MARCUSE não é tão condescendente para com WEBER. Para entender sua posição, faz-se necessário acompanhar um pouco da trajetória de seu pensamento com relação à razão.
MARCUSE parte de uma concepção clássica de razão. Num texto de 1937, o filósofo esboça um conceito, segundo JAY, "orientado em um sentido materialista" de razão clássica:
"A razão é a categoria fundamental do pensamento filosófico, a única por meio da qual este está amarrado ao destino humano. A filosofia quer descobrir os fundamentos mais gerais e ulteriores do Ser. Debaixo do nome de razão concebeu a idéia de um Ser autêntico no qual todas as antíteses importantes (de sujeito e objeto, essência e aparência, pensamento e ser) se reconciliariam. Conectada a esta idéia estava a convicção de que o que existe não é já e imediatamente racional, senão que, pelo contrário, deve comparecer ante a razão (...) Como o mundo estava ligado pelo pensamento racional, e, em verdade, ontologicamente dependia dele, tudo o que contradizia a razão ou não era racional, foi considerado como algo que havia de ser superado. Estabeleceu-se a razão como um tribunal crítico."97
Novamente segundo JAY, MARCUSE ainda é, aqui, tributário do princípio de identidade, que será combatido por HORKHEIMER e ADORNO.
Por outro lado, é na razão clássica que MARCUSE já vê, com olhos freudianos, uma tensão entre Logos e Eros. Para MARCUSE, já esta razão é contrária ao impulso instintivo da vida: é artificial e, no sentido psicanalítico, repressora.
"A tensão entre Razão, de um lado, e as necessidades e desejos da população (...) por outro, existe desde o princípio do pensamento filosófico e científico. A 'natureza das coisas', incluindo a da sociedade, foi definida para justificar a repressão e inclusive a supressão como perfeitamente racionais. O verdadeiro conhecimento e a razão requerem a dominação sobre - senão a liberação de - os sentidos. A união de Logos e Eros leva, já em Platão a supremacia de Logos; em Aristóteles, a relação entre o deus e o mundo movido por ele é 'erótica' apenas em termos de analogia. Então o precário nexo ontológico entre Logos e Eros se rompe, e a racionalidade científica aparece como essencialmente neutra."98
ROUANET reflete, de forma mais tênue, esta tensão quando discute os limites da razão: os fatores afetivos, passionais, foram vistos pelos gregos como perturbadores da razão e da possibilidade de se chegar à Verdade, devendo por isso submeter-se "ao controle das faculdades superiores". Já na gênese ontológica destes conceitos, a hierarquia das faculdades humanas demonstra este caráter normativamente dominador da razão: é um ethos da vida virtuosa deixar que a razão dirija as ações humanas, que estão em tensão permanente entre esta diretiva e a dos desejos.
"No conflito entre a razão, que aponta para o bem, e o desejo, que influencia a vontade, a razão pode perder a supremacia. (...) A psicologia de Platão reflete esta forma de conceber as paixões. (...). É o que transparece no Fedro, no qual
97Marcuse, H. Philosophy and critical theory, in Negations apud Jay, M., op. cit., pp. 112-113.
Transcrito do Castelhano.
98Marcuse, H. El hombre unidimensional, Barcelona, Ariel, 1987 (1954), p. 174. Transcrito do
Castelhano. ADORNO discutirá esta questão de um ponto de vista mais intrínsecamente epistemológico,
Sócrates compara a alma com um coche conduzido por dois cavalos, e cujo cocheiro é a razão."99
Com esta compreensão, vê-se que MARCUSE está mais inclinado a criticar a razão em si, encontrando ali as raízes do totalitarismo100.
A profundidade da crítica frankfurtiana da razão é proporcionada, entre outros fatores, pelo relacionamento ocorrido dentro da Escola, entre marxismo e psicanálise. De fato, as tentativas de unir-se Marx e Freud datam de antes da década de 1920, sem muito sucesso, no entanto. É nessa época que HORKHEIMER interessa-se pelo assunto, estimulado pela presença, no instituto, de teóricos ligados à psicanálise, em especial, ERIC FROMM. A partir daí, a união começa a funcionar, com diversos trabalhos de sucesso,101 dentre os quais
os dois livros marcantes de MARCUSE, Eros e Civilização, e O homem unidimensional102. A introdução deste avanço da teoria psicológica é um marco
no humaninsmo radical: enquanto a razão clássica conta com a psicologia de SÓCRATES-PLATÃO e o utilitarismo de BENTHAM serve-se da psicologia de HOBBES (conforme exposto no Capítulo 2), a Teoria Crítica passa a apoiar-se em FREUD.
