3.1 Three interest rate cycles
3.1.2 Tight policy in the summer and autumn of 2002
Diante do problema da pesquisa o de identificar em que medida o projeto Um Computador por Aluno - UCA promove a inclusão digital preconizada em seus objetivos, realizamos uma pesquisa de cunho etnográfico no município de São João da Ponta.
E de forma a analisar a inclusão digital presente nos marcos legais do projeto UCA, entendi ser necessário discorrer sobre o conceito de inclusão digital, considerando o entendimento de que o UCA é um projeto de inclusão digital inserido no contexto da sociedade da informação e suas contradições. Neste sentido, chegamos à conclusão de que o projeto UCA se apresenta como uma possibilidade de inserção do Brasil na SI. Em seguida, partimos para os conceitos de inclusão digital, de forma a entender o UCA, onde apresentamos um conceito de inclusão num viés mais técnico pautado na ideia de acesso do computador e internet (NERI, 2003; SILVEIRA, 2001) e outro conceito tomando Warschauer (2006) por referência com uma abordagem de inclusão sócio-digital, que entende a inclusão digital como possibilitadora da inclusão social.
Em outro capítulo, de forma entender o projeto UCA e toda sua complexidade estrutural, logística e pedagógica, que é reflexo de toda uma construção sócio histórica das políticas públicas na área de tecnologias na educação, fizemos uma análise dos projetos e políticas nesta área desde a década de 70, onde notamos que todos os aprendizados, e por que não erros, das experiências já realizadas em nosso País, sobre tecnologias na educação, estão de certa forma inseridas no UCA.
Localizar o UCA no contexto dos projetos e políticas públicas das TICs foi importante, pois permitiu observar evoluções de termos como a mudança de informática educativa para tecnologias na educação, usado na atualidade, e também observar a inserção a partir do PROINFO INTEGRADO da inclusão digital, como objetivos a serem alcançados nas políticas públicas do Governo Federal de forma a possibilitar a inserção do Brasil na sociedade da informação.
Recuperando os dois primeiros capítulos desta dissertação, considerando também os marcos legais do programa UCA onde estão seus objetivos, finalidades e concepções pedagógicas, concluímos que o UCA se aproxima da abordagem de inclusão sócio-digital.
Este caminho, o das discussões levantadas sobre sociedade da informação, inclusão digital, políticas públicas de inclusão digital e o projeto UCA, foi importante para
continuar percorrendo outro percurso: o de como se deu, de fato, a inclusão digital proporcionada pelo UCA aos participantes em SJP.
Assim, considerando que em SJP todas as escolas tiveram acesso ao computador, mesmo as de educação infantil, e o acesso à internet foi deficitário na grande maioria destas, onde apenas as escolas e comunidade da sede do município tiveram acesso a internet de boa qualidade, possibilitando a estes moradores outras aprendizagens além do mero uso instrumental do UCA e da rede internet com indícios de certa inclusão sócio-digital destes participantes.
O projeto UCA não conseguiu impregnar na escola, lócus primeiro de atuação do projeto, neste sentido concordamos com Lavinas (2012) quando diz que o “uso pedagógico das TICs em sala de aula é ainda tímido frete as descobertas que crianças e jovens fazem fora dos muros escolares” (p.29). Podemos incluir neste universo, além de crianças e jovens, as famílias que em SJP foram fortemente impactadas com a inclusão digital do projeto UCA. De fato o projeto começou na escola, mas não adentrou profundamente em seu espaço, pois para os participantes do espaço além-escola o laptop UCA se apresentou como ferramenta de mediação para inclusão no mundo digital e nesse processo de mediação o mais importante é como estas ferramentas se incorporam as atividades humanas (WARCHAUER, 2006) e principalmente às alteram, transformações que foram verificadas no campo de pesquisa.
O projeto UCA possibilitou a inserção de parte da população de SJP na era da informação, mas essa inserção, pelo menos observado pela pesquisadora no início do projeto em 2010 durante a pesquisa - nos anos de 2012 e 2013 - não trouxe mudanças significativas nas condições de estrutura física e de pessoal da educação formal, saúde, habitação, saneamento da população em geral. O posto de saúde continuou sem médico, a maioria das ruas continuou sem saneamento e a escola continuou sem biblioteca e com as mesmas práticas educacionais de antes do programa.
