociedade-indivíduo.
No campo religioso, ocorre o mesmo. Quando afirmamos que doutrinas e ritos são construídos, queremos dizer que ocorrem os processos de exteriorização, objetivação e interiorização das formas doutrinárias e ritualísticas. A grande questão, e que julgamos essencial nesse trabalho, é entendermos que essa dinâmica é inerente à vida social do grupo humano. Isso quer dizer que existe uma necessidade antropológica e social que permite ao grupo construir as crenças, os ritos e as instituições religiosas. Somente podemos assumir a postura de analisar tais elementos partindo da premissa da dialética proposta por Berger. Ou seja, há um construto constante em direções opostas e dependendo de várias circunstâncias um desses processos poderá ser minimizado ou maximizado.
Focando a teorização para o culto, notaremos que os ritos que o compõem estão objetivados e têm a função, quase premeditada, da interiorização. É como um método de reprodução didática: o rito deve ativar um processo de memória, de lembrança da experiência religiosa. Sem dúvida, a objetivação e a interiorização são fortes no rito, porque ele cumpre exatamente o papel de socializar a experiência. A tendência do grupo
religioso, mesmo que inconscientemente, é ativar o processo de interiorização do rito e enfraquecer o de exteriorização. Na realidade, a religião cumpre, aqui, o que Berger chamou de papel alienante, porque tem de ocultar do sujeito que as objetivações doutrinárias e litúrgicas foram por ele construídas e podem, assim, ser mudadas. A doxa não pode ser alterada sem um go lpe fatal a todo o sistema religioso. Foi o próprio Berger (1985, p.65) que mostrou a grande capacidade que a religião tem de ordenar e nominar a anomia. A teodicéia é o maior exemplo da força ordenadora da religião, que consegue, por meio desse recurso, dar sentido às situações limites do ser humano como doença, sofrimento e morte.
Então, como a dialética ocorre se existe essa tendência alienante na construção da doutrina religiosa? Independentemente do desejo do grupo, a dialética ocorre. A questão é que ela pode ocorrer em maior ou menor grau. No caso do cristianismo, os vários modelos cúlticos tiveram tendências mais ou menos objetivadas, mas sempre haverá, em todo ato cúltico o princípio dialético relatado por Berger.
No caso do cristianismo, como de ouras religiões fundadas, o rito tem a função de trazer à memória o líder religioso, do qual se originou o grupo. A objetivação do rito acontece à medida do processo de institucionalização do movimento, e a sistematização de uma atividade cúltica faz parte inerente desse processo. O cristianismo pode ser situado na classificação que Joachim Wach (1990, p. 168) fez como um “agrupamento especificamente religioso”. O maior critério desse tipo de grupo é o reconhecimento do carisma religioso. Mais peculiarmente, isso se dá nas religiões fundadas, que se desenvolvem a partir da experiência religiosa do fundador ou líder carismático. Este líder arregimenta discípulos em torno de si, cujos sentimentos de solidariedade e fidelidade, criam uma nova forma de organização social. Neste agrupamento, a admissão no grupo requer o rompimento com o passado, processo chamado de conversão à nova religião. Pode até mesmo significar um rompimento com as atividades cotidianas, bem como mudanças nas relações sociais e religiosas antes estabelecidas. O grupo torna-se separado do mundo, no sentido de criar para si novas maneiras de comportamento, dirigido a partir do líder. Por tal motivo, Wach salientou o caráter missionário desse tipo de associação religiosa que deseja arrebanhar o ma ior número possível de pessoas.
O líder carismático, segundo Max Weber (2000b, p. 159), é tido pelo grupo como dotado de qualidades extracotidianas e, por tal motivo, são-lhe atribuídas características sobrenaturais ou sobre-humanas. Este líder carismático é o que provê a experiência religiosa. Os discípulos formam o círculo mais próximo, e a força de coesão do grupo baseia-se, no momento inicial do movimento, na força livre e autônoma do carisma. Nesse primeiro momento, há o que Weber (1999, p. 325) chamou de “carisma puro”. Em torno dos discípulos, os seguidores da nova religião começam a surgir. O grupo é estruturado socialmente pela figura do líder a tal ponto de que seu sistema econômico gira em torno da experiência religiosa. Weber falou sobre o caráter tipicamente socialista desse início de associação, cujo princípio se faz pela solidariedade e amor fraternal que unem os discípulos e seguidores em torno da figura carismática.
