O termo identidade possui diferentes acepções que a isto se ratifica ao se permear as áreas de conhecimento desde aquelas que se vinculam a uma interpretação mais
singularmente focada no indivíduo às que se referem ao ator coletivo como representação de grupos sociais.
Freud concebe a identificação como processo de transformação realizado pelo aparelho psíquico (Nasio, 1997) e define o ego como portador de múltiplas identidades que são evidenciadas pelo sujeito no decorrer de sua vida (Chnaiderman, 2001) – segundo essa autora, o termo identidade foi desenvolvido por analistas que elaboraram a noção de self com o intuito de relatar acerca da totalidade da experiência do indivíduo. A ideia de identidade como representativa do sujeito psíquico é severamente criticada pela psicanálise, logo não é um conceito freudiano.
Segundo Le Page (1980), as opções linguísticas, por sua vez, fazem parte de um processo inconsciente realizado pelo sujeito falante que possui diversos papéis sociais e está relacionado às variadas dimensões formativas da identidade social, e os atos de fala decorrentes se constituem em identidade. A linguagem é o indicador da identidade, porém o sentido das palavras não está nelas mesmas, mas nas formações discursivas e ideológicas – segundo Orlandi (2001), os enunciados possuem um cunho ideológico.
No âmbito da AD, tem-se o entendimento de identidade atrelado à relação sujeito, língua e história; essa relação é embasada na noção conceitual de indivíduo e de sujeito, refletida pelas teorias de Foucault (relação sujeito e enunciado) e Althusser (relação sujeito e ideologia). Para Orlandi (1996), “não é vigente, na Análise de Discurso, a noção psicológica de sujeito empiricamente coincidente consigo mesmo” (p. 26); a relação entre os fatos sociais (história) e a língua é fundamental para a constituição dos sentidos – é nessa concepção sociológica que se pretende trabalhar o termo identidade nesta tese.
Assim, na acepção sociológica compreende-se a identidade como um processo de elaboração do significado fundado em um conjunto de atributos culturais inter-relacionados que prevalecem sobre outras fontes de significado – em Castells (1999), a identidade é compreendida como a raiz do significado e da experiência de um povo. Esse autor considera a existência de identidades múltiplas como produto da tensão existente no processo de distinção da identidade e do papel social, ou seja, da contradição decorrente da autorrepresentação e da ação social. Neste sentido, entendemos que os papéis sociais instituem funções e são definidos por instituições e/ou organizações, influenciando no comportamento dos indivíduos por meio de acordos estabelecidos entre eles e tais instituições/organizações.
Partindo de uma visão estritamente política, Bauman (2005) considera que a identidade nasce após a crise disciplinadora das funções de integração do pertencimento em decorrência do poder de coerção e convencimento do Estado – percebe-se que a possibilidade
da identidade como produto institucional é desconsiderada. Todavia, quer por perda de poder, quer por desinteresse na manutenção do Estado como nação, o autor acredita que a concepção de que a globalização dá livre curso à identidade permite que o indivíduo delimite-a, a partir de seus próprios recursos e ferramentas – percebemos, neste caso, a transferência do poder instituidor.
Todavia, “a mesma globalização que intensifica as misturas e pulveriza as identidades implica também a produção de kits de perfis-padrão... para serem consumidos pelas subjetividades, independentemente de contexto geográfico, nacional, cultural etc.” (Rolnik, 1997, p. 19). A globalização favorece a formação de identidades globalizadas que sofrem mutação em decorrência dos movimentos de mercado e passam a dividir espaço com uma quantidade restrita de identidades locais fixas. O autor complementa: “esta nova situação, no entanto, não implica forçosamente o abandono da referência” (p. 19). Desta maneira, compreendemos que apesar de haver uma luta no sentido da adesão de uma figura de representação moderna num contexto globalizado, as subjetividades não conseguem se desvencilhar das forças que as constituem.
Concebemos que a identidade se constitui com base na participação ativa e na intencionalidade discursiva dos sujeitos/atores sociais e coadunamos com Castells (1999); Silva (2009), Bauman (2005) e Pallú (2013) ao conceberem a identidade como relação social vinculada a uma definição discursiva e linguística norteada e sujeita a vetores de força e relações de poder, o qual se revela no campo da identidade por meio das normas. A normalização apresenta determinada identidade de maneira discricionária como positiva e desejável (identidade hegemônica), a qual, por consequência, se torna parâmetro para estabelecimento de hierarquia e avaliação de todas as outras identidades como negativas e indesejáveis (marginais).
O processo de produção da identidade oscila entre dois movimentos: de um lado, estão aqueles processos que tendem a fixar e a estabilizar a identidade; de outro, os processos que tendem a subvertê- la e a desestabilizá-la. É um processo semelhante ao que ocorre com os mecanismos discursivos e linguísticos nos quais se sustenta a produção da identidade. Tal como a linguagem, a tendência da identidade é para a fixação. Entretanto, tal como ocorre com a linguagem, a identidade está sempre escapando. A fixação é uma tendência e, ao mesmo tempo, uma impossibilidade (Silva, 2009, p. 84).
Percebe-se que a constituição de identidade sem influência dos fatores culturais e históricos refletidos na relação tempo/espaço é impraticável. Quando se diz que a fala e o texto são instrumentos de expressão dessa identidade, a perenidade do sentido constituído para o signo que a representa se torna uma improbabilidade, mesmo que haja uma busca contínua por um sentido fixo e determinado por parte do sujeito. No contexto da teoria
cultural contemporânea, a identidade se manifesta por meio da representação (traço visível, exterior), concebida como sistema de significação/atribuição de sentido que não guarda qualquer vínculo com a filosofia clássica, mas atrela-se perfeitamente a uma visão pós- estruturalista.
Para Butler (1999), a produção da identidade é considerada um ato performativo. Austin (1998) afirma que performativo é o enunciado que, em circunstâncias apropriadas, escamoteia/disfarça o que de fato quer exprimir, realizando parcial ou totalmente uma ação; o enunciado performativo se consolida no fazer – introduz o poder da ação por meio de palavras, ele é uma concepção de linguagem. Os enunciados performativos de identidade precisam ser repetidos, ou seja, a ocorrência isolada do enunciado não guarda efeito relevante, pois é a repetição que dá poder ao ato linguístico na formação de uma identidade; nesse sentido o pronunciamento faz parte de uma rede extensa que auxilia no processo de definir/reforçar a identidade que está sendo descrita.
Todavia, quando autores discutem acerca da identidade, geralmente atribuem a um dizer sobre um “fato” social preexistente, negligenciando a questão de que o dizer do indivíduo está imerso em um contexto mais amplo de atos linguísticos que também guardam relação com esse processo de construção do significado e da própria identidade. É nesta perspectiva de que a identidade é um efeito, um processo de produção, um ato performativo ligado às estruturas discursivas em estreitas conexões com relações de poder, dominação e hegemonia, que buscaremos identificá-las no discurso científico da área contábil.