tom, de intenção, etc., o localizador deve dar uma maior prioridade às restrições impostas pela aplicação e às orientações fornecidas pelo iniciador/cliente, sendo que, no caso da localização de um artefacto semântico, como uma ontologia, deve ter em conta ainda os pressupostos ontológicos (ontological commitment) que presidiram à sua construção e orientam a sua especificação.
Finalmente, no caso da tradução, o ónus da responsabilidade recai exclusivamente sobre o tradutor que é identificado e reconhecido como o produtor do texto de chegada. Em contrapartida, o texto localizado, como resultado de um esforço colectivo, remete, pelo menos em parte, o localizador ao anonimato.
2.2. Terminologia e localização
A relação entre tradução e terminologia foi já alvo da análise de vários autores (Cabré, 2004b; Budin, 2005; Rogers, 2007), tanto do ponto de vista prático, como teórico, análise que nem sempre foi extensiva ao processo de localização. De facto, o estudo dos termos e o estudo da tradução, sobretudo a especializada, e o estudo da localização gozam de uma relação próxima. Os termos constituem, como reconhece Rogers (2007: 01), “an important semantic contribution to lexically dense texts dealing with specialist subject matter, and hence to their translation”.
Terminologia, tradução e localização mantêm, enquanto disciplinas, uma relação de
proximidade que se pode observar em diversos aspectos, como explicita Cabré (2004b: 89),
que destaca a sua origem prática, a sua passagem relativamente recente a disciplina, a interdisciplinaridade constitutiva e a ligação imbrincada enquanto matérias relacionadas
com a informação e a comunicação. Possuem, por outro lado, um carácter transdisciplinar,
dado que transcendem um campo de saber, para estar presentes em todos os campos do
a) O carácter final da tradução – que se estende, na nossa perspectiva à localização ‐, por contraste com o carácter pré‐final da terminologia50,
b) A sua necessidade assimétrica específica.
Tanto a terminologia como a localização (e a tradução) são campos interdisciplinares e possuem na sua base elementos dos campos das ciências cognitivas, das ciências da
linguagem, ciências da comunicação, da epistemologia e da lógica. A presença coincidente
destes campos disciplinares resulta do facto de que o objecto das ciências dedicadas à comunicação e à informação se sintetizar a partir da descrição e explicação de três elementos:
a) As categorias do conhecimento,
b) As unidades expressivas que permitem expressar estas categorias,
c) O conhecimento que é expresso e transmitido por estas unidades (Cabré, 2004b: 90). Quando nos debruçamos sobre a localização como processo, vemo‐nos, assim, perante a necessidade de ter presente na sua análise e no seu estudo os contributos da terminologia e da sua abordagem teórica. Se na análise do processo de localização nos deparamos com a questão do modo como o conhecimento especializado é transmitido, a
resposta surge, a nosso ver, colocando a terminologia como o modo privilegiado para essa
transmissão, graças à sua profundidade de análise da língua de especialidade, sobretudo em situações de comunicação entre especialistas.
A terminologia constitui‐se, assim, como um elemento crucial sempre que a informação e o conhecimento relativo a um domínio de especialidade são gerados,
utilizados, armazenados e processados, transmitidos, implementados, traduzidos,
localizados ou interpretados. De facto, uma terminologia, enquanto conjunto de termos específicos a um domínio, estruturados, inter‐relacionados e que se constituem como elementos de organização e designação do conhecimento, funciona como pré‐requisito multifuncional para e como factor de comunicação intercultural (Budin, 2005). Por outro
lado, o recurso às metodologias terminológicas permite capturar de forma mais profunda a
50 A tradução constitui um fim em si mesma. A terminologia, enquanto conjunto de unidades especializadas de
um domínio de comunicação técnico‐profissional não constitui per se um produto final de comunicação – constitui antes um meio para levar a cabo outras actividades de carácter linguístico (Cabré, 2004b: 91).
relatividade intercultural e muitas das assimetrias existentes entre as representações de conhecimento específicas a cada cultura. Decorre daqui a sua importância e centralidade para o desenvolvimento do processo de localização e para a garantia da qualidade e consistência da localização, evidenciada por diferentes autores, como por exemplo Schmitz (2007), para quem a terminologia constitui o elemento primário de transferência de conhecimento entre o produtor e o utilizador final, ou por Quirion (2003: 548), que vê a terminologia como o elemento nuclear da localização, dado que a terminologia relacionada com o produto deve, de acordo com a sua opinião, ser estabelecida tendo em conta os “linguistic usages of the local specialists (horizontal axis) and ensuring rigorous terminological consistency between all the versions [of the] product and with related articles (vertical axis)”.
Gouadec (2003: 528), por seu lado, associa o processo de gestão da terminologia ao
da internacionalização, e afirma que, idealmente, os produtos deveriam ser
internacionalizados desde o momento da sua concepção de modo a facilitar o trabalho terminológico. Esta perspectiva cria pontos de contacto entre o processo de localização e o processo terminológico, dado que uma terminologia procura, através de uma análise sistemática, uma estruturação e representação de um domínio do saber, e a localização deve, à partida, procurar considerar e gerir todos os elementos respeitantes ao produto que se enquadrem no âmbito das suas especificidades culturais, linguísticas, técnicas, religiosas, filosóficas, do sistema de valores e, finalmente, dos métodos de apresentação. (Gouadec, 2003: 528).
