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Three dimensionalism

In document Persistence: a matter of identity? (sider 26-35)

Se a concepção atual de modernização urbana não se pode aplicar à realidade do Município de Morrinhos da virada do século XIX para o XX, mesmo que tal tentativa seja recorrente na fixação da memória histórica local, que insiste na imagem construída de uma Morrinhos progressista de então, como explicar essa idealização presente nas obras dos cronistas, memorialistas e historiadores locais? Mais do que a imagem de progresso a compor o imaginário, é importante entender a própria representação com a qual se está a trabalhar. Nesse sentido, é necessário que retomemos a menção ao Coronel Hermenegildo Lopes de Moraes, contida na citação de Leite Moraes (2011).

Em meio à descrição de uma Morrinhos cuja imagem destoava completamente do que o autor entendia ser a representação de progresso, sobre o Coronel as palavras são muito mais amenas, quase deferentes. Após destacar as ―virtudes‖ pessoais do Coronel, Leite Moraes (2011, posição 715), distinguiu a paisagem ‖decadente‖ da cidade da residência do

Coronel, onde pernoitou, acrescentando ser o recinto o local em que, em toda Morrinhos, se concentra ―a vida, o trabalho, o progresso, a felicidade‖.

O Coronel Hermenegildo Lopes de Moraes ainda seria citado mais duas vezes no texto do Presidente provincial Leite Moraes, sempre como exemplo a ser seguido, como

representante dos [raros] cidadãos ―que representam a iniciativa, o trabalho, a constância, a

dedicação a perseverança e energia de vontade‖ – em algumas poucas localidades de Goiás –

e que, como os demais citados, ―se destaca só pelo seu amor ao trabalho‖ (LEITE MORAES,

2011, posição 1008). A outra citação ao Coronel Hermenegildo é encontrada nas notas de rodapé originais da primeira edição publicada pelo autor, em que afirmou que ―o senhor Hermenegildo foi um auxiliar muito importante da minha administração nos melhoramentos materiais realizados na estrada do Sul‖ (LEITE MORAES, 2011, posição 1070).

As referências ao Coronel Hermenegildo e alguns outros homens de negócios, bem como aos raros funcionários públicos no texto do diário de viagem de Leite Moraes se deram sempre como exemplos antitéticos do que seria o padrão, tanto dos goianos quanto das condições econômicas e sociais da Província em geral e das localidades em particular. Progresso versus abandono e decadência; empreendedorismo versus preguiça e indolência.

Na reconstrução imagética da história do Município de Morrinhos, no entanto, percebemos que há um movimento diferente, na medida em que as condições materiais da

cidade – a ausência de infraestrutura urbana condizente com os ideais do progresso já

presentes na narrativa do Presidente provincial Leite Moraes – desapareceram do discurso dos memorialistas e historiadores oficiais, a não ser quando recolocados como exemplos de nostalgia de ‗um tempo que não volta mais‘.

É dessa forma que as descrições dos aspectos físicos da cidade contidas nos textos de Bruno José Vieira e de José do Nascimento, citados acima, devem ser percebidas e não como uma crítica à ausência de infraestrutura urbana básica, ou de ações do poder público, ou de dominação econômico-política das lideranças locais. A pobreza generalizada das pessoas, a falta de investimento de recursos públicos na melhoria das condições de vida, destacados na descrição feita de Morrinhos por Leite Moraes (2011) não impediu que o historiador e

memorialista José Afonso Barbosa (2015a) afirmasse que ―Morrinhos teve seu período

político, econômico e social áureo entre os anos 1882-1930‖ (BARBOSA, 2015a, p. 36),

talvez ecoando as palavras do cronista Joaquim Rosa, que ao passar pelo Município no início do século XX acreditou ser o seu povo um dos ―mais progressistas de Goiás‖ (ROSA, 1974, apud AMORIM, 2015, p. 79).

A ênfase na reconstrução imagética de Morrinhos passou a ser a das relações interpessoais, não a das condições de vida da população. A relação de dominação exercida

pelos coronéis – dos quais o Coronel Hermenegildo Lopes de Moraes foi o representante

maior – também passou por uma transformação, assim como houve, também, uma

reconstrução da representação da própria figura do chefe político e do sentido simbólico da dominação exercida.

