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A leitura do Homem sem Gravidade traz muitos questionamentos acerca de nossa época e nos faz evocar aspectos da vida contemporânea que são interessantes para refletirmos sobre os nossos modos de subjetivação atuais. Conforme já destacamos, o trabalho desconstrutivo com textos nos permite descontextualizar alguns aspectos que aparecem no texto, e pensá-los em outros contextos. Sabemos que uma leitura sempre nos remete a outras leituras, e O Homem sem Gravidade é um livro que – talvez por tratar de muitos temas diferentes e que tem a ver com a nossa época – nos fez “ler levantando a cabeça” (BARTHES, 1988, p. 40) com muita frequência, formando novas associações.

Dentre essas associações, pensamos em alguns exemplos no campo da literatura e do cinema que, de alguma forma, exemplificam ou se relacionam com temas evocados por Melman. É sabido que Freud dizia que os escritores tinham um conhecimento direto e intuitivo do inconsciente, enquanto ele mesmo só o encontrava por meio de muito esforço. Muitas vezes somos tocados por uma obra literária ou cinematográfica sem que tenhamos consciência do que nos atraiu na história ou no enredo.

Bonança (2009) aponta que o ficcionista consegue guiar as nossas emoções, represá- las num momento e, em seguida, fazê-las fluir. Esse movimento exerce sobre nós um poder diretivo e proporciona, quase sempre, uma grande variedade de efeitos e emoções. O estranho na obra de ficção se apresenta de forma paradoxal, tendo em vista que muito daquilo que não é estranho no cinema, no teatro ou na literatura, causaria horror na vida real. A criatividade       

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traz à tona as emoções e os devaneios que os autores, mesmo desconhecendo o inconsciente e suas manifestações, apresentam.

Em uma discussão sobre a relação da psicanálise com a literatura, Freitas (2001) afirma que a psicanálise em extensão pode, ao se aproximar das produções dos escritores, proporcionar diferentes leituras interpretativas, examinando os textos da literatura, desligados de seus autores. Segundo Telles (2004), os processos descobertos pela psicanálise, de longa data, são a matéria-prima da literatura, havendo muito de comum entre elas. Ambas lidam com a linguagem e com a expressão de ideias, sentimentos, afetos, sofrimentos e dores. Psicanálise e literatura interpretam, representam, simbolizam e produzem sentido. De maneira semelhante, o que foi dito sobre literatura e psicanálise vale para o cinema e a psicanálise, talvez até com maior pertinácia. “Por usar uma linguagem predominantemente visual, o cinema tem uma especial proximidade com os sonhos, a ‘via régia para o inconsciente” (TELLES, 2004, p. 182).

Alguns autores no âmbito da psicanálise já realizaram pesquisas interessantes utilizando o cinema para engendrar discussões acerca de fenômenos psíquicos e manifestações do inconsciente. Telles (2004) assinala que o cinema e a psicanálise são invenções quase simultâneas e que têm inúmeros pontos em comum. Ele diz que: “A revelação de que nossos sonhos pensam, essencialmente, através de imagens, transforma o livro inaugural da psicanálise, A interpretação dos sonhos, de Freud, no primeiro grande ensaio sobre a mecânica psíquica do cinema” (p.13).

Freud (1908/1996, p.136) também discorre sobre aspectos da escrita ficcional afirmando que a irrealidade do mundo imaginativo do escritor tem consequências importantes para a técnica de sua arte, pois muita coisa que, se fosse real, não causaria prazer, pode proporcioná-lo como jogo de fantasia. Por outro lado, muitos excitamentos que são penosos, podem tornar-se uma fonte de prazer para os ouvintes e espectadores na representação da obra de um escritor.

Cabe frisar que não iremos nos deter em uma análise detalhada dos livros e filmes que evocamos enquanto líamos O Homem sem Gravidade, pois o intuito aqui é de registrar o movimento de leitura e as associações realizadas, no sentido de ilustrar o quanto os temas abordados por Melman circulam no cinema, na literatura, fazendo parte tanto do imaginário quanto dos discursos dominantes. Por mais estranhos e impossíveis que pareçam alguns enredos ficcionais, eles só são possíveis e reconhecíveis pelo público porque falam, de alguma forma, de coisas que já nos rodeiam, seja consciente ou inconscientemente.

Em nossa leitura do Homem sem Gravidade, fica claro que um dos pontos importantes para Melman é a verificação de que vivemos um progresso que, para ele, seria a constatação de que “o céu está vazio” (MELMAN, 2008a, p.16). Este vazio diria respeito à ausência de referências, de ideologias, de promessas. Então, enquanto os últimos dois séculos foram os das grandes invenções e da identificação dos limites, para Melman, o século que se anuncia é o da suspensão desses limites.

Nesse sentido, Melman identifica a suspensão de limites para o gozo, indicando que a grande filosofia moral dos dias de hoje é que cada ser humano tem o direito de se satisfazer plenamente. “Se não for assim, é um escândalo, um déficit, um dolo, um dano. Assim, quando alguém expressa uma reivindicação qualquer, está legitimamente no direito – e, na falta, a legislação é rapidamente modificada – de ver sua reivindicação satisfeita” (Ibid, p. 31). Vivemos, então, numa época de legitimação de todo e qualquer tipo de desejo e, assim, torna-se legítimo que esses desejos encontrem sua satisfação.

