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3. Historisk tilbakeblikk

3.1 Tidligere undersøkelser av flommarksvegetasjon i Trøndelag

Todo o processo histórico de formação da “ciência” odontológica foi alicerçado em técnicas voltadas para o tratamento de sintomas, práticas de extrair e restaurar dentes e até de inserir dentes artificiais, compreendendo os elementos dentários como estruturas individualizadas, apendiculadas ao corpo (Botazzo, 2000).

A história da odontologia não seria o estudo dos eventos que marcaram no tempo a trajetória de uma clínica das doenças da boca e dos dentes desde Hipócrates, e radicalmente alterada pela anatomia patológica e pela microscopia no século XIX, mas o percurso seguido por auxiliares e técnicos (mecânicos) que tomaram para si esse objeto no curto período que vai 1879 a 1900, uma experiência francesa, sem dúvida, mas abrigada como modelo hegemônico em quase todos os países do ocidente (Botazzo, 2000, p. 114).

Essa afirmação enche de sentido o fato de a formação em odontologia, até hoje, aparecer intimamente e veemente ligada às técnicas dentárias, mantendo o centramento dentário no âmago dos currículos. Enxergar o elemento dentário em substituição ao indivíduo vem de um processo longo que se inicia logo nos primeiros semestres dos cursos de graduação e, quase na totalidade dos casos, estará completado um pouco antes do final do curso. Botazzo et al. (2015) denominam esse processo de ‘dentarização’ ou ‘odontologização’ do estudante.

Apesar de ser uma profissão da saúde, concebida por muitos até como uma especialidade médica, a odontologia transita com dificuldade em meio às outras clínicas e não consegue se pronunciar sobre problemas sociais que julga não serem seus (Kovaleski et al., 2006).

A odontologia criou sistemas próprios (biologia oral, terapêutica oral, patologia oral, medicina oral, etc.) que, dificilmente, relaciona a parte dentária com o todo (Botazzo, 2013).

Mergulhada em tais contradições, e de afirmar que dentes não se acham em relação de dependência com a fisiologia do indivíduo (grifos do autor), e vice-versa, mesmo no campo biotecnológico a ciência demorou um século para ligar periodonto com gravidez, apesar das provas em contrário, para ficar no exemplo mais cadente das últimas décadas. Teremos dado um importante passo na superação desse hiato quando nos pusermos na mesma cena discutindo com as demais práticas de saúde o que nos unifica, quando resolvermos o que é generalidade e o que é particularidade

regional (Botazzo, 2013, p. 26, grifo do autor).

Além disso, há uma dupla desvinculação da prática dos dentistas em relação às demais práticas de saúde. Existe um recorte que retira o paciente do seu contexto social e um outro que deve ser analisado no próprio âmbito das práticas de saúde (Botazzo, 2013).

A odontologia, ao fazer da boca uma abstração, a desvincula do ser social que passa a ser tomado enquanto expressão do seu objeto e “compreendido” apenas a partir dele. O ser em sua concretude, como realidade social, com seus nexos sociais, é ignorado pela clínica odontológica. Nisto reside sua particularidade. Tendo aprendido “definitiva e verdadeiramente seu objeto”11, para fazê-lo a odontologia organizou-se

independentemente das práticas médicas que então se constituíam. Desde o século XIX a odontologia é exercida com forte dose de autonomia, o dentista sozinho processando a cura (ao menos em tese), a ciência odontológica se bastando a si própria. Para estabelecer essa desvinculação precisou antes fazer outro recorte, outra desvinculação, consequência de sua organização independente: ao autonomizar sua prática autonomizou igualmente seu objeto em relação ao corpo biológico (Botazzo, 2013, p. 60).

No âmbito médico essa desvinculação foi fortemente aceita. O saber médico não penetra nas condições bucais que se mantêm como “coisa de dentista”. A linguagem odontológica é restrita ao meio odontológico, não entendível pelos demais profissionais de saúde e pacientes. “O universo vocabular que identifica alterações anatomofuncionais da cavidade bucal e anexos, bem como o que denomina procedimentos odontológicos, é indecifrável para os não iniciados”. É

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Gonçalves, R. B. M. Seis teses sobre a ação programática em saúde. In: Schraiber, L. B. Programação em saúde. São Paulo: Hucitec, 1990.

imprescindível que a odontologia se permita abrir para outros saberes e incorporar outras práticas e, concomitantemente, também ser incorporada à outras práticas. (Botazzo, 2013, p. 62).

As unidades dentárias compõem, em solidariedade à outras estruturas como mucosas, glândulas, músculos, nervos, etc., um “território” (Botazzo, 2006). Esse território realiza um conjunto de trabalhos que podem ser distribuídos em três vertentes: manducação, erótica e linguagem. O potencial para realizar essas três funções ou trabalhos, ou seja, “ter a capacidade para ser boca” é, ao mesmo tempo, realização biológica, social e psíquica. Esses dizeres conceituam a bucalidade (Botazzo, 2000; 2006; 2008a; 2008b). Os trabalhos bucais expressam três dimensões da vida do homem em sociedade e, por isso, podem ser entendidos como a “produção social da boca humana”.

O conceito de bucalidade traz para a cena a não restrição da saúde (bucal) à forma clínica e a insuficiência da teoria odontológica para recuperar o homem por inteiro, frisando a influencia dos determinantes sociais no adoecimento bucal (Botazzo, 2000).