Assim, podemos dizer que a inclusão digital do UCA permite sim a inclusão dos participantes na sociedade da informação; porém, esta é uma inclusão desigual e que não leva a pensar a igualdade nessa sociedade quiçá no contexto de SJP. Pelo contrário: trata-se de inclusão que vai manter as mesmas condições de vida dos beneficiados, porém despertando novos desejos, sonhos e aspirações - que nem sempre serão realizados - a partir de referências globais que foram observadas nos estudantes nesta pesquisa.
Isso nos leva à outra questão central para o UCA: o laptop UCA se apresenta, aos participantes, como capaz de melhorar as condições de vida das pessoas em SJP? Da mesma
forma que aludimos acima, melhora em termos, mas não altera de fato, as condições de vida daquela vila.
Em nosso entendimento, essas considerações nos colocam a pensar que a sociedade da informação do qual o UCA advém é, simultaneamente, includente e excludente. Sobre isso é válido expor que a inserção na sociedade da informação não significa necessariamente a curto e médio prazo a diminuição das mazelas e exclusões sociais existentes, pois a estrutura da SI “é permeada por contradições que são próprias a lógica capitalista” onde “as tecnologias de informação estão sendo aplicadas em uma estrutura política e econômica que, nesse momento histórico, confirma, reforça e aprimora os padrões capitalistas de acumulação em uma escala sem precedentes” (GUSSI; WOLFF, 2001, p.154), sendo inerente a este novo modelo de sociedade inclusões e exclusões.
Não estamos aqui a dizer que não se faz desejável promover a inserção na sociedade da informação, pelo contrário, consideramos que:
O novo paradigma oferece a perspectiva de avanços significativos para a vida individual e coletiva, elevando o patamar dos conhecimentos gerados e utilizados na sociedade, oferecendo o estímulo para constante aprendizagem e mudança, facilitando a salvaguarda da diversidade e deslocando o eixo da atividade econômica em direção mais condizente com o respeito ao meio ambiente. (WERTHEIN, p.75, 2000).
Porém, não desejamos cair na visão ingênua segundo a qual as modificações em direção à sociedade da informação seguem uma norma técnica, já que seriam advindas apenas pelo vetor da tecnologia, constituindo-se, por isso, como neutra e sem a interferência de fatores econômicos, políticos e sociais.
Neste sentido, acredito que, potencialmente, políticas de inclusão digital para a inclusão social, possibilitariam a melhoria nas condições de vida das populações beneficiadas no sentido do exercício pleno da cidadania que poderia possibilitar a transformação das realidades socialmente excludentes.
Observamos em SJP que o projeto UCA, inicialmente inserido com objetivos educacionais, não vingou na escola, local primeiro de atuação, e foi para a comunidade que estabeleceu um conceito de inclusão digital para as práticas e usos na vida cotidiana, possibilitando não só conhecer outras realidades pela internet, mas também buscar na rede informações realmente válidas em suas vidas, como: emprego, estudos e cursos com indícios de uma inclusão sócio digital aos participantes.
Em SJP o projeto UCA precisa ser repensado principalmente no âmbito da escola com a interlocução de seus atores numa real perspectiva de se inserir o projeto neste espaço. Outra questão é a dos laptops que foram retirados dos estudantes no meio do ano de 2012, esta dissertação e outros estudos como Lavínas (2012) indicam que quando o laptop UCA tem seu uso restrito na escola “permanecendo armazenado na escola, a intervenção não registraria impacto” (p. 29). Desta forma, neste presente momento, faz-se necessário a devolução dos laptops aos estudantes em SJP, pois, nos termos das conclusões expostas desta dissertação, a retirada do UCA significa reforçar ainda mais a exclusão social de pessoas que tinham a expectativa que fossem incluídas. Em decorrência disso, há outra questão: a necessidade de se pensar na modificação da lei sobre a responsabilidade do laptop UCA, de maneira que o estudante, ou seu responsável imediato, tivesse de fato a posse do laptop UCA.
Por fim, considero importante ressaltar a contribuição metodológica deste estudo que levou a conclusões bastante peculiares para pensar o projeto UCA e, amplamente, o campo das tecnologias na educação. Acredito que a abordagem etnográfica utilizada se apresenta como possibilidade metodológica para aprofundar as análises de políticas e projetos educativos neste campo educacional.
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