Dessa forma, a imagem do Coronel Hermenegildo sobressai na memória histórica oficial do Município de Morrinhos, frequentemente se confundindo com sua própria fundação, extrapolando em muito os próprios Correa Bueno e o Capitão Gaspar Martins da Veiga, míticos fundadores do patrimônio que teria dado origem ao arraial Nossa Senhora do

Carmo dos Morrinhos, nas décadas de 1830 e 184033.

Do surgimento oficial como patrimônio e arraial – 1845 – até o estabelecimento como Município autônomo se passaram várias décadas, as quais testemunharam as diversas mudanças de denominações e de status político que a localidade sofreu. A emancipação ocorreu no ano de 1882, quando a então Villa Bella de Morrinhos foi desmembrada do Município de Pouso Alto (atual Piracanjuba) e recebeu foros de cidade, equivalente hoje a Município autônomo e sede de comarca, sendo chamada apenas de Morrinhos.

Zilda Diniz Fontes (1980) narrou toda a trajetória da emancipação de Morrinhos,

de patrimônio a Município34, e foi, talvez, a principal responsável, entre os memorialistas da

33 Zilda Diniz Fontes (1980) estabelece o início da década de 1830 como o momento em que a família Corrêa

Bueno teria se fixado nas terras do atual Município de Morrinhos, tendo ‗doado‘ terras e construído uma capela dedicada à Nossa Senhora do Carmo em 1833, em agradecimento por terem sido protegidos na nova terra (FONTES, 1980, p. 15/16). A capela construída teria sido a origem do povoado. A mesma autora aponta que no ano de 1845 o Capitão Gaspar Martins da Veiga doou 600 alqueires ao redor da capela inicial, constituindo o Patrimônio que deu origem ao arraial, depois vila de Morrinhos. Tanto a doação quanto o estabelecimento do arraial foram confirmados pelo Presidente provincial que, na Lei nº 3, de 31 de julho de 1845, estabeleceu: ―Fica desmembrada da Paroquia de Santa Cruz e elevada a freguesia de Natureza Colativa, conservando a mesma marcação a Capela Curada de Nossa Senhora do Carmo dos Morrinhos‖ (FONTES, 1980, p. 16). Hamilton Oliveira (2006) confirma que nos registros da primeira metade do século XIX as famílias Correa Bueno e Martins da Veiga aparecem como posseiras iniciais e proprietárias de terras, juntamente com outras famílias pioneiras. A doação de terras que vieram a compor o Patronato e, posteriormente, o Município de Morrinhos, se explica, em primeiro lugar, pela forma como se dava a posse – via ocupação – e, posteriormente, a legalização das terras; em segundo lugar, aparentemente a ‗doação‘ de grandes extensões de terras para a composição de patrimônios paroquiais pode ser explicada também pela extensão das terras inicialmente ocupadas pelas primeiras famílias de posseiros, como foi o caso do próprio Martins da Veiga, ao doar os 600 alqueires. Em seu estudo, Hamilton (2006) informa que os inventários post-mortem analisados por ele deram conta que apenas as 7 propriedades inicias estabelecidas entre 1840 e 1870 deram origem a 113 propriedades de grandes extensões. Apenas uma delas – talvez a mais antiga – a fazenda Mimosa ou Mimoso, da qual Inácio Correa Bueno, um dos irmãos Correa Bueno originais, foi um dos primeiros proprietários (FONTES, 1980, 15), deu origem a 42 propriedades (OLIVEIRA, 2006, p. 50).

34 Zilda Diniz Fontes (1980) reconstruiu a trajetória das mudanças de denominações e de status político de

Morrinhos. Assim, ficamos sabendo que em 1845 a paróquia – e arraial – foi estabelecida pela Lei nº 3, de 31 de julho, com o nome de Nossa Senhora do Carmo dos Morrinhos e ligada ao Município de Santa Cruz de Goiás e à Comarca do Paranaíba; em 1855, o arraial foi elevado à vila com o nome de Villa Bella do Paranaíba, conforme

locais a contribuir para a fixação na memória histórica do Município a relação entre a emancipação e as ações do Coronel Hermenegildo.

