Homens e mulheres/mulheres e homens ao dialogarem, se modificam e modificam o mundo, construindo-se assim a educação como um ato libertador, como “prática da liberdade”. (Paulo Freire)
Acho que essa comunhão que abraça o ideal da Escola e aí a união faz a força, o diálogo, a liberdade de falar.
(Aline, professora da Escola)
Como um ser de relações em constante movimento no mundo e com o mundo, o homem adquire a consciência de poder atuar de diferentes maneiras na sua realidade. Ao percebê-la como criação e construção passa a modificá-la e a si modificar concomitantemente, num contínuo processo de ir e vir, de ser e agir.
Nesse movimento, constitui a consciência de ser parte integrante do mundo, de ser agente e paciente da sua história e de que ao determinar é também determinado. Daí a importância de se reconhecer sujeito e de sua integração ao meio.
A integração ao seu contexto, segundo Freire (2009, p. 50), permite a não acomodação, ou adaptação que configura sua desumanização, “implica em que, tanto a visão de si mesmo, como a do mundo, não podem absolutizar-se, fazendo-o sentir-se um ser desgarrado e suspenso ou levando-o a julgar o seu mundo algo sobre que apenas se acha”.
Para Freire (2009), é essa integração com o mundo que o enraíza, que o faz um ser histórico e livre.
Assim, a educação é um veículo fundamental na construção da consciência crítica, do enraizamento da pessoa com o mundo e na aquisição da liberdade, que levará a uma transformação dessa “sociedade fechada”, injusta e segregativa.
Uma educação como prática da liberdade, passamos a buscar na Escola, como fundamento para a integração do ser humano ao meio. Para tanto, essa integração, que implica
139 na aquisição da consciência crítica do ser e estar no mundo e com o mundo, o que traria as transformações individuais e sociais, deveria começar dentro da Escola.
Queríamos que todos tivessem a liberdade de falar e ouvir, que não houvesse a imposição de uma voz, mas que todos se fizessem ouvir de forma crítica, mas amorosa; autêntica, mas humilde e compreensiva. Nessa perspectiva, sentimos a necessidade de começar por uma reflexão constante sobre todas nossas ações cotidianas.
Embasados em Freinet, construímos um de seus instrumentos pedagógicos na Escola, “o Parabenizo, o Critico e o Proponho”, com o objetivo de todos poderem opinar e construir as ações na Escola, de dar à Escola o rosto de seus sujeitos, de praticar a liberdade de falar, a autonomia de decidir, a integração ao meio, o enraizamento e a capacidade de transformar, determinar e ser determinado.
Pensamos no parabenizo, critico e proponho como um instrumento que muito nos auxiliaria por uma educação como prática da liberdade.
Passamos, então, a utilizá-lo entre todos: docentes, discentes, pais e demais funcionários. Para os docentes e demais funcionários, é utilizado quinzenalmente, nas sextas feiras, onde se avalia as ações e relações escolares inerentes à prática e ao comportamento docente e dos demais funcionários. Esse instrumento tem servido de suporte para as reuniões de conselho de classe e escolar.
Para os discentes, também é utilizado quinzenalmente com o objetivo de avaliar as ações e comportamentos na sala de aula e nos outros espaços. Muito do que se registra se transforma em pauta para as reuniões de colegiado estudantil.
Para os pais, esse instrumento é utilizado nas assembleias gerais, realizadas bimestralmente, com o objetivo de avaliar a Escola como um todo.
Na busca de saber sua importância perguntou-se aos pais, alunos, funcionários e professores, sobre a percepção que tem desse instrumento na Escola.
