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A origem do pensamento sistêmico é considerada anterior à filosofia socrática; o marco moderno da origem do pensamento sistêmico, contudo, é atribuído a Von Bertalanffy. Nas décadas de 1920 e 1930, ele tentou recompor a unidade da ciência através de sua teoria da criação de modelos holísticos, isomórficos, capazes

de abrigar fenômenos similares das mais distintas áreas. Ele sistematizou as novas idéias científicas que vinham permeando a ciência desde a virada do século XX, as quais postulavam uma abordagem de “todos integrados” (ARAÚJO, 1995).

Antes da Teoria dos Sistemas, a doutrina corrente era a Mecanicista. Sua denominação vem da palavra máquina, e nela a compreensão de algo era feita através da análise de suas partes (ênfase nas partes). Essa característica tem sido chamada de pensamento analítico. De acordo com o pensamento analítico, quando se tem um fenômeno ou problema complexo, deve-se reduzi-lo a um conjunto de partes simples e facilmente compreensíveis, estuda-se os mecanismos através dos quais essas partes interagem e volta-se a juntar as peças. Essa era, segundo seus utilizadores, a forma de se compreender o todo. A TABELA 05 apresenta as principais características do método analítico.

TABELA05 - Principais características do método analítico

MÉTODO ANALÍTICO

Reação ao dogmatismo e obscurantismo medieval Ênfase na parte

A serviço da decomposição Fatos específicos, particulares Tendência reducionista Via quantitativa

Caráter mecanicista Fundamentos principais: razão e emoção Necessidade e leis Determinista

Exatidão, regularidade Codificação matemática Reprodutividade Visa ao controle

Previsibilidade Geral Inclinação indutiva Progressividade, acumulação

Relação causal Ponto de vista da causalidade Realidade objetiva Experimental

Exclusão do sujeito (dualidade) Função explicativa Alguns mentores: Galileu, Bacon Descartes, Newton, Freud

Fonte: CREMA (1991)

Para contrapor essa forma de encarar os problemas, surgiu o pensamento sistêmico. Essa nova forma tem como principais características uma abordagem sistêmica de resolução de problemas, a utilização do método sintético, o expansionismo etc. (ver TABELA 06). Ele emergiu durante a primeira metade do século XX, especialmente ao longo dos anos 20, em várias disciplinas. A Biologia foi pioneira, mas foi logo seguida pela psicologia, ecologia, física etc.

Na psicologia, o pensamento sistêmico foi enriquecido pelos estudiosos e pela escola da Gestalt. O que esses psicólogos descobriram é que os organismos vivos não percebem as coisas em termos de elementos isolados, mas em termos de padrões

perceptivos integrados. A famosa frase “O todo é maior do que a soma das partes” foi autoria dos psicólogos da Gestalt (CAPRA, 2001).

TABELA 06 - Principais características do método sintético

MÉTODO SINTÉTICO

Reação ao racionalismo positivista e analismo moderno

Ênfase na totalidade A serviço da unificação Realidade plena, total Tendência ampliativa, globalista Via qualitativa

Caráter organicista Fundamentos principais: emoção e intuição Liberdade e responsabilidade Indeterminista

Incerteza, flexibilidade Codificação poético-metafórica Unicidade Visa a participação

Imprevisibilidade Singular Inclinação dedutiva Instantaneidade, descontinuidade

Relação sem causa, sincronismo Ponto de vista da finalidade Consciência, valores Experiencial

Inclusão do sujeito (não-dualidade) Função compreensiva Alguns mentores: Smuts, Jung Frankl, Soler, Dilthey, Krishnamurti

Fonte: CREMA (1991)

O autor que mais recentemente tratou com minúcia do tema pensamento sistêmico foi Peter Senge (1990). Ele foca inicialmente o indivíduo, seu processo de autoconhecimento; em seguida, o foco desloca-se para o grupo e, finalmente, por meio do raciocínio sistêmico, para a organização. Em seus textos sobre organizações de aprendizagem, ele comenta que o ser humano vem ao mundo motivado a aprender, explorar e experimentar, e que as organizações devem desenvolver cinco “disciplinas” fundamentais para manterem constante o processo de inovação e aprendizagem:

- domínio pessoal: por meio do autoconhecimento, as pessoas aprendem a clarificar e aprofundar seus próprios objetivos, a concentrar esforços e a ver a realidade de forma objetiva;

- modelos mentais: são idéias profundamente enraizadas, generalizações e mesmo imagens que influenciam o modo como as pessoas vêem o mundo e suas atitudes;

- visões partilhadas: quando um objetivo é percebido como concreto e legítimo, as pessoas dedicam-se e aprendem não como uma obrigação, mas por vontade própria, construindo visões partilhadas;

- aprendizagem em grupo: em grupos onde as habilidades coletivas são maiores que as habilidades individuais, desenvolve-se a capacidade para

ação coordenada. A aprendizagem em grupo começa com a capacidade dos membros do grupo em propor idéias e participar da elaboração de uma lógica comum;

- pensamento sistêmico: constitui um modelo conceitual, composto de conhecimentos e instrumentos, desenvolvidos ao longo dos últimos 50 anos, que visam melhorar o processo de aprendizagem como um todo, e apontar futuras direções para aperfeiçoamento.

O pensamento sistêmico constitui a quinta disciplina, integrando as demais num conjunto coerente de teoria e prática, o que evita que cada uma seja vista de forma isolada. Esta capacidade tem que ser desenvolvida não apenas pelo líder, mas também por todas as pessoas que participam da organização.

O pensamento sistêmico torna-se mais importante à medida que o mundo se torna mais complexo e interdependente, pois a capacidade de analisar os sistemas e seus efeitos causais torna-se um fator crítico para o aprendizado.

Assim, SENGE (1990) afirma que a quinta disciplina é a principal da

organização de aprendizagem. Isso decorre da dificuldade das pessoas em abandonar a característica de encarar novas mudanças como um evento isolado, ao invés de reagir a elas como parte de um processo. Como elas falham em notar as inter- relações dessas ações, tendem a se enganar.

O sucesso da abordagem sistêmica pode ser atribuído, segundo RAPOPORT

(1976), à insatisfação crescente da comunidade científica com a visão mecanicista e à necessidade de se contrabalançar a fragmentação da ciência, cujas especialidades se tornaram quase isoladas umas das outras.