Esta proximidade é reforçada pela existência de um conjunto de recursos, como bases de dados terminológicas e dicionários técnicos mono e multilingues, entre outros, que apoiam o localizador no acesso à informação especializada e no seu processo de consulta e
decisão. Finalmente, a compilação de dados a partir de corpora, sobretudo os extraídos a
partir de corpora paralelos ou comparáveis, pode resultar na construção de recursos que contribuam para um acesso à informação mais rico e, possivelmente, de carácter mais
actual. Da conjugação destes elementos resulta uma relação simbiótica entre o estudo da
terminologia e o estudo da localização que coloca a terminologia no centro do processo de
localização, terminologia que Warburton (2010) considera como o ADN da globalização e da
De facto, para o bom desenvolvimento, disseminação e uso de um produto, a terminologia tem que ser estabelecida tendo em conta os usos linguísticos dos especialistas (comunidades) locais e a necessidade de assegurar consistência terminológica entre todas as
versões (de um conteúdo digital). A boa gestão terminológica pode, assim, ser vista como
um contributo essencial para a boa gestão do processo de localização, constituindo‐se o
trabalho terminológico como um elemento nuclear a todo o processo de localização. Como
explicita Karsch (2009: 123), a terminologia normalizada é o suporte principal dos processos de tradução e localização orientados para a qualidade.
Nas palavras de Karsch (2009: 144), cenários mais ou menos complexos de
localização estão profundamente dependentes de uma boa gestão da terminologia. Para a
autora, de modo a maximizar o retorno no investimento, a gestão sistemática da terminologia deve ser baseada numa análise sistemática dos conceitos, podendo resultar desta, eventualmente, ontologias formalizadas. Adverte, no entanto, para a dificuldade em
satisfazer os pré‐requisitos que garantam o sucesso quer da construção das terminologias
quer de sistemas baseados em ontologias, uma vez que é necessário interligar processos,
ferramentas e pessoas num ambiente altamente complexo de apoio à construção daqueles
artefactos.
A localização não é, assim, apenas uma questão de língua. É um processo que envolve um conjunto de actividades e actores com a preocupação de possibilitar a comunicação entre diferentes línguas a partir da correcta gestão e transferência de informação e conhecimento efectuadas com base na análise sistemática dos conceitos de
um domínio de especialidade, nomeadamente enquanto processo integrante da gestão do
conhecimento baseado em ontologias.
Enquanto processo integrado na construção de uma ontologia, a localização surge ligada a dois elementos essenciais a esta construção: a terminologia e a conceptualização. No que respeita à conceptualização, algumas ontologias, quando localizadas, podem ser alvo de um processo de reconceptualização e necessitar de adaptar a sua estrutura conceptual de modo a melhor enquadrar os conceitos51 de uma comunidade linguística e cultural específica. No que concerne à terminologia, esta desempenha um papel decisivo no
processo de localização, uma vez que está relacionada com as designações atribuídas aos diferentes elementos da ontologia e é o veículo que permite que os termos da ontologia
possam ser mais correctamente expressos em mais do que uma língua.
A terminologia e a conceptualização estão interligadas, uma vez que qualquer modificação52 produzida na representação conceptual poderá ter um reflexo sobre a terminologia em uso e conduzir a alterações, alterações essas que, na nossa perspectiva,
podem ser motivadas pelo desenvolvimento do processo de localização.
É nosso entender que, no contexto de trabalho bilingue e multilingue em que se
insere a localização de ontologias, e tendo em conta a disponibilidade e o volume sempre
crescente quer de corpora quer de outros recursos linguísticos e conceptuais, muitos dos
quais multilingues, a terminologia pode desempenhar um papel importante ao assistir, com
base nas metodologias e nos recursos que disponibiliza, os terminólogos, tradutores e especialistas nas tarefas de acesso ao conhecimento, na descrição conceptual, na criação do sistema de conceitos, na formulação de definições e, finalmente, no estabelecimento de equivalentes entre os termos entre as diferentes línguas.
Importa, assim, associar o trabalho terminológico ao de localização, devendo, na nossa perspectiva, o trabalho terminológico ter como ponto de partida uma perspectiva conceptual, de base onomasiológica, que parta dos conceitos e que permita que a localização não se concentre, apenas, na tradução dos nomes, mas antes na procura das
denominações que, em cada língua, melhor descrevem um conceito especializado.
2.3. Localização de ontologias
A engenharia de ontologias vê a localização de ontologias como um subtipo da localização de software, na qual o produto é uma especificação de uma conceptualização partilhada de um domínio particular, i.e., uma ontologia, produto que será utilizado por uma
52 Para Montiel‐Ponsoda (2011: 198), esta modificação da representação conceptual acontece sobretudo “in
culturally‐influenced domains, whereas internationalized domains only require modifications in the terminological layer with no impact on the conceptualization, since the latter is valid and shared among the cultures involved”.