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1. Innledning

1.2. Tidligere studier av inkubasjon

O Centro Espírita Oxum Opará está situado na Rua Carnaúba, nº 68 no Bairro Potengi, Zona Norte da cidade. Em agosto de 2006, resolvi investir numa segunda visita ao Centro de Mãe Leó. Ao adentrar na rua onde se encontra o terreiro, percebi que não recordava qual era a localização exata da casa. Continuei descendo a rua, tendo como

única referência um pequeno parapeito do lado esquerdo, entre a área e o beco. Enquanto descia a rua, olhava para dentro das casas, observando se poderia reconhecê- la. Várias outras casas possuíam o parapeito, deixando-me confuso. Nesse momento, uma mulher passou por mim. Perguntei se naquela rua havia um Centro Espírita28: o Centro de Dona Leó, fica mais lá embaixo. Esta senhora me respondeu apontando na direção da casa, não dizendo qual era especificamente. Fui correndo o meu olhar pelas calçadas, quando me deparei com uma quartinha na entrada de uma residência. Conforme havia observado em outros terreiros, qualquer trabalho onde foi utilizado um exu ou o Exu, necessariamente é preciso despachar na rua, junto com o Padê, o conteúdo de água no alarê que fica sempre ao lado do assentamento. Toda água utilizada nos ritos para os exus deve ser tirada desse recipiente. A quartinha na entrada dessa casa denotava tal observação. Mais tarde, Mãe Leó, a responsável pelo Centro Espírita Oxum Opará, explicou-me com mais clareza essa prática.

Dirigi-me a entrada da casa. Nesse instante, uma mulher saia do beco. Pedi sua atenção e perguntei se a casa é de Dona Leó. Ela respondeu positivamente e foi chamá- la. Quando ela apareceu, informei-lhe sobre o meu intuito na sua casa, naquele momento. Convidou-me a sentar e, meio desconfiada, consentiu responder o questionário. Num tom direto, completou indicando falar apenas o que pudesse, porque têm as coisas de fundamento dos espíritos que eu não posso revelar (Mãe Leó).

A conversa com Dona Leó fluiu, levando-a lançar um questionamento: queria saber se essas informações você vai colocar em propaganda, jornal ou revista? Porque eu não quero, a minha religião é muito sigilosa e eu gosto assim. Voltei a explicar o intuito do questionário; os dados coletados ajudariam na construção de um parâmetro geral da organização das casas de culto em Natal. Essa questão lançada pela mãe-de- santo serviu como um alerta para, mais tarde, entender a resistência imputada nas muitas vezes que marcamos de conversar e adentrar no tema da minha pesquisa, os exus.

Depois dessa segunda visita, passei a freqüentar este Centro semanalmente, com o intuito de observar a dinâmica dos rituais públicos da casa, desde a festa de caboclo

28 Inicialmente, nas minhas buscas, para saber a localização exata das casas procuradas, perguntava as

pessoas do entorno sobre a existência de um Terreiro de Umbanda, mas ninguém sabia informar. Mudei de estratégia, indagando sobre a localização de um possível Centro Espírita nas imediações. Assim obtive mais sucesso, pois os moradores passaram a não se furtar em fornecer esta informação. Embora o termo Terreiro de Umbanda seja muito comum entre os religiosos, me parece que nos arredores dessas casas as pessoas os denominam com mais freqüência de Centro Espírita.

no mês de Janeiro à entrega do segundo barco para Iemanjá29 em dezembro. Quando me senti preparado, inteirado com o movimento da casa e com as pessoas, resolvi pedir a Dona Leó para conversarmos num outro horário. Marcamos algumas vezes e, quando chegava ao Centro, ela estava muito ocupada com seus afazeres cotidianos, seja zelando pela ordem do terreiro ou realizando uma consulta particular; muitas vezes estava no meio de rituais privados. Embora estivesse ocupada, a mãe-de-santo sempre despendia algum tempo para nos falarmos, mesmo informalmente. Sentia-me aceito, porque Mãe Leó se preocupava em justificar a sua ausência às nossas conversas. Posteriormente, contou sobre um problema tido com um sujeito que começou a freqüentar sua casa, na intenção de escrever uma matéria jornalística. Segundo ela, estes escritos distorciam o seu fazer religioso.

