A concepção de Deus, da natureza e do homem é marcada pela noção de um Deus criador e único. A coerência dessa visão é mantida, pensada, ordenada e reordenada pela Igreja, um organismo coerente ele próprio. No entanto, lembrar que não necessariamente seus componentes viviam e comportavam-se segundo o que propugnavam a todos. A esse ideário de Deus, da natureza e do homem, corresponde uma sociedade hierárquica, um dominium, que encarna a função divina na sociedade humana, expressa num movimento recíproco: Deus se encarna, o homem se diviniza. É a descida do Céu sobre a Terra. Se o Céu se põe no nível da Terra, isso significa que na Terra haverá uma transfiguração, haverá um movimento ascendente. Assim, usando os estudos de Le Goff:
“O Céu vem viver entre nós. Isso reforça, claro, nossa deferência diante da Majestade. (...) Se o rei medieval está no alto, debruça-se sobre os súditos e os súditos podem subir até ele. O mais humilde habitante da aldeia está convencido de que pode falar com o rei, que o rei é acessível, como um bom pai, ou antes como Deus na terra. E os próprios reis se vêem como pais de seus povos ou antes como intermediários entre Deus e esses povos.”12
A vinda de Cristo, vivida dentro deste universo de ideias, mais facilmente é assimilada como a confirmação da orientação dada pelo Antigo Testamento, e como a abertura para o Novo Tempo, o Novo Testamento. A Encarnação supõe, então, a existência de uma História: de um antes e de um depois de Jesus. Com a ascensão aos céus, há um novo tempo, que leva ao fim do Tempo, que fixa uma direção para a salvação, que nos foi dada pelo Deus feito homem. A sociedade medieval, incluindo a Igreja, esforça-se por viver na prática e no concreto, o caminho para essa salvação, que é o encontro do esforço pessoal com a graça de Deus. “A crença na ressurreição da carne, que é o contrário da reencarnação, estrutura essa sociedade de maneira totalmente inédita, se comparada com outras religiões e outras sociedades do mesmo período”13, e a vida de Jesus, em cada episódio e em cada ensinamento, vai oferecer o modelo que cada homem, cada mulher deve imitar, para alcançar salvação no
11 LE GOFF, Jacques. Em busca da Idade Média. Vide capítulo 4, “Uma civilização toma corpo”, p.123-168. 12 LE GOFF, J. Em busca da Idade Média, p.128.
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Os Exercícios Espirituais de sto. Inácio de Loyola - PUC-SP. 2011
Capítulo I: Inácio de Loyola – contexto e pretexto de vida Maria Teresa Moreira Rodrigues
momento do Juízo Final. Ali, cada um receberá o que lhe cabe viver, nesse outro mundo, quer seja no Paraíso, no Inferno ou no Purgatório.14
Era tido e sabido por todos que a realidade não era apenas a da terra. Existia um outro mundo, sobrenatural, onde as almas, separadas do corpo no momento da morte, ali viviam e dali agiam sobre a terra, que era o único lugar em que ainda era possível fazer o necessário para, após a morte, poder reencontrar os entes queridos, já mortos, mas que ali aguardavam a chegada dos que viriam, para o momento final da Ressurreição Eterna. Havia que buscar salvação a partir do próprio esforço, e também esforçar-se para ajudar as almas que, porventura, ainda estivessem no Purgatório. As “indulgências” eram para isso: ajudar os daqui e também para ajudar os que estavam no Purgatório para sair dele e ir para o Céu. O objetivo era evitar o Inferno, lugar do qual não era possível qualquer ajuda para dali sair. Entende-se, assim, porque a força da Igreja firmava-se; ela apoiou-se no imaginário medieval e disso fez uso. Os santos faziam a corte dos céus, intercedendo junto ao Senhor, para a salvação das almas. E os homens, aqui na terra, faziam a corte aos seus senhores e também se recomendavam aos padres e aos monges, que eram os encarregados das orações que os ajudavam a alcançar a misericórdia e a serem salvos do Inferno.
Era nesse universo de idéias que os cavaleiros viviam. A eles cabia alcançar um estado de vida tal que lhes permitisse a salvação. Para conquistar o Paraíso não se poupava nada. Todavia, logo compreenderam que não era suficiente fazer peregrinações e pedir orações. Era necessário viver segundo o Evangelho, que passa a fazer parte do ideário cavaleiresco, até mesmo porque este é composto de virtudes que já estão naquele. Francisco de Assis, no começo do século XIII, impregnado de todo o ideário de sua época, despojou-se de tudo e radicalizando foi viver como Cristo, entre os pobres e leprosos junto com alguns companheiros.15 Inácio de Loyola, século XVI, embora cavaleiro, já não estava sob o mesmo ideário do tempo de Francisco, assim como todos os de se tempo. No entanto, após seu acidente em campanha militar, viveu um profundo processo de conversão e também se despojou de tudo e seguiu na busca da imitação de Cristo. Ambos, Francisco e Inácio, ao seu modo e tempo, foram pilares e construtores de um novo jeito de viver a fé cristã, lançando ramos vivos e fortes que permanecem até hoje.