Fontes (1980) explicou que a emancipação seguia o princípio já estabelecido nos processos anteriores, de se cumprir algumas obrigações no plano da infraestrutura urbana de modo a considerar a localidade apta à nova condição e status político. O não cumprimento das obrigações estabelecidas poderia acarretar a perda da nova condição e o retorno à anterior. Como exemplo, citou que num período anterior, em 1855, a localidade fora alçada à condição de vila, pela Resolução Provincial nº 2, com o nome de Villa Bella do Paranaíba. No entanto,

por não ter cumprido obrigações constantes na Resolução, como construir ―à sua custa a

Cadeia e a Casa da Câmara, conforme planta dada pelo Presidente da Província‖ (FONTES, 1980, p. 17), Morrinhos foi ―rebaixado‖ em 1859 a distrito de Santa Cruz.

Em 1882 a conquista da autonomia político-jurídica estava novamente ameaçada, também pelo não cumprimento de algumas condições previamente acordadas e que não foram cumpridas pela municipalidade. A forma como Zilda Diniz Fontes narrou o episódio indica que o Coronel Hermenegildo Lopes de Moraes, recém-chegado à localidade, não apenas foi importante para a própria conquista da autonomia em si, mas também para a manutenção definitiva dessa condição.

Graças aos esforços do Coronel Hermenegildo Lopes de Morais35 junto ao governo da Província, o Dr. Cornélio Pereira de Magalhães, Presidente na época, assinou a Lei nº 686 de 29 de agosto de 1882, elevando a Villa Bella de Morrinhos a cidade, com a denominação de Morrinhos. Mas a assinatura da Lei não trouxe modificação alguma para o lugar, nem mesmo nos despachos e ofícios emanados do governo e registrados no jornal da Província – ―Semanário Oficial‖. É que não tinha sido cumprida uma das cláusulas básicas da emancipação, contida na Resolução nº 517 de 07 de julho de 1874: ―a existência de um edifício público para escola de a Resolução provincial nº 2, de 05 de novembro de 1855, mas agora ligada à Comarca do Rio Corumbá. Pouso Alto (atual Piracanjuba) e o porto de Santa Rita do Paranaíba (atual Itumbiara) faziam parte de seu território, o que na prática, fazia com que o território de Villa Bella praticamente correspondesse a todo o Sul de Goiás, do atual Município de Santa Cruz de Goiás até limites Sul e Sudeste com Minas Gerais. Em 1859 a vila foi suprimida pela Resolução Provincial nº 6, de 19 de agosto e voltou ao status de arraial, com o nome de Nossa Senhora do Carmo de Morrinhos; a mesma Resolução era desmembrada de seu território o arraial de Pouso Alto (atual Piracanjuba). Novamente houve mudança de status e de configuração territorial em 1871, quando, pela Lei Provincial nº 463 de 19 de julho de 1871, foi restabelecida à categoria de vila – já equivalente a Município mas não sendo sede de comarca – passando a se chamar Villa Bella de Nossa Senhora do Carmo de Morrinhos. É somente com a Resolução nº 686, de 29 de agosto de 1882, que o Município é elevado à categoria de cidade e sede de Comarca, plenamente autônomo, com o nome de Morrinhos. (FONTES, 1980, pp. 15-17). O território atual de Morrinhos foi sendo alterado no início do século XX, com o desmembramento de localidades que se ternaram Municípios autônomos, como os atuais Municípios de Itumbiara, Buriti Alegre, Panamá, Goiatuba, entre outros.

35 A grafia do sobrenome do Coronel Hermenegildo é diferente, dependendo do autor ou da fonte citada. No

texto de 1970, ―O Sobrado‖, o autor Guilherme Xavier de Almeida, neto do Coronel escreve seu sobrenome como Moraes; da mesma forma o fazem Barbosa (2015a e 2015b) e Fonseca (1998). Já Zilda Diniz Fontes (1980) e Eron Amorim (2015) transcrevem como Morais. A nossa opção foi manter a grafia como cada autor citado escreve, e transcrevendo no restante do texto como Moraes.