Mediante esse episódio, a mãe-de-santo construiu certa reserva em relação aos estranhos que procuram sua casa, com a intenção de fazer algo parecido, como pesquisar sobre a sua religião. Por isso, preferiu esperar mais um tempo para conversarmos. Diante disso, senti o compromisso de informar mais claramente possível sobre a pesquisa e as interrogações surgidas em torno de minha presença em sua casa. Essa experiência serviu de referência para o meu envolvimento nas outras casas. Não quis me furtar de esclarecer qualquer dúvida. Afinal de contas, se procurava uma relação mais intima, não deveria deixar de retribuir a hospitalidade. Devo confessar que tive receio de pedir ajuda para desenvolver a pesquisa sobre os exus, mas a mãe-de- santo se prontificou a colaborar. Numa das várias conversas com Mãe Leó, senti o acesso dado, quando lhe falei sobre a abordagem da pesquisa e como esta consiste em perceber, na sua ótica, qual o significado atribuído por ela a sua prática religiosa. Nesse momento, ela completou: pois bem, você precisa participar dos rituais, de uma

curiação para exu, calado, só prestando atenção na energia que é (Mãe Leó).

Mãe Leó – Maria Leopoldina Cavalcante Oliveira – tem 59 anos de idade e desde os 18 entrou na vida do santo. Seus pais legítimos eram católicos e, só depois, passaram a freqüentar o Espiritismo30. Quando isso aconteceu, Mãe Leó já havia se tornado espírita. Ela enfatiza uma antiga ligação com essa religião, por intermédio de

29 No Centro Espírita Oxum Opará, essa cerimônia de entrega do barco para Iemanjá acontece duas vezes

ao ano, nos meses de maio e dezembro.

30 O Espiritismo do qual Mãe Leó se refere é a categoria nativa, termo usado entre os praticantes de

religiões afro-brasileiras (ao menos em Natal) para abarcar expressões religiosas como a Umbanda e a Jurema enquanto práticas que tratam diretamente com entidades espirituais. Nessa designação, abarcam- se os Candomblés, podendo se referir também ao Kardecismo.

sua avó que possuía uma mesa de cura. Desde os seus 13 anos, sentia-se muito mal e via vultos. Sua avó, envolvida com o Espiritismo, interpretou nos seus sintomas as características denunciantes de uma origem espiritual de seus problemas. Diante dessa constatação, passou a aplicar-lhe uma espécie de tratamento. Observe abaixo no relato de Mãe Leó o seu percurso, desde o tratamento prestado pela sua avó até a sua inserção anos mais tarde nessa religião:

E quando ela (a avó) percebeu que eu estava passando mal, querendo ficar tonta e tudo. A essa altura eu já tinha procurado médico, já tinha me levado ao médico, não era nada, não tinha problema mental, na estrutura não aparentava doença mental, loucura, nada. Então, ela me levava para baixo de um pé de cajazeira que tinha no interior. Quando nós estávamos de férias, íamos para lá. Meu pai, quando estava de férias, a gente viajava, eu ficava lá e ela me levava para esse pé de cajazeira, que era perto de um curral. E eu sentia que parecia que eu entrava num sono, como que eu me saísse de mim. E depois eu voltava a mim, parece que aquele sono passava. Então, era quando ela me explicava o que tinha acontecido e daí fui indo, não é? Fui progredindo. Mas, só me firmei dentro do Espiritismo com 18 anos de idade. Eu tive um problema de saúde muito sério e foi tratado com os médicos. E, um dia, eu me ajoelhei na calçada do hospital, e pedi: que houvesse um meio de ficar boa, eu não importava qual era o meio, eu queria ficar boa. Porque eu sequei, emagreci, fiquei tão seca, seca, esquelética. Eu não andava daqui para uma distância qualquer, era preciso uma pessoa me segurar. E minha mãe, porque meu pai não admitia isso, me levou na casa de um senhor, que não sei mais que senhor é, eu não o vi mais. E lá ele me fez, como a gente chama, uma cura, rezou, tratou e disse para minha mãe que aquilo não era doença, era problema espiritual e que eu ia ter que seguir a linha espírita, caso eu quisesse ficar boa. Então eu entrei no Espiritismo, vamos dizer pela dor! E já tentei sair e me dei muito mal. Porque promessa é promessa, eu prometi e fiquei boa. E hoje vivo no Espiritismo por amor. Tudo na minha vida é o meu Centro (ela me olha com uma expressão bem enérgica e reafirma), tudo! Tudo! Tudo! (volta ao tom macio de falar) E muitas vezes eu digo: na minha casa só tenho espaço para botar a minha cama para dormir (Mãe Leó).