14 Veremos, no decorrer do trabalho, como Inácio está impregnado destas concepções de salvação de alma e as trará para a elaboração do livro dos EE.
15 Temos ciência de que é simplista descrever a experiência de Francisco de Assis, não incorporando questões familiares, sociais e, sobretudo, as espirituais, na relação com Cristo, que serão sua razão de ser e de viver. Nosso objetivo, no entanto, foi apenas ressaltar o aspecto do despojamento e seguimento de Cristo.
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Capítulo I: Inácio de Loyola – contexto e pretexto de vida Maria Teresa Moreira Rodrigues
Do ideário da cavalaria e de sua mística, destacaremos os pontos que mais profundamente impregnaram o Iñigo do Solar Loyola e que continuaram presentes, encontrando equivalências16 no Iñigo-Inácio peregrino, imitador de Cristo, que nos legou os Exercícios Espirituais. Comecemos pela descrição de um cavaleiro:
“O cavaleiro é, antes de tudo, um combatente. A guerra só acontece em equipe. A cavalaria é uma fraternidade e a ajuda recíproca é sua condição inalienável. A paz repousa sobre a lealdade. Ser verdadeiro, reto e leal é dever; manter a palavra é obrigação. Romper a confiança é perder reputação. Mais vale dar a vida, do que trair ou fugir em meio a qualquer tarefa, e não apenas fugir à peleja. Se a robustez física é necessária, não menos o é a robustez da alma, qualidades que fazem a valentia de um guerreiro e o levam a proezas.”17
Então, ao cavaleiro cabe cultivar, por excelência, a lealdade. Pela lealdade, ganham consistência sua conduta e sua alma. E encontrar a medida das coisas será sempre necessário, pois trará o equilíbrio entre a proeza e a sabedoria. É ela, a medida, que faz o cavaleiro ser senhor de si mesmo. Só assim ele poderá saber esperar sua vez, quando no fogo da ação. Só assim cederá o passo aos mais velhos e respeitará as conveniências. E assim terá aprendido a reprimir excessos de cólera, de inveja, de cupidez.
Como há uma interligação entre os vários comportamentos e virtudes cultivadas, esse modo de proceder propiciará o cultivo da largueza (ser magnânimo e pródigo) e da cortesia. Cabe ao cavaleiro não estar apegado às riquezas e conseguir distribuí-las, caso lhes venha como prêmio por feitos e proezas. Será servir fiel e lealmente às mulheres da família de seu senhor, e como vassalo, com elas aprender a dança e os jogos de salão. Será enfrentar perigos para protegê-las ou mesmo para encantá-las.
Vamos destacar também aqui, o dia da entrada na cavalaria era mais importante até do que o dia do nascimento. Era uma mudança de vida, como o fora o batismo e como o seria o casamento ou a possível entrada em um mosteiro, mais tarde, nos últimos anos de vida. O cavaleiro será fiel, por toda a vida, ao seu senhor, e mais ainda do que o seria um afilhado ao seu padrinho de batismo. O rito da investidura acontecia num clima de muita seriedade e gravidade. Na véspera, um banho especial e muitas orações na capela criavam a concentração indispensável para o momento seguinte, pela manhã, quando o cavaleiro receberia das mãos
16 Será possível ir depreendendo estas equivalências em passagens da vida de Inácio, antes e depois de sua conversão, assim como em passagens dos EE.
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Capítulo I: Inácio de Loyola – contexto e pretexto de vida Maria Teresa Moreira Rodrigues
de seu senhor a espada que já o esperava sobre o altar. Ali recebia a bênção e fazia o juramento de usá-la apenas a serviço de Deus e proteção dos fracos e oprimidos (viúvas, órfãos e pobres). Com essa cerimônia de “sagração”, a investidura ficava sob o controle da autoridade divina, sob seus limites e proibições. Nada de molestar o povo cristão, e apenas servir aos homens da Igreja e aos trabalhadores. Essa era a “mística” que todos deveriam viver; mas, com a “sagração”, ela deveria impregnar todas as facetas da vida destes guerreiros cristãos.
O culto desses valores manteve-se em expansão, fixando-se numa cultura e num estilo, em que não ficou ausente o lado alegre e descontraído dos momentos de torneio, banquetes, celebrações, danças e jogos. A cavalaria ofereceu-se como um modelo de conduta e como um fundamento conceitual da ação política.
A este ideário medieval, Inácio acrescentou tudo o que humanamente implica o seguimento de Cristo. Formado culturalmente pelos romances de cavalaria e inserido nessa ambiência de valores nobres e cavaleirescos, Inácio já trazia estes valores “revelados” dentro de si. Com a grande “virada” em sua vida, aos valores que nele estavam “revelados”, acrescentaram-se os que Deus nele “revelou”. Iñigo passou a Inácio, seguindo não mais a um rei temporal, mas a um Rei Eterno.
Passemos a Iñigo do Solar Loyola. Passemos a Inácio de Loyola.