Com a morte do líder, o grupo sofre a ausência do provedor da experiência, que, então, tem de ser revivida. É estabelecida uma crise imediata que marcará o surgimento de uma nova fase do grupo, sofrendo assim, uma transformação estrutural. A unidade e solidariedade dos discípulos e seguidores encontram-se ameaçadas, e, para a manutenção do grupo e da experiência religiosa do fundador, acontece uma mudança radical no carisma. A dominação pura do carisma é rompida, e, nisto, ocorre o processo de institucionalização por meio da rotinização da experiência carismática. Segundo Weber (1999, p. 332), as motivações para tal mudança são os interesses do grupo em transformarem o carisma em uma propriedade permanente da vida cotidiana. Contudo, com isso, muda-se radicalmente o seu caráter.
A sistematização doutrinária e o culto são as ferrame ntas mais estratégicas para que a experiência religiosa possa cristalizar-se. Ou seja, a continuidade da experiência religiosa se expressa nas formas doutrinárias e cúlticas, sendo o líder fundador transformado em objeto do culto. Em geral, a sistematização inicia-se com os próprios discípulos, que são, nessa fase do grupo, as autoridades máximas da religião pré- concebida (Wach, 1990, p. 172). A partir desta autoridade é que ocorre a formação do que Wach denominou de irmandade, que se desenvolve em torno de um serviço religioso organizado, isto é, cada vez mais objetivado. A organização religiosa, portanto, é o produto da tentativa de perpetuar a experiência religiosa carismática. Não é difícil percebemos que, no caso do processo de institucionalização, um movimento muito forte de interiorização tem de ser feito para que a permanência da experiência
religiosa seja garantida. Culto, doutrina e organização institucional são mais do que nunca objetivados e interiorizados. Nas palavras de Wach (1990, p. 174):
A irmandade apresenta também desenvolvimento no sentido de organização eclesiástica com firme crescimento de sua doutrina, culto e organização, que acabará por transformar em organização objetiva a que era subjetiva ou pessoal. (O grifo é nosso.)
Com a institucionalização da religião ocorre a fixação da doutrina e da prática cúltica e surge assim a atividade sacerdotal, responsável pela manutenção da religião em todos os seus âmbitos. Os sacerdotes tornam-se os guardiões da doutrina e o culto se torna, por primazia, local da experiência religiosa institucionalizada. Ou seja, a própria doutrina e a forma de organização religiosa são fixadas no culto, por meio da internalização dos ritos objetivados. Por isso mesmo a atividade sacerdotal - clerical - se faz presente e necessária para que o culto aconteça. Weber (2000b, p.294) já mostrou essa característica instrínsica na atividade sacerdotal. O sacerdote é funcionário da organização religiosa e deve, portanto, manter a doutrina e ajudar na sua assimilação. Do mesmo modo a “existência de lugares de culto, em combinação com algum aparato material de culto, pode ser considerada a característica do sacerdócio” (Weber, 2000b, p.294).
Com base nessas considerações, estudamos o culto como o resultado de um processo de objetivação e interiorização a partir de uma religião institucionalmente estruturada. O culto - ritual estabelecido- significa um tipo de objetivação reforçada. Ao assumirmos isso, não estamos conferindo caráter pejorativo a tal característica; ao contrário, acreditamos ser esta a função de todo rito e culto. Queremos sim ressaltar que existem métodos de construção que se fazem nos dois movimentos e, ainda que a sociologia detenha-se em aspectos mais objetivados, não ignora o processo de exteriorização, antes o vê como parte inerente à dinâmica social da institucionalização religiosa. Assim, a organização religiosa se torna tanto mais objetivada quanto for estruturada sua forma doutrinária e cúltica