primeiras letras do sexo masculino‖. Foi aí que entrou novamente em cena o Cel. Hermenegildo Lopes de Morais oferecendo, no governo de Luiz Silvério Alves Cruz uma casa de sua propriedade para nela funcionar uma escola de ambos os sexos, a fim de que pudesse a Villa Bella de Morrinhos gozar de foro de cidade a que tinha sido elevada por Lei Provincial. Aceita a casa, pelo governo da Província, lavrou-se no ―Cartório do tabelião Ernesto Augusto Ferreira Levergger a escritura de doação, no dia 07 de abril de 1887, nela assinando os doadores, Cel. Hermenegildo Lopes de Morais e sua mulher, dona Francisca Carolina de Nazareth Morais, Coletor das Rendas Provinciais – Tenente Antônio Dionizio Teixeira de Castro aceitando a doação em nome do governo da Província, e as testemunhas José Joaquim de Barros Toró e Pedro Nunes da Silva. A partir daí é que Morrinhos passou a gozar verdadeiramente das prerrogativas de cidade. (FONTES, 1980, p. 17-18) Nascido em 1833 (FONTES, 1980, p. 37) na capital da Província, o Coronel Hermenegildo, de acordo com Maria Lúcia Fonseca (1998), ainda na juventude, se fixou na divisa entre as Províncias de Goiás e Minas Gerais, na margem goiana do rio Paranaíba, no arraial no entorno do Porto de Santa Rita de Paranaíba, que pertencia à Villa Bella do Paranaíba, como o Município de Morrinhos era chamado na época.

Natural da Cidade de Goiás, o Cel. Hermenegildo Lopes de Moraes fixou residência em Santa Rita do Paranaíba, onde consolidou seus negócios no ramo do comércio atacadista. Conta-se que boa parte de sua fortuna formou-se durante a Guerra do Paraguai, quando fornecia grandes quantidades de sal às tropas que ali passavam rumo à fronteira (FONSECA, 1998, p. 135).

Guilherme Xavier de Almeida, neto do Coronel Hermenegildo Lopes de Moraes, foi a fonte a partir da qual Fonseca (1998) construiu sua narrativa. Em artigo publicado na Revista da VI Festa de Arte de Morrinhos no ano de 1970, Almeida, além de confirmar a informação das atividades econômicas do Coronel em Santa Rita do Paranaíba, aponta o motivo pelo qual o Coronel teria se mudado, juntamente com sua família, para Morrinhos:

Nascido na cidade de Goiás, Capital da Província, Hermenegildo de Moraes dedicou-se bem cedo ao comércio, começando a prosperar em Santa Rita, onde já se havia fixado quando rompeu a Guerra do Paraguai. Pelo porto então existente naquela cidade ribeirinha, passavam as forças militares, a caminho da fronteira de Mato Grosso com o Paraguai. Hermenegildo, já então negociante atacadista, vendia- lhes grandes quantidades de sal, que mandava trazer das cidades próximas de São Paulo pelas suas numerosas tropas de muares. Já era, pois, um comerciante abastado quando transferiu sua residência para Morrinhos, nos últimos anos da década de 1870, em busca de um clima saudável para sua família, ameaçada pela malária, que naquele tempo, em razão da contiguidade do rio, grassava em Santa Rita do Paranaíba (ALMEIDA, 1970, s/n).

Zilda Diniz Fontes (1980) observou que, ao se fixar em Santa Rita, além do comércio, o Coronel Hermenegildo também administrou o porto local, origem da própria localidade e, dada a movimentação de cargas entre Goiás e demais Províncias que acontecia já

desde meados do século XIX, tanto pela cobrança de impostos quanto pelas próprias taxas de travessia que eram cobradas, não é demais supor que a própria função de administração portuária tenha sido a base a partir da qual se explica parte da acumulação econômica do Coronel Hermenegildo. E que foi significativa, pois ao mudar para Morrinhos, o Coronel era ―Já dono de grande fortuna, na qual se incluíam mais de 30 fazendas e escravos‖ (FONTES, 1980, p. 37).

Maria Lúcia Fonseca mostrou que, com todo esse capital acumulado, o Coronel Hermenegildo:

Instalou-se em Morrinhos no final de 1870 e, sem abandonar a atividade comercial, passou a emprestar dinheiro, em Goiás e no Triângulo Mineiro. A fortuna do Cel. Hermenegildo, possivelmente era a maior de Goiás, na época, conforme Maria Amélia Garcia de Alencar (1993, p. 77) (FONSECA, 1998, p. 135).