A partir dessa descoberta, Mãe Leó procurou desenvolver a sua mediunidade entrando em contato com vários terreiros. O seu desenvolvimento espiritual não ocorreu com o senhor que a curou, devido ao pouco espaço disponível em sua casa, pois ele tinha apenas uma mesa no interior de um pequeno quarto onde atendia as pessoas. Por este motivo e talvez não pretendendo formar família de santo, ele a encaminhou para outro pai-de-santo. Assim, Mãe Leó entrou em contato com conhecidos pais-de-santo da

cidade, como o Sr. José Clementino31 e depois Pai Rivaldo32, através destes religiosos e da sua vivência no meio umbandista, aprendeu os segredos da Ciência da Jurema.

A principal entidade de sua casa é a Mestra Dona Chica, como a mãe-de-santo mesmo diz, ela é a pedra fundamental no comando da casa, essa mestra impõe as regras e os modos de conduta que devem ser seguidos para a orientação do Centro. Nas

correntes de Mãe Leó, o Mestre Zé do Tombo também presta serviço dentro da Jurema

ao lado de Dona Chica. Em Recife/PE, pelas mãos de Pai Biu33 fez o ori com a Oxum, na Nação Nagô. Sobre sua experiência nas casas e o seu aprendizado, Mãe Leó dá seu depoimento, expressando a importância do envolvimento intenso dentro da casa do pai- de-santo para obtenção dos seus conhecimentos:

Eu ralei no Espiritismo. Eu tive que aprender, porque o filho-de-santo que não entra na casa do pai para limpar o chão, para pelar galinha, para passar a noite acordado com o pai-de-santo, ele não aprende! É questão de prática. Não adianta você ser formado em enfermeiro se você nunca viu uma injeção. Não é verdade? Então, se você não for participar você jamais aprende. Então eu tive que estar perto, vendo, olhando. Não era que ele me obrigasse a isso, não, ele não me obrigava. Eu estava lá, eu ia para lá ajudar, limpar, para um serviço, uma obrigação. Eu fazia tudo na minha casa, dava de conta de tudo. Portanto eu estava ali, não era por curiosidade, porque eu não fui para a casa dele com curiosidade de captar, eu fui para aprender para mim. Eu sentia que amanhã ou depois eu iria necessitar. Sempre eu vi isso. E aquilo que eu deixei de aprender, eu sofri para aprender mais lá na frente, entendeu? (Mãe Leó).

Nesse relato, Dona Leó evidencia o quão é imprescindível à imersão do filho-de- santo nos afazeres cotidianos do terreiro para o seu desenvolvimento. Essa forma de obtenção do conhecimento legitima os mais antigos, pelo tempo de experiência e o conhecimento adquirido no decorrer da vida, construindo uma espécie de suporte para sustentar a relação hierárquica da família de santo. O pai ou a mãe-de-santo é responsável pelo encaminhamento espiritual dos filhos-de-santo. Eles estão ligados, pois o filho, exatamente por não ter muito conhecimento, fica necessitado da proteção

31 O Sr. José Clementino, por um longo período, foi presidente da FEURN atualmente FEUC – RN, por

um período de 20 anos, deixando o cargo em 2006. Mãe Leó afirma ter passado um tempo significativo participando das atividades da sua casa: a Cabana Umbandista Pai Joaquim de Angola, no bairro das Rocas, Zona Leste da cidade.

32 Pai-de-santo já falecido a cerca de 15 anos, tinha casa aberta no bairro da Cidade da Esperança, na zona

Oeste de Natal.

33 Pai-de-santo, segundo Mãe Leó, falecido a mais de 20 anos. Tinha terreiro aberto no bairro de Casa

de sua mãe e, esta última precisa proteger o seu filho para que ela não venha a sofrer também, com demandas e carregos contraídos por eles. A relação de interdependência é estabelecida mediante a organização da família, o filho que deseja crescer espiritualmente, deve obedecer às regras estipuladas na casa e observar o trabalho cotidiano, como Mãe Leó indicou.