Para os pais, o parabenizo, critico e proponho como um instrumento de avaliação, onde se tem a liberdade de falar, de cobrar e, sobretudo, de interação:
É uma forma de falar, de parabenizar o que a Escola vem desenvolvendo que a gente tá gostando; também é uma forma da gente dizer o que não tá gostando, de fazer sua crítica, sem tá magoando ninguém, porque tá se falando no geral e dá sua sugestão, de como deveria ser. Então é uma forma muito boa de avaliar, de interagir com os pais. (Cilene)
Você é cobrado e, ao mesmo tempo, você pode cobrar. Vocês dão esse espaço pra gente. (José Humberto)
140 Os educandos o veem como um instrumento importante que dá voz a eles e os tornam participativos do fazer educativo da Escola:
Pra mim eu acho muito importante pra dizer o que a gente sente naquele momento, naquela semana, naqueles dias. (João Paulo)
É um momento muito importante porque é o momento em que a gente fala o que quer sobre a Escola, que propõe. É um momento que a gente vê que tem o direito de falar, de interagir com as coisas da Escola. (Luana)
Mas, também, é visto como um instrumento de integração de todos na busca da melhoria da Escola, como pode ser percebida pela fala da educanda Ruth:
Assim a gente consegue viver unidos e se expor mais porque é difícil uma escola que tenha isso, acho que nenhuma tem o que essa Escola tem, que a gente pode falar, dizer o que acha da Escola, o que tá errado, o que precisa melhorar.
Ainda pode ser percebido como um instrumento promotor da liberdade de expressão, de superação das limitações e amadurecimento:
É uma forma da gente se expressar, só que no inicio do critico ninguém quer falar, mas quando um fala aí todo mundo quer falar. (Eduardo)
Aí já tem um bocado de coisa pra criticar. (Suzane)
Aí tem gente que não gosta quando é criticado, porque não entende que é pro bem da pessoa, pra pessoa melhorar. (João Paulo)
O parabenizo, critico e proponho integra todos e tem se tornado um instrumento que promove mudanças na Escola:
Porque a gente pode falar, não só os professores e funcionários, mas também a gente pode se encaixar, estar junto com vocês pra falar sobre o que tá tendo na Escola, a gente pode estar por dentro de tudo. (Thaís)
141 Como canal de ação e reflexão de uma prática, os funcionários enfatizam o crescimento da Escola por intermédio do parabenizo, critico e proponho:
É bom, porque a gente pode dar a nossa opinião sobre o que foi bom e o que foi ruim. (Rosemery)
Ele ajuda no crescimento da Escola. (Janeide)
Na percepção dos educadores, além de avaliativo, funciona como instrumento de troca, de partilha, um instrumento de diálogo:
É um instrumento avaliativo muito importante. Quando algo feito foi legal a gente parabeniza, diz o porquê, o quanto foi importante e isso já serve pra mim, e para os demais. Que outro recebeu, mas que serve pra gente também. O critico serve pra gente repensar, rever, por que não deu certo, como poderia ter feito. Quando a gente propõe a gente vê uma maneira de melhorar, de reconstruir, de não voltar a cometer o mesmo erro. É um instrumento de reflexão. (Gitânia)
É um instrumento de dialogar também, de debate, de conversa, isso é muito importante. (Emiliana)
Também visto como um instrumento de relações igualitárias, de construção coletiva e de crescimento:
É uma grande oportunidade de melhoria. É fazer de todos nós parte do processo, porque são poucas as instituições que abrem esse espaço para que a gente manifeste seu pensamento. A gente só vê as coisas chegando de cima para baixo, impostas. (Luís)
E quando vem uma crítica não é destrutiva. Aqui quando vem um critico, vem sempre uma proposta de como melhorar. (Ana Paula)
E é um instrumento usado para todos dentro da Escola, onde todos parabenizam e são parabenizados, criticam e são criticados, e propõem também. (Luís)
Esse instrumento, utilizado por todos na Escola, já faz parte do seu cotidiano.
Tudo é passível de discussão pelo instrumento. Todos podem parabenizar, criticar ou propor. E tudo é registrado em um caderno, criado para isso.
142 Eis alguns registros ilustrativos, aqui apresentados como simbólicos de representação de um cotidiano vivido:
Nível II 02/08/13 Eu parabenizo:
O lanche; As tarefas;
O jardim de nossa escola.
Eu critico:
Adalberto que não respeitou a oração;
Heloísa critica que não estão cuidando das pontinhas de lápis da sala;
Mariane critica que não estão cuidando da toalha da mesa.
Eu proponho:
Conversar com Adalberto pra ele respeitar a oração; Ter cuidado com as pontinhas dos lápis.
6º Ano 16/11/12 Eu parabenizo:
Os alunos que cumpriram com as atividades; A aula de Educação Física;
As pessoas que contribuíram com a partilha; A gincana de matemática.
