• No results found

São Paulo, 14 de Abril de 2008 Saudoso, Chico.

Gostaria que essa carta chegasse a suas mãos para que você me conhecesse melhor. Para isto vou falar um pouco da vida: venho de família pobre e humilde, como todo o povo brasileiro, infelizmente esse é o nosso Brasil, mas não vem ao caso. Nasci em Pernambuco em 1976, aos oito anos comecei a trabalhar, perdi meu pai aos quatro de idade, então minha mãe foi ―pai e mãe‖ ao mesmo tempo. Aos nove anos, queria que minha mãe me colocasse em um Instituto de Artes Marciais, mas ela não podia. Então comecei a carregar compras do povo que tinha mais condição na época. Consegui juntar um pouco e comprei meu primeiro uniforme, parcelado mas comprei. Resumindo, venci, depois desisti, por causa do trabalho. Perdi muito tempo, dei muita volta, me arrependo muito de não ter estudado. Por isso voltei a estudar, através de um amigo que me deu conselho e estou aqui no CIEJA, e não desistir nunca, irei até o fim.

Brasileiro não desisti nunca. Erom

Comentário:

Erom é um rapaz de meia idade, que nunca faltou às aulas de teatro dadas para os educandos do módulo III do CIEJA. Sempre teve uma postura participativa e reflexiva. Ele foi o único aluno que optou por memorizar a sua própria carta, entendendo-se essa atividade de memorizar como gravar em sua memória o texto sem pronunciá-lo até o instante dos jogos teatrais. Pedi a ele que começasse a dizer o texto pela primeira vez, sentindo todas as palavras, em várias situações diferentes, tentando experimentar este texto já tão conhecido. Depois de dois encontros, foi proposto o experimentar a mudança de foco (olhar dirigido às pessoas diversas), movimentando-se em diferentes níveis (alto, baixo, mediano), com diferentes tons de vozes (baixo, alto, moderado) e ritmos diferentes (rápido, lento, normal), em várias situações diferentes (ora em cima de uma areia quente, etc.), até passar à improvisação, propriamente dita.

Depois sentamos em roda e ouviam-se os tímidos comentários dos alunos presentes e também os meus. Neste lugar, comentávamos todas as sensações que a improvisação nos trazia e os momentos em que nos emocionava. E eu procurava sempre estimulá-los a pensar porque este momento os tocava e outros ainda não. Perguntava se haviam escutado o texto todo.

Erom não optou por memorizar um pequeno trecho, como foi sugerido por mim a todos. Disse-lhes que inclusive que poderiam memorizar apenas uma frase, um trecho ou uma palavra. E trabalharíamos as nuances deste trecho curto, frase, ou palavra, se estas poucas palavras tinham significado para eles. Noventa e cinco por cento optaram pela escrita e memorização do texto todo. Ficou-me a sensação, em relação à maioria, que se eles escolhessem um trecho apenas, demonstrariam que optaram pelo caminho mais fácil.

Depois de ter passado pelo processo inteiro de memorização de seu próprio texto, Erom foi o aluno que mais fez improvisações dentro de sala de aula e foi transformando o seu texto, trocando ora algumas palavras, ora grandes partes do texto a cada improvisação nova, após os tímidos comentários e sugestões minhas e dos outros alunos.

Apesar de ter na memória o texto todo, foi trazendo uma naturalidade forte à improvisação, que ele atribuiu, numa conversa em conjunto com o grupo, ao fato de ter sido criado no circo do pai até os quatro anos. Ele comentou que o fato de ter visto o pai

atuar muitas vezes talvez o tivesse influenciado de alguma forma. Erom não quis adotar nenhum figurino, dizia que era ele mesmo, ali em cena.

Como pesquisadora, percebo que o fato do Erom ter trabalhado durante cinco meses com seu próprio texto, estimulando-o a um trabalho de criação individual, resultou em falas diferentes daquelas escritas na folha de memorização e, com tanta naturalidade, fazendo-o transgredir o patamar de dizer um texto só memorizado. Criou em cima do seu próprio texto, dizendo com prazer e despertando a emoção em quem o assistia. Mesmo sem ter consciência plena desta opção, e a tomou. Mas, vejo também, que durante as conversas após as improvisações, durante as minhas sugestões de outros caminhos dentro da própria improvisação, o Erom as examinava para tomar uma decisão final. Neste instante, era a constatação prática do educando ser um instrumento da capacidade de tomada de decisões no coletivo. Este é um recurso que sinto que só o fazer teatral tem - o de experimentar na prática o ser o outro de uma forma ou de outra. A decisão deste caminho só o educando primeiramente é que tem, e depois, claro escutando a reverberação dos educandos/ plateia. Ele foi mexendo nesta pequena improvisação até a partitura final, o que é mostrada a todos.

Procurei seguir sempre nesta pesquisa um dos princípios da escola democrática: o respeito pelo caminho do educando, com seu ritmo e forma de se manifestar, seguindo as orientações do orientador ou tutor. No CIEJA – Campo Limpo, lidei com uma grande diversidade. No caso do Erom, essa diversidade se manifestou por meio de sua opção de trabalhar seu próprio texto. No caso da Val, ela optou por dizer o texto da Rosângela na íntegra.

Lidar a necessidade de desenvolver o trabalho com quem faltava muito e retornaram somente esporadicamente no último mês. O que me levou a sugerir o recurso da improvisação com o texto na mão. Trabalhei mais a intensidade do olhar, ou mesmo conseguir que falassem o texto mais audível, com mais pausas ou mais rápido, dependendo de sua intenção. Que geraram cenas diversas, baseadas no seu caminhar próprio. Procurei uma maneira de pensar no plural, que consiste em ser capaz de pensar no lugar e na posição de cada aluno, em vez de estar somente de acordo comigo mesmo.