Retomando a nossa leitura dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), vimos que, para Freud, o caminho para a sexualidade adulta dita normal é o de abandonar os alvos sexuais parciais, passando por eles, mas sem neles se fixar, até chegar à relação sexual genital. Assim, o caminho da sexualidade normal passaria por essas parcialidades, de forma preliminar, mas com o intuito de chegar ao final, que seria o genital. A fixação em algumas dessas zonas parciais, ou a utilização delas em caráter exclusivo foi considerada por ele como uma perversão, um desvio do caminho da sexualidade adulta normal, madura. Por isso as crianças são chamadas por Freud de perversas polimorfas, ou seja, que buscam e obtêm prazer nessas zonas parciais, e de diversas formas diferentes, multiformes, polimorfas.

Podemos recontextualizar essa formulação teórica de Freud para abordar alguns pontos que Melman assinala sobre a contemporaneidade e sobre o que, para ele, é característico da nova economia psíquica. Quando ele fala do apagamento dos limites, ele cita o advento de objetos que proporcionam prazer em todos os orifícios, ou seja, sem nenhum limite, sem nada que barre. Desta forma, podemos tomar o que Freud teoriza acerca da sexualidade perversa como metáfora (ou protótipo) para o que Melman fala sobre a adição aos objetos, que dão prazer a todos os orifícios, como uma criança costuma fazer com seus movimentos pulsionais, quando está explorando sua sexualidade.

Para Melman, vivemos em uma época em que a fabricação de objetos aptos a “satisfazer os orifícios corporais se tornou uma espécie de exigência e obtém, evidentemente, a concordância coletiva. São objetos maravilhosos, capazes, com efeito, de saturar até o

esgotamento os orifícios visuais e auditivos” (MELMAN, 2008a, p. 32). Ele explica que, hoje, fabricam-se sons extraordinários que não são mais escutados somente com os ouvidos, mas com todo o corpo. Sendo assim, são gozos fabricados, artificiais, que fazem parte dos produtos da nova economia psíquica. “São suscetíveis, por uma inversão, de prevalecer em relação ao gozo sexual, já que, no fundo, esses gozos orificiais sobre os quais Freud dizia que eram pré-genitais podem muito bem ter primazia sobre o gozo sexual [...]” (Ibid, p. 32).

Não é difícil perceber, no cotidiano, novidades que se referem ao que Melman fala sobre essa saturação dos orifícios visuais e auditivos. Ao realizarmos buscas em sites na internet sobre novidades relacionadas ao cinema, por exemplo, encontramos frases do tipo: “O cinema 3D já é coisa do passado”, “A tecnologia 3D já deixou de ser novidade”, e “Depois que o 3D se tornou algo comum...”. Essas frases iniciam parágrafos que explicam sobre a maior novidade no formato cinematográfico, que é o cinema 6D (em seis dimensões).

Segundo esses sites, o cinema 6D alia a projeção de filmes em 3D com efeitos especiais de curta duração que estimulam outros sentidos, no intuito de proporcionar ao espectador a sensação de fazer parte do filme de uma maneira muito mais “real”. Assim, durante uma projeção, o espectador poderá sentir aromas, bem como ter sensações de vento, frio, calor e água em contato com a sua pele. A sala também é construída de maneira especial, de modo que as poltronas se movimentam em cenas de ação em sincronia com o que acontece no filme.

Assim, essas novas tecnologias teriam a ver com essa suspensão de limites, pois hoje podemos gozar de várias formas, inclusive artificiais, tornando-se mais um produto, mais uma mercadoria, na nova economia psíquica. A psicanálise ensina que não é o objeto, mas a falta de objeto que é organizadora da especificidade humana. Desta forma, se esse objeto deve ser perdido para que o humano possa emergir e se o lugar do limite é instalado por essa perda, Lebrun (In: MELMAN, 2008a) questiona se transgredir isso equivaleria a realizar um incesto. Lebrun pergunta se, para Melman, é possível dizer que estamos diante de uma economia psíquica que, sem ser incestuosa, “empurra” para o incesto. Melman responde que sim, mas se referindo a um incesto que “não necessita de uma realização, de sua realização figurada clássica, quer dizer, de uma ligação com a mãe, para existir” (MELMAN, 2008a, p. 34). Seria, então, um incesto no sentido de uma carência de limites, de interdição.

Melman faz uma colocação que se refere a uma das bases da teoria psicanalítica: a noção de que é através da interdição do incesto que o sujeito é preparado para a vida em

sociedade. Ele aponta que a função do pai é privar a criança de sua mãe e assim introduzi-la nas leis da troca, e é essa operação que prepara a criança para a vida social e a troca generalizada que a constitui. Então ele sublinha algo que percebe como o problema do pai, hoje, que seria a questão de que “[...] não há mais autoridade, função de referência. Ele [o pai] está só e tudo convida, de qualquer modo, a renunciar a sua função e simplesmente participar da festa. A figura do pai se tornou anacrônica” (Ibid, p. 34).

É interessante o termo (anacrônico) escolhido por Melman para se referir à figura paterna hoje. Sabemos que anacronismo alude a algo que está em desacordo com uma determinada época, ou seja, quando há um erro de cronologia, uma dissonância em relação à época da qual se fala. O termo pode tomar também o sentido de obsoleto, ou seja, que perdeu a utilidade. Obsoleto, no dicionário Michaelis, apresenta os sentidos de “caído em desuso, antiquado”. Torcendo um pouco o termo, podemos pensar nas palavras superado e ultrapassado. Reunindo esses termos referidos, a ideia que se tem é que a figura do pai está em declínio ou, ao menos, confusa.

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