4.2 Idrettsanlegg i Møre og Romsdal
4.2.3 Tildelinger
A aceleração crescente no ritmo das mudanças que o século XIX trouxe fez com que modernidade e modernização se confundissem, especialmente nos usos que os estados fizeram da modernização em beneficio das classes dominantes. A modernização, que se configurou, essencialmente, em modernização econômica acelerada, teve como consequência principal transformar os princípios do pensamento racional em objetivos sociais e políticas gerais. A ideia de progresso irá representar melhor esta politização da filosofia da ilustração. Não se tratando mais simplesmente de dar passagem à razão, é preciso querer e “amar” a modernidade, é preciso organizar uma sociedade criadora de modernidade, automotriz.352
Esse progresso, em uma visão historicista, é a construção de uma nação como forma concreta da modernidade econômica e social. A modernidade, portanto, não se separa da modernização, mas é a modernização que se reveste de muito mais importância a partir do século XIX. Século este em que o progresso não é mais unicamente o das ideias, mas torna-se o das formas de produção e de trabalho, em que a industrialização, a urbanização e a extensão da administração pública transformam a vida da maioria.353
A modernidade possibilitou a ascensão de novas formas de expressão, fundamentadas na ciência e na razão. Foram as técnicas aperfeiçoadas no período que possibilitaram o surgimento da fotografia e é desta manifestação, enquanto tipicamente moderna e modernizadora, que interessa aqui. A discussão de como a fotografia se 350 MONDENARD, 1999, p.107. 351 ROUILLÉ, 2009, p.43-45. 352 TOURAINE, 2002, p.69. 353 Idem, p.71.
relaciona com a modernidade ao mesmo tempo em que é fruto desta é proposta pela primeira vez por Walter Benjamin,354 que utiliza a análise da narrativa de Baudelaire355 juntamente com o uso que os Estados fazem da imagem fotográfica, enquanto fenômeno de massa, para construir sua crítica ao uso da fotografia, e seu pretenso valor de prova, como propaganda ideológica.
Seguindo no caminho vislumbrado por Baudelaire, Walter Benjamin avança na discussão sobre a modernidade, inserindo-a no processo de modernização próprio da sociedade industrial capitalista. Detecta o espetáculo da vida moderna presente nas exposições universais da indústria, nas barricadas de Paris, na invenção das técnicas de reprodução, na emergência da cultura de massa e no culto ao novo. Ao mesmo tempo propõe que se discuta a modernidade sob uma perspectiva social, criticando a noção de progresso e a concepção linear da história, que acompanham o desenvolvimento científico e a modernização social.356
Essa ideia de progresso, tão cara às sociedades que se pretendiam modernas, vai ocupar um lugar central: intermediário entre a ideia de racionalização e a de desenvolvimento. Este dá primazia à política, aquela ao conhecimento; de forma que a idéia de progresso afirma a identidade entre as políticas de desenvolvimento e o triunfo da razão. O progresso anuncia a aplicação da ciência à política, identificando uma vontade política com uma necessidade histórica.357
É importante que compreendamos o papel que essa visão historicista
354 Principalmente em dois textos: A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica e Pequena
história da fotografia, nos quais aborda como o surgimento da fotografia abala a arte e a narrativa.
Diante da realidade no século XX claramente reconhecível da hegemonia da mercadoria e da propaganda como a expressão da modernidade, a arte deverá ser refuncionalizada, ou então há de perecer, sendo absorvida pelas técnicas de propaganda. O ensaio A obra de arte na época de sua reprodutividade técnica apresenta ao mesmo tempo o registro da nova situação resultante dos desenvolvimentos técnicos e sociais do século XIX e o desafio da refuncionalização política da arte. Colocada esta nova urgência, as técnicas de reprodução, num primeiro momento, conflitam-se com representações tradicionais sobre arte e cultura. É a política nazi-fascista que primeiro aproveita e se apropria destes recursos, em sua estetização. A obra produzida com possibilidade de reprodução infinita escapa a conceitos como o de autenticidade, assim as discussões sobre o valor artístico da fotografia foram um equivoco, pois não se percebeu a oportunidade de leitura destes novos materiais e técnicas sob uma nova forma: a da mudança fundamental da função da arte, acarretada pelo desenvolvimento técnico. (BECKENCAMP, 2005, p.184).
355
Em Baudelaire, a modernidade se caracteriza como a presença de elementos dinâmicos, efêmeros e transitórios, próprios dela. A modernidade se reinventa nela mesma, no entanto, Baudelaire se coloca inicialmente contra a indústria fotográfica, pois vê na fotografia apenas uma degradação da pintura. Não é capaz de ver, no surgimento da fotografia, outra função que não a de substituir a pintura. Benjamin também discute a perda da aura na obra de arte, na medida em que ela foi substituída pela reprodução fotográfica e cinematográfica, constata a emergência de um novo status artístico após o surgimento da fotografia.
