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1. Innledning

1.2. Tidligere analyser og forskning om sammenhengen mellom bosettingskommune

A novena da “Peregrina” como carinhosamente se denomina a Novena da Virgem Peregrina entre os membros da coletividade chilena, nasceu em 1986, pela livre iniciativa de Dona Nadia de la Cruz que, como ela revela, assim como muitos dos chilenos da época, “não tínhamos documentos”. Conforme relatado pela organizadora, a novena realizava-se de casa em casa, por isso o nome de Peregrina. “A imagem ficava uma semana na casa da pessoa onde teria que ser rezado o terço e, se o dono da casa quisesse, chamava os vizinhos para rezar junto com ele” e, durante essa reza, “a pessoa apresentava as suas intenções à Virgem” a fim de obter a solução que tanto esperava.

Foto 32 - Novena virgem Peregrina, São Paulo, setembro de 2000.

Aquivo pessoal da Sra. Nadia

A imagem fotográfica nr. 32 evidencia o ambiente familiar e religioso que perpassado pela emoção, busca no ícone mariano a identificação da nação.

Celebrar ritos trazem lembranças e reconstroem identidades, mas não permite que o sentido de nacionalidade chilena morra nesse outro país, embora seja agora também do chileno. Realizar a reza, entoar canções propicia, ainda que por instantes, a aproximação da sua cultura pátria, sem por isso, prosseguir no continuo dessa vida já não mais distinta nem estrangeira.

Dada a situação dos imigrantes, a petição mais recorrente vinculava-se ao assunto “papéis”, como ela bem assinala:

naquela fase que nós não tínhamos documentação, inclusive eu estava num processo com os documentos, Guilhermo (seu filho menor na época) era pequeno e estávamos pedindo por causa dele que nos dessem os documentos definitivos, porque tínhamos provisórios. Bom a novena começou assim, a igreja, a imagem da “Virgen” com as nove casa, as nove famílias e as intenções que se apresentavam (Nadia, entrevista, 2014).

Através da narrativa, observa-se como algumas estratégias imigratórias, já descritas em páginas anteriores, objetivando resolver a ilegalidade que se vivia, influíam para as decisões de tudo, inclusive, aumentar a família, uma vez que, até hoje, a lei brasileira contabiliza, como um dos motivos relevantes para se pleitear a residência no país, o nascimento de filhos em solo brasileiro, ou seja, o jus solis124.

Organizacionalmente a novena desenvolvia-se durante as nove (9) semanas prévias à “Fiesta”, sendo que o primeiro terço era rezado na casa de Nadia e, depois, iniciava-se o período de peregrinação, mas, ao realizar o último terço, a imagem regressava à sua casa, para daí sair em procissão até a igreja. Essa imagem da “Peregrina” veio diretamente do Chile, sendo uma lembrança que o Padre Beto, responsável pela coletividade chilena naquela época, tinha recebido como lembrança, quando da sua estadia no vizinho país e, gentilmente, cedeu-a para Nadia, a fim de que ela fizesse a novena. Registra-se que, no presente momento, a Novena da “Peregrina” esta suspensa, sendo a imagem um objeto de oração e devoção particular da organizadora.

124 Jus Solis:

nesse sistema, “a nacionalidade originária é obtida em virtude do território onde o indivíduo tenha nascido”. Para o jus solis, a nacionalidade dos pais é irrelevante, assim, esse é um dos recursos mais utilizados para se resolver a imigração indocumentada. Disponível em

http://odireitosemfronteiras.com/2012/07/12/naturalizacao-e-nacionalidade-jus-solis-ou-jus- sanguinis/ Acesso em 12/02/2015

A procedência da imagem, ou seja, ser do Chile representa para os devotos a expressão da continuidade da devoção em solo natal, à aproximação ao Santuário de Maipú, a terra que lhe vira nascer. Assim, o valor significativo da imagem transcende a sua constituição, a imagem resuma legado e transmissão.

Foto 33 - Virgem Peregrina. São Paulo, setembro de 2000.

Arquivo pessoal da Sra. Nadia.

No transcurso dos anos, nasceu um fato novo, conhecido como “auxiliar”, ou seja, surgiu a preocupação pelas questões sociais dos imigrantes, de tal maneira que,

dentro das nove casas, sempre havia uma situação mais problemática, em termos de trabalho ou se o marido estava sem trabalho, então se reuniam cestas básicas, todos traziam, eu trazia feijão, eu trago macarrões, eu trago sabonete, sei lá e fazíamos uma cesta básica e a entregávamos a essa pessoa. Isso durante a Novena. Dentro do novenário (Nadia, entrevista, 2014).

Pela sua declaração, fica relevante a certeza de que, naqueles anos, a situação dos imigrantes era difícil, em parte pela situação econômica em que

se vivia no país, em parte pela falta de documentos que permitissem um trabalho melhor remunerado.

Como revelado linhas acima, a novena fechava seu ciclo na procissão cujo objetivo era, comparativamente, rememorar à marcha que se realiza em Maipú. Para que tal procissão se efetivasse, ao longo da Novena, “se reunia dinheiro para depois comprar as lembrancinhas” para oferecer às “pessoas que aguardavam a chegada da Padroeira na igreja”, uma vez que “a igreja dava uma lembrança para a Virgem da Igreja. Esse ato de presentear ocorreu concretamente após “do segundo ano”, a partir da solicitação direta dos participantes da novena, como forma de retribuição pela presença de cada um”. A outorga da lembrancinha de agradecimento e a troca do manto da Virgem são duas práticas totalmente incorporadas aos ritos celebrativos da festividade até hoje.