"In Eros and Civilisation, Marcuse, following Adorno and Fromm, seeks to develop the links between human personality and the totality in which it is located, taking the Freudian concepts of the 'pleasure principle' and the 'reality principle' as the starting points for analysis. In the Freudian perspective, civilisation rests upon the repression of man's internal drives. The 'pleasure principle' by which these drives are allowed to follow an unconstrained search for satisfaction is seen as being subjugated in a civilised society by the 'reality principle', according to which men are prepared to postpone self-gratification in the interests of social order."103
Assim, quando lê WEBER, MARCUSE vê uma coisa que não tem nada a ver com razão humana ser alçada ao status de razão pelo concurso da definição de racionalidade instrumental. Para o frankfurtiano, WEBER legitima a lógica ("irracional") do capitalismo, atribuindo a ela o status de razão, que não deveria ter.
"O que Weber faz [segundo MARCUSE]é postular como racional toda a ação que
se baseia no cálculo, na adequação de meios a fins (...) Marcuse ressalta a dimensão ideológica do pensamento weberiano: ao mesmo tempo que o autor de
Economia e Sociedade defende a neutralidade da ciência e portanto a 'razão
neutra', 'meramente técnica', ele estaria fazendo de fato a apologia da razão capitalista."104
99Rouanet, Sérgio P. A razão cativa - as ilusões da consciência: de Platão a Freud, S.P., Brasiliense,
1990 (1985), p. 16.
100Entretanto, não deixará de considerar que a razão instrumental é a razão do capitalismo!
101Sobre os insucessos e os sucessos das construções freudo-marxistas, v. Jay, M., op. cit., pp. 151-192.
Entenda-se "sucesso" por construção efetiva e duradoura de conhecimento.
102No Brasil, Ideologia da sociedade industrial, R. J., Zahar, 1967.
103Burrel e Morgan, op. cit., p. 292. Sobre estes conceitos freudianos, v. Freud, S. "O mal-estar na
civilização" in Freud, S.P., Abril, Col. Os Pensadores; sobre MARCUSE, psicanálise e o humanismo radical, v. Drago, Aníbal P. "Teoria crítica e teoria das organizações", S.P., RAE (Revista de
Administração de Empresas), 32(2), abr./jun. 1992; ROUANET também desenvolve a relação entre razão e psicanálise no livro citado acima (1990), e entre a Teoria Crítica e a psicanálise em Teoria crítica e psicanálise, R.J./Fortaleza, Tempo Brasileiro-U.F. Ceará, 1983.
A razão instrumental de WEBER esconderia ainda uma falácia: se fosse racional do ponto de vista da ação individual (do empresário, sobretudo), seria irracional no conjunto. Deixando de lado outras dimensões da racionalidade, WEBER realizaria esta transposição indevida fundindo a racionalidade do lucro com a da vida política e social num único conceito105.
Não obstante, MARCUSE considera o conceito de racionalidade instrumental (ou tecnológica, como prefere) de fundamental importância para a crítica da sociedade industrial. Introduz a discussão da ciência e tecnologia como instrumentos de dominação e de ideologia dessa sociedade (problemática que também será retomada por HABERMAS). A tensão entre razão clássica e Eros é trazida para o século XX: a razão tecnológica substitui a clássica; mas o lado "libertário" desta contraposição continua sendo um instinto primitivo, Eros. MARCUSE não ousa contrapor à razão instrumental nenhum outro tipo de razão, pois
"... a libertação começa com a necessidade não sublimada, ali aonde primeiro é reprimida (...) É no instinto de liberdade não sublimada que se fundem as raízes da exigência de uma liberdade política e social; exigências de uma forma de vida na qual inclusive a agressão e a destruição estivessem a serviço de Eros, ou seja, da construção de um mundo pacificado."106
O que muda, então, com a sociedade industrial? qual a relação entre esta razão e a razão clássica, já então dissociada do "instinto de liberdade"? Para MARCUSE,o que une uma razão a outra é a dominação do homem pelo homem, e o que muda é a forma de dominação, que traz consigo mudanças na racionalidade, como parte do aparato ideológico de sua justificação. É a herança marxista em ação: as superestruturas determinadas pelas relações de produção. Em particular, para MARCUSE, pela tecnologia e pelo saber tecnológico, que originam a dominação tecnocrática. Para ele, a sociedade industrial é essencialmente totalitária.