Para exemplificar, cita-se a cárie dentária, a doença bucal mais estudada e discutida, que é caracterizada por marcadores e determinantes sociais, se conformando como a doença que prevalece entre os “pobres”, marginalizados sociais, com sorrisos constituídos por manchas escurecidas nas superfícies proximais, gengivas intumescidas e resíduos dentários (Botazzo, 2013), ou seja, a sua existência não é “mutans-dependente” e sim, “social-dependente” (Freitas, 2001). A saúde bucal deve, então, ser discutida a partir da sociedade, baseada nas necessidades coletivas e nos condicionantes sociais (Kovaleski et al., 2006).

A boca, parte de um todo biológico, sofre desgaste pelos modos de viver e trabalhar e não é a-histórica ou indeterminada. O uso do corpo biológico – com boca, obviamente – difere de acordo com as classes sociais e a inserção dessas classes no processo produtivo. O padrão de desgaste físico-biológico encontra-se diretamente vinculado ao uso social do corpo, ou seja, esse padrão é socialmente determinado pelos modos de produção. “Definitivamente, bocas proletárias não se assemelham a bocas burguesas, por mais estruturas anatômicas que tenham em comum” (Botazzo, 2013, p. 87).

É assim que essa bucalidade se desloca do solo odontológico e da carga da disciplina dentária que lhe é próprio, porque a odontologia, historicamente articulada como um constructo biológico, só pode falar dos dentes (e da boca) dos homens como natureza e assim igualmente naturalizar (odontologizar) o adoecimento deles e os procedimentos que adota. Esta é a sua política, ou a representação política do homem que incessantemente elabora, e pela mesma razão nos parecem canhestros seus discursos sociológicos (ou os econômicos, os psicológicos, etc.), assim como as arbitrariedades e artificialismos que emprega para garantir a separação do seu objeto a um só tempo do corpo do homem e da sociedade (Botazzo, 2006, p. 13).

Ressalta-se, nessa ótica de pensamento, pressupostos teóricos da saúde bucal coletiva, não aquela “apreendida apenas como dispositivo instrumental e técnico, ou o suporte para as tecnologias de cuidado da antiga odontologia preventiva e social”, mas sim aquela que se prolonga por limites não alcançados pela odontologia visto que a saúde bucal coletiva representa a visão do objeto odontológico (cavidade bucal) de outro ângulo, com um outro olhar, em uma vertente não odontológica (Botazzo, 2013, p. 19).

Odontologia e saúde bucal coletiva se ocupam de problemas diferentes e, igualmente, para solucioná-los se valem de teorias diferenciadas. A visão odontológica encontra-se cingida, seja na pesquisa ou na prestação de serviços, pela biologia e tecnologia aplicadas aos elementos dentários e aos tecidos moles bucais em procedimentos de remoção, substituição e inserção, compreendendo que a manifestação da doença é individual e exige atuação clínica (assistência) da equipe de saúde bucal em um corpo biológico. A atenção em saúde bucal, por outro lado, engloba as ações assistenciais em um conjunto macro que se preocupa com o processo de determinação social das doenças, o que exige atuação extra clínica e extra setor de saúde ou de saúde bucal. A determinação social do processo saúde-doença se constitui em um conceito que permite explicar a gênese das doenças, sua distribuição e localização nos grupos populacionais. “As práticas de saúde derivadas desta concepção denominam-se Saúde (Bucal) Coletiva” (Botazzo, 2013, p. 50).

Em outras palavras, entende-se que o objeto da atuação do trabalho odontológico é a boca, para o qual são dispensadas tecnologias que visam reestabelecer o equilíbrio funcional do indivíduo, enquanto a saúde bucal coletiva se volta para o social como lócus de produção de doenças bucais e utiliza tecnologias que buscam não a “cura”, como a odontologia, e sim a diminuição e controle das morbidades em sua dimensão coletiva (Botazzo, 2013; Narvai, 2006).

A formação em saúde bucal deve pautar-se nos princípios da bucalidade e da saúde bucal coletiva, entendendo a gênese social do adoecimento bucal, bem como sua relação com os modos de vida, compreendendo-os como a maneira pela qual os sujeitos se posicionam diante do mundo, na sua produção da vida, estruturado – e, ao mesmo tempo, estruturante – por um conjunto de regras, valores, hábitos e costumes historicamente definidos (Kovaleski et al., 2006). O processo formador precisa garantir a aproximação e a compreensão por parte dos educandos da complexidade da boca humana social, real, não elaborada pelas necessidades dos componentes curriculares na forma de lesões e sintomatologias dentárias, presentes em pacientes selecionados, no interior das clínicas das faculdades. A realidade deve ser vivida e discutida como tal, sem máscaras ou disfarces e os efeitos são visíveis como mostra a fala de uma aluna participante do PET-Saúde da Universidade de São Paulo (USP) Capital:

[...] Isso me mostrou que vai muito além do dente, da boca da pessoa. Eu não tenho que chegar e olhar pra boca como ‘eu sou dentista, eu só vou olhar pra isso’. Não, eu tenho que olhar pra pessoa, o que ela é, de onde ela vem, o que ela come, onde ela mora, pra depois pensar em abrir a boca dela pra ver o que tá de errado na boca dela, mas eu tenho que ver o que tá influenciando ela tá daquele jeito (Fonsêca; Junqueira, 2014).

Os cursos de odontologia carecem de um discurso que englobe a saúde bucal e não esteja restrito ao campo odontológico – como vem predominando. Ao adotar a bucalidade e a saúde bucal coletiva como pilares, com um processo de mudança estabelecido nas bases dos cursos, poder-se-ia atingir a inversão da formação reconhecendo a odontotécnica ou a técnica bucal como arranjos tecnológicos de atuação secundários e não como principal ponto a ser ensinado.

2.3 Clínica ampliada em saúde bucal: para além da boca e do discurso