Foto 34 - Novena da Virgem Peregrina. Troca do Manto da Virgem Peregrina. São Paulo, setembro de 2000.

Arquivo pessoal da Sra. Nadia

É relevante registrar que a imagem fotográfica nr.... possibilita constatar que os ritos constitutivos da Novena de la Virgen Peregrina por exemplo a Troca de Manto anual, não oferecia limitantes em quanto a sexo ou idade do participante, haja vista que, nos atuais padrões, a troca efetuada na Igreja é, tradicionalmente concretizado por um casal preferentemente pertencente à Pastoral. E de destacar, também, que o cometido executado por um huaso vestido a caráter, símbolo da devoção e do respeito campesinos.

Por ser pertinente, registra-se que essa lembrança era outorgada a todos que, de alguma forma, enriquecessem a “Fiesta”, desta forma, distribuía- se também aos “conjuntos folclóricos”, prática que ainda hoje se preserva, porém, através da entrega de um diploma de participação.

Ainda sobre isso, sabe-se que, “para as nove casas” que tinham recebido a Virgem, dava-se uma “lembrancinha especial para que a imagem ficasse na casa” de quem tinha participado da rotatividade de oração. Para tanto, “comprávamos uma imagem pequenina ou se traziam do Chile”. Neste ponto, e fruto da rememoração, a depoente interrompeu o relato, fez uma pausa, suspirou e depois acrescentou:

você não imagina, mais ocorriam coisas incríveis, às vezes as pessoas me enviavam imagens do Chile, as pessoas... sei lá, falavam, “eu sei que você está fazendo uma Novena então vou mandar isto aqui para você” e ai chegava por pacote, desde o Chile, a imagem da virgem para ser presenteada (Nadia, Entrevista, 2014).

A novena da Peregrina, assim como a novena que se realiza na igreja, consta da parte sacra propriamente dita e a profana, o “tecito”. Essa atividade social transcorria depois das preces e acontecia na casa onde se recebia a Virgem, mediante o comparecimento de todos, que das preces tinham-se aproximado, fortalecendo assim, a união e a irmandade imigratória. A procissão da Peregrina tem a ver com a marcha que transcorria do Cambuci e a baixada do Glicério, concretamente, na sede da igreja. Numérica, e performaticamente, essa marcha foi adquirindo uma visibilidade expressiva na região, de tal maneira que, num determinado instante, necessitou-se de pedir a autorização na jurisdição regional para o seu desenvolvimento. A procissão da Padroeira, como já mencionado, saía do bairro Cambuci com destino ao Glicerio e, durante o percurso, todos podiam participar desse ritual: assim, as pessoas “carregavam a Virgem” e “as mulheres carregavam a ‘Virgem’, todo o mundo carregava e a procissão ia passando (...) duma mão a outra”. Ressalta-se que, de acordo com as memórias e as fotos coletadas, o ato de carregar a virgem desenvolvia-se independente de sexo ou idade, assim, a frente da comitiva estava precedida por crianças devidamente trajada para o evento e introduzidos na devoção mariana no afago do lar.

A fim de se propiciar a participação e visualização da devoção da comunidade, fizemos um andor, e houve um senhor que ofereceu o andor e foi todo mundo assim, “Ah eu quero fazer o andor”, “ah, eu quero trazer a bandeira do Chile e a do Brasil”, “ah, eu quero me vestir de huasa e nós nos vamos vestir com as roupas típicas para levar a bandeira brasileira e chilena”, “queremos vestir a roupa da Virgem do Carmo” e depois, “queremos fazer camisetas” (Nadia, Entrevista, 2014).

Foto 35 - Crianças na Procissão da Virgem Peregrina. São Paulo, setembro de 2000.

Arquivo pessoal da Sra. Nadia

Foto 36 - Mulheres carregam Andor na Procissão da Virgem Peregrina. São Paulo,

setembro de 2000.

Arquivo pessoal da Sra. Nadia

Foto 37 - Devotos vestindo Camiseta da Virgem do Carmo na Procissão da Virgem Peregrina. São Paulo,

Foto 38 - Crianças carregam o Andor na Procissão da Virgem Peregrina. São Paulo.

Arquivo pessoal da Sra. Nadia.

Foto 39 - Adolescentes com vestimentas típicas chilenas na Procissão da Virgem Peregrina. São Paulo, setembro de 2000.

Arquivo pessoal da Sra. Nadia.

A visualização das fotografias nrs 37, 38 e 39 propicia a reflexão sobre o significado da integralização geral nas ações constitutivas da caminhada composta por crianças, mulheres, mães que levam suas crianças revelando assim, a transmissão devocional de geração em geração. Participar da comitiva representava para a coletividade, a continuidade de uma devoção centenária, para os pais a oportunidade de assegurar a compreensão comunicativa e a continuidade cultural no ambiente familiar e, para as crianças, a inserção nas práticas culturais ancestrais e o respeito à diversidade cultural

Desta maneira, ainda que num área bastante restrita, a população de São Paulo teve a oportunidade de conhecer e se aproximar ao longo de uma

década, de algumas formas evidentes da devoção dos chilenos para com a sua Padroeira.