A mãe-de-santo iniciou-se no Nagô em Recife e finalizou as suas obrigações como yiá, sob a condução do Pai-de-santo Marcone, de Nação Ketu, responsável pelo Ilê Asé Yaomimlaiô Ogum, localizado no Loteamento José Sarney, também na Zona Norte da cidade34. Por outro lado, a mãe-de-santo justifica essa tardia filiação como forma de reafirmar a sua origem Nagô.

Ele é meu parente de santo, ele ainda vem puxando a minha folha antiga (...) Ele é de Pernambuco, ele é Keto, mas ele vem trazendo as folhas dos antigos, antigos pais-de-santo de lá (Mãe Leó).

Considerando que os antigos pais-de-santo de Recife tenham sido de Nação Nagô, apesar das diferenças e dos conflitos de entendimento entre as variadas nações de Candomblé, não só devido aos procedimentos práticos, mas pelo repertório de suas concepções míticas e os fundamentos de suas práticas. Lançando um olhar sobre o passado, ao recorrermos à origem dessas referências (Ketu e Nagô), ambas remeteriam, em África, a um mesmo grupo cultural, sendo os Ketu um subgrupo Nagô35 (CAPONE, 2004; KAZADI, 2006; SANTOS, 1976; BASTIDE, 1980). Os Candomblés autodenominados como de uma ou outra nação dessas, apresentam no Brasil suas diferenças. O Nagô do qual me refiro relaciona-se à forma de culto aos orixás advindos do Recife (PE), conhecidos como Xangô pernambucano. O Ketu, como ficou conhecido através dos estudos acadêmicos, referencia a perspectiva das casas mencionadas anteriormente neste trabalho, consideradas como irradiadores da tradição Ketu do Candomblé baiano (SANTOS, 1976). Em Natal, essas nações, não se misturam, pois são advindas de tradições diferentes e se estabeleceram de maneira peculiar em

34 Esse pai-de-santo tem o seu barracão assistido pelo projeto Religiosidade na Cidade e, por esta razão, já

o conhecia de outra oportunidade. Sua casa é declaradamente de Nação Ketu, assim como também cultua a Jurema, numa sala separada do espaço dedicado aos orixás.

35 Diversos grupos provenientes do Sul e do Centro do Daomé (atual República do Benin) e do Sudoeste

da Nigéria, de uma vasta região que se convenciona chamar de Yoru baland, são conhecidos no Brasil sob o nome genérico de Nagô, portadores de uma tradição cuja riqueza deriva das culturas individuais dos diferentes reinos de onde eles se originaram. Os Ketu, Sabe, Oyo, Egbá, Egbado, Ijesa, Ijebu (...)

Pernambuco e na Bahia. Pai Marcone tem sua iniciação no Xangô e, posteriormente, conclui suas obrigações com um pai-de-santo baiano, de nação Keto. Mãe Leó finaliza suas obrigações numa casa Keto, mas reafirma o seu Nagô, pois o Babá tem os conhecimentos também dessa outra forma de cultuar os orixás, legitimado não só pela sua iniciação no Xangô, mas por ele ser natural do Recife, onde essa forma de culto remete aos ascendentes pernambucanos da mãe-de-santo.

O Centro Espírita Oxum Opará foi aberto por volta de 1991 mas antes disso, no mesmo local, a mãe-de-santo possuía uma cabana de palha onde ela realizava curas. Nesse período, seu trabalho se restringia ao atendimento de pessoas enfermas. A mãe- de-santo trabalhava em casa dando consultas particulares. Desde a sua abertura, a vizinhança formada em seu entorno aprendeu a conviver com a sua dinâmica. Segundo a mãe-de-santo, o terreiro não enfrenta problemas com os seus vizinhos.

Eu não vou dizer a você que sou vista com bons olhos, mas também ninguém me diz nada. Todos me respeitam, bom dia, boa tarde. Lá no canto deles, eu no meu. Respeito todos eles, eles me cumprimentam, eu cumprimento eles. Realmente quem participa de um terreiro, para outros tipos de religião, não são bem vistos. Mas todos me respeitam, não é? Bom dia! Boa tarde! Como vai? Eu entro, chego, ninguém nunca me veio aqui reclamar alguma coisa. Hoje, na nova constituinte, dá direito de raças, credo e cor, o que eu estou fazendo de errado? Eu cultuo minha hora, até as dez horas, dez e quinze, dez e meia. Se não acabou o trabalho, paro o atabaque, já para não perturbar (Mãe Leó).