356 RIBEIRO, Marília. Modernidade e pós-modernidade. Análise e Conjuntura, Belo Horizonte, v.5, nº 3,
set/dez 1990 p.77.
desempenha nos projetos públicos, assim como no pensamento das elites técnicas. Isso estará arraigado nas concepções de desenvolvimento e progresso e determinará de que forma esse progresso será realizado. A resposta a essa questão é dada por Touraine assim:
Primeiramente pela racionalização do trabalho, [...] Em seguida e principalmente, pela ação de um poder político que mobiliza as energias – termo emprestado da física – para obter modernização acelerada. Isso obriga a subordinar as tradições e os bairrismos a uma poderosa integração nacional.358
Podemos encontrar a origem dessa concepção de modernidade no encontro entre as ideias assentadas pela Revolução Francesa e as transformações da economia nascidas na Grã-Bretanha, que levam o mundo europeu, e logo o restante do ocidente, a uma modernidade que ultrapassa o mundo das ideias, criando uma sociedade e atores sociais mais definidos pelo que fazem do que por sua natureza. O modernismo triunfante, primeiramente, deu prioridade à destruição do passado, à liberação e à abertura. Depois, as filosofias da história e do progresso deram um conteúdo positivo à modernidade, ao qual se chamou totalidade, palavra esta muito próxima de totalitarismo para que suas ambiguidades e seus perigos não nos sejam evidentes.359
Entretanto, a ideia de modernidade vai passar por uma crise, uma vez que a modernidade arrancou dos limites estreitos da cultura local o homem, jogando-o igualmente na liberdade individual como na sociedade e na cultura de massa. Essa modernidade em crise se define não como uma nova ordem, mas como um movimento, uma destruição criadora, que não conduz senão à sua própria aceleração. Em defesa da modernidade, conclamaram os modernos, a subordinação de todos a uma elite que dirige a modernização. Esse pensamento moderno será identificado por uma burguesia progressista, à protegendo das elites tradicionais e das novas classes subalternas urbanas.360
Essas duas etapas da crise da modernidade, o esgotamento do movimento inicial de liberação e a perda de sentido de uma cultura que se sentia enclausurada na técnica e na ação instrumental, conduziram a uma terceira etapa,
358TOURAINE, 2002, p.73. 359 Idem, p.80-95.
360
mais radical porque colocava em questão, não as carências da modernidade, mas seus próprios objetivos positivos. [...] O desaparecimento dos fundamentos metassociais da moral ocasionaram o triunfo da moral social, do utilitarismo e do funcionalismo. É bom o que é útil a sociedade.361
Como resultado dessa crise, é no triunfo do utilitarismo que a modernização urbana será dada, em um estagio de separação radical entre sociedade e Estado, o que descartava a ideia de sociedade como um conjunto. A crença absoluta na modernidade teve um poder devastador sobre a sociedade:
O espírito da modernidade seduziu aqueles que desconfiavam dos sistemas e queriam, menos construir um mundo novo, que descobrir horizontes inexplorados, viver num mundo mais de buscas do que de certezas, e portanto mais de liberdade e de tolerância que de ordem e de princípios. É então que a modernidade aparece como um instrumento de controle, de integração e de repressão; Foucalt, dentre muitos outros, denunciou esta tendência das sociedades modernas de ampliar o campo da moralização. Não se trata mais somente de não infringir as ordens do policial, mas ainda de acreditar nelas, de ajustar seus sentimentos e seus desejos às regras do êxito social e a um higienismo social formulado muitas vezes em nome da ciência. Se a modernidade se traduz por uma maior capacidade de ação da sociedade sobre si mesma, não estará ela mais carregada de poder que de racionalização, de leis que de libertação?362
Essa forma equivocada como a modernidade foi tomada esteve diretamente influenciada pela atuação dos atores sociais, em especial o estado, que se firmou como porta-voz da modernização. Foi neste momento que modernização e modernidade se confundiram, pois o estado se utilizou do nacionalismo como catalisador do progresso. Onde o nacionalismo operou a mobilização do passado e da tradição a serviço do futuro e da modernidade, ele abriu as culturas de seu território aos ares da modernidade e da racionalização, construindo também um ser nacional, mais modernizador que moderno. Neste quadro, o estado não é a figura política da modernidade, ele é o ator principal da modernização, o que significa que ele é o ator não moderno que cria uma modernidade
361 Idem, p.102. 362
sobre a qual procurará preservar o controle, ao mesmo tempo que aceitará perdê-lo em parte, em beneficio de uma produção e de um consumo internacionalizados.363
Modernizar para o trabalho e a circulação de mercadorias é exigência de um projeto econômico nacional, visando à inserção da nação em uma economia mundial. Foi então na situação da “entrada”, primeiramente, de nações como Grã-Bretanha, França e Estados Unidos na modernidade, e posteriormente dos países periféricos, que a nação se identificou com a abertura e com o desmoronamento das tradições e barreiras culturais. Rapidamente a aliança entre estado e modernidade se espalhará por todos os países capitalistas e irá se tornar mais complexa em toda a parte, onde a modernização deixou de ser liberal para se tornar voluntarista.364
Reduzir a sociedade a um canteiro de obras confundiu-se com um projeto moderno de nação, subordinando cada vez mais o mundo da razão moderna às políticas de modernização e a ditaduras nacionalistas.365 A fotografia então passou de fenômeno da modernidade à prova do triunfo da modernização, tal foi o uso que o estado fez dela enquanto registro de suas realizações. Foi a necessidade de um sistema de representação, adaptado ao nível de desenvolvimento da sociedade, que colocou a fotografia no coração da modernidade e lhe valeu alcançar papel de documento, função de prova, aferida à fotografia devido à concepção de cópia da realidade presente no registro fotográfico, fruto de seu caráter mecânico.366