Eu critico:
Raysla por não ter feito o dever de casa; Sabrinha por ter apelidado Simone;
Os meninos que jogam bola nas meninas com força.
Eu proponho:
Quem jogar a bola forte ficar uma semana sem brincar no parque. Dividir os dias no parque.
143 A partir desse instrumento, muitas regras são construídas entre eles que promovem uma convivência com combinados, que conciliem as necessidades de todos, como pode ser observado acima. Os meninos passaram a ter mais cuidado com a bola nos jogos mistos, bem como as meninas, sugeriram a divisão dos dias no parque, pois os meninos acabavam dominando o espaço. Luta defendida e vitória conquistada. Em colegiado, se fez o horário do uso do parque, para meninos e meninas e dias coletivos.
Como sujeitos, os pais também utilizam esse instrumento para manifestar sua satisfação e apontar os pontos de melhoramento:
Assim também acontece com os professores:
Professores 07/06/12 Eu parabenizo:
Os professores que estão alimentando o Espaço Compartilhando Saberes; A equipe que apoiou o professor Luís na sua ausência;
Os professores que tem monitorado os combinados nas reuniões por sala; O lanche feito com muito amor;
Os pais que participaram do mutirão do forro.
Eu critico:
O não cumprimento da sensibilização da coleta do óleo; As ausências sem justificativas;
Os professores que não dão condições para a equipe de apoio ficar em sala;
As ações de avanço que não aconteceram.
Eu proponho:
Que os professores deixem seus materiais na secretaria, nas ausências.
Pais 05/10/13 Eu parabenizo:
O incentivo dos pais virem à escola todos os meses; A escola por trabalhar a solidariedade e o respeito; A sensibilização nas comunidades sobre a água; O projeto de leitura viajante;
Pelo dia do folclore.
Eu critico:
A falta de um professor de educação física para os pequenos; A ausência dos pais na reunião, que deixa as crianças tristes; As salas de aula que ficam abertas na hora do recreio.
Eu proponho:
Falar com os pais sobre o constrangimento das crianças; Fechar as salas nos intervalos.
144 As discussões surgidas a partir dos críticos e das construções das metas para resolver os problemas movimentam o grupo na busca de melhorar o que não está bom na Escola. Um critico sempre recorrente é a ausência do professor, os atrasos e, na ausência, a falta de comprometimento em não avisar e enviar o material para ser desenvolvido com a turma.
Esse problema chega ao conselho de classe, que elabora o seguinte documento:
Dessa maneira, a escola vai assumindo o rosto dos seus sujeitos. Sempre passando por processo de informação-reflexão-ação de nossas práticas.
Conselho de Classe – 01/11/13 Pauta: - As ausências demasiadas dos docentes e funcionários;
- Atrasos em sala de aula dos docentes.
Decisões deliberadas pelo Conselho de Classe
1) Em casos de faltas previstas:
Nas aulas:
Avisar com bastante antecedência à direção; Repor sua aula na troca com outro colega; ou,
Providenciar com antecedência um substituto; (o substituto deverá ser da área de atuação ou área afim, bem como o substituto deverá ter contato prévio com a direção e coordenação).
Nas atividades escolares (encontros, formações, datas comemorativas, etc.)
O membro da escola terá direito a faltar 10% das atividades escolares.
2) Em casos de faltas imprevistas:
Repor a aula.
3) O que fazer com o não cumprimento:
O membro da escola será advertido de suas faltas pelo corpo diretivo;
Em caso de reincidência será decidido em conselho escolar sua permanência na escola.
Proposta:
Voltar a frequência diária e dos encontros para docentes e funcionários na sala dos professores;
Que cada docente e funcionário faça uma reflexão se realmente se encaixa dentro do perfil da escola e tomar decisão de sua permanência ou não;
145 A liberdade como um viés da educação, que permite ao ser humano, ao se libertar de suas amarras, de adquirir a consciência de sua desumanização e, consequentemente, a aquisição de sua humanização, tem proporcionado para Escola muitas transformações individuais e sociais.
A prática da liberdade como fundamento pedagógico tem provocado a autonomia como um princípio da educação desenvolvida dentro da Escola.