Durante todo esse período acompanhando as atividades da casa, percebi alguns procedimentos de rotina: a sessão pública é realizada nas terças-feiras entre as 19:00 e 22:00 horas, dedicada ao culto da Jurema; canta para os orixás da casa em datas especiais36. O trato cotidiano é feito com a Jurema, pois os orixás são muito finos, não se deve mexer com eles todo dia (Mãe Leó). Por isso, no momento de se preparar para tocar para o santo, é preciso encerrar os trabalhos na linha da Jurema ao menos uma quinzena antes.

36 Isso acontece quando o mês é propício, por exemplo: Iemanjá é festejada especialmente em duas

épocas (maio e dezembro como mencionado anteriormente); em abril festa para Ogum; a festa de Xangô é no mês de junho; a de Oxum em julho; em agosto não se toca para orixá, pois as casas em Natal dedicam esse mês aos exus (entidades espirituais); no mês de dezembro Oyá (Iansã). Nem todo mês há toque para orixá. Este é o calendário para o toque dos orixás no Centro Espírita Oxum Opará, que pode corresponder com o de outras casas. Em janeiro é o período de tocar para Oxossi, mas como na maioria das casas, nesse período é dado um toque em homenagem aos caboclos.

Pois orixá não é para se tocar todo dia, só uma vez assim com um tempo longo e no dia certo, não se deve tocar num dia qualquer para o orixá. Cada orixá tem o seu dia na semana, por exemplo: não se pode tocar para Oxum numa segunda-feira, segunda-feira é dia de Exu, ai vai tocar para Oxum? Não, de jeito nenhum, um santo bonito de ouro! (Dona Leó).

Além dos toques para os orixás, são oferecidas festas para entidades espirituais, na linha de Umbanda traçada com a linha da Jurema. Nessas festividades, o terreiro entra em consonância com o calendário das mais diversas casas distribuídas pela cidade, uma espécie de calendário oficial estabelecido no imaginário religioso37. Além dessas festividades fixas, acontecem outras cerimônias eventuais, conforme as necessidades surgidas na casa, tais como: obrigações; festa para um mestre ou para outra entidade espiritual específica da casa.

Os terreiros não se expressam seguindo apenas o seu calendário público, uma vez que no cotidiano o povo do santo encontra fundamentação para as suas práticas. A mãe-de-santo acumula diversas atribuições a serem desenvolvidas. Organiza suas reuniões privadas para orientação dos seus filhos, presta atendimento para os necessitados de ajuda espiritual e recebe sua clientela particular38. Além disso, ainda arranja tempo para acompanhar idosos, trabalhando como auxiliar de enfermagem.

O quadro de médiuns não é extenso, em sua maioria são pessoas antigas da casa, cerca de 15 membros. Em dia de toque semanal, pessoas da vizinhança aparecem para prestigiar os trabalhos. Em dia festivo, o número de freqüentadores triplica. Mas no cotidiano, Mãe Leó só conta com este grupo fixo de filhos-de-santo. Dentre estes, alguns também praticam outra denominação religiosa, encontram-se católicos e kardecistas, mantendo segredo nesse outro grupo da sua filiação a casa de santo. Na família de santo de Mãe Leó, há participação ativa de sua família de sangue: o seu marido Paulo, sua filha Neide (mãe kekerê) e o neto João Paulo (ogan da casa). Paulo e João Paulo também tocam os Ilus e Neide acompanha no triângulo auxiliando, inclusive, nos rituais privados da casa.

Dois dos seus filhos-de-santo já abriram casa: Dona Jô (no município de Extremoz) e Nobre (no bairro Parque das Dunas, Zona Norte da cidade). São essas as

37 Esse calendário se desenvolve da seguinte forma: em janeiro festa para os caboclos; em maio para os

pretos velhos (há casas onde essas entidades são cultuadas também em dezembro); agosto é a festa para os exus e em setembro para as crianças. Isso não implica dizer que todas as casas seguem essa agenda.

principais casas integrantes à rede de relações construídas pelo Centro Espírita Oxum