A descrição da trajetória de Hermenegildo Lopes de Moraes é importante para a análise da forma como, posteriormente, se construiu a identificação imagética do Coronel com Morrinhos. Embora natural da capital e tendo feito fortuna em outra localidade – Santa

Rita do Paranaíba – mesmo esta sendo geograficamente localizada no limite do território da

então Villa Bella de Morrinhos, foi em relação à própria área urbana do Município que se fixou a imagem do Coronel. Com pouco mais de quarenta anos e bastante vigoroso, como se pode ver na fotografia abaixo (figura 8), a presença do Coronel Hermenegildo modificou a cena política e econômica em Morrinhos até sua morte, cerca de trinta anos depois. É o que apontam os cronistas e historiadores que se dispuseram a analisar o cotidiano do Município no período final do Império e durante a República Velha.

Figura 8 – Coronel Hermenegildo Lopes de Moraes (c. 1880)

Fonte: Projeto Centro de Memória de Morrinhos/GO (2016)

Os três autores com os quais estamos dialogando – Almeida (1970), Fontes (1980)

e Fonseca (1998) – apontam que a mudança de domicílio do Coronel Hermenegildo para

Morrinhos se deu na década de 187036 e a causa foi o surto de malária que atingia Santa Rita

36 Há aqui também uma divergência que merece destaque. Maria Lúcia Fonseca (1998) escreveu, primeiro, que

teria sido no final de 1870, depois que foi por volta de 1870 (FONSECA, 1998, p. 135), sem deixar claro se estava se referindo ao ano de 1870 ou à década de 1870. Já Guilherme Xavier de Almeida fala que foi ―nos últimos anos da década de 1870‖ (ALMEIDA, 1970, s/n). Veremos que Zilda Diniz Fontes (1980), com base no registro de propriedade das residências compradas na cidade, estabelece o ano de 1874 (FONTES, 1980, p. 38).

do Paranaíba. Uma diferença de informação, que praticamente não altera a própria narrativa das causas da mudança, é em relação aos afetados pelo surto de malária.

Almeida (1970) afirmou que a família estava ameaçada; Fonseca (1998, p. 135), baseada na narrativa de Almeida, interpretou o motivo da mudança ―em consequência da frágil saúde de sua mulher‖; já Fontes (1980, p. 137) afirmou que o Coronel ―desorientado com a perda de muitos braços e com graves prejuízos, resolveu mudar-se‖.

A mudança para Morrinhos, no entanto, não foi automática, nem planejada anteriormente, ao crer na informação que nos chegou pelo relato de Fontes (1980). De acordo com a autora, por conta do surto de malária, a intenção do Coronel era mudar para Pouso Alto (atual Piracanjuba), e a decisão de ficar no meio do caminho, na área urbana de Morrinhos, se deu por acaso, pois, ao viajar para a localidade de Pouso Alto,

[...] em Villa Bella de Morrinhos fez parada para rever amigos. Um deles, Raimundo Nonato, aconselhou-o a adquirir propriedade aqui e em 16 de dezembro de 1874 recebia o Cel. Hermenegildo a escritura de duas casas de morada de Cândido Martins Pereira e Lucinda Cândido da Silva, situadas no Largo da Casa da Câmara (FONTES, 1980, p. 38).

Mas analisemos o impacto da presença do Coronel na nova localidade, começando pela questão política. Maria Lúcia Fonseca (1998) fez uma ressalva quanto à possibilidade de se estabelecer uma relação automática entre capital econômico e exercício do poder político, pelo menos em Goiás, visto que ―A historiografia goiana dá conta de que o poder econômico por si não garantia posição de destaque na política‖ (FONSECA, 1998, p. 135). Em relação ao Coronel Hermenegildo e Morrinhos, no entanto, a autora observou que houve uma exceção a esse princípio, pois a influência política do Coronel parece ter sido estabelecida rapidamente na nova localidade, se espraiando para toda a Província de Goiás de forma duradoura.

No caso de Morrinhos a situação parece ser outra, pois ali existia um Coronel caracterizado, em primeiro lugar, como um grande possuidor de dinheiro, numa época em que a economia do Estado era bastante frágil. Ele foi o precursor do grupo político de Morrinhos. [...] A influência política do Cel. Hermenegildo, segundo a bibliografia existente, era tão grande quanto seu poder econômico. Foi o primeiro Intendente de Morrinhos e Vice-Presidente do Estado em todos os quadriênios até a sua morte (Moraes, 1974) (FONSECA, 1998, p. 135).

A fala de Fonseca foi baseada na narrativa de Guilherme Xavier de Almeida (1970), que buscou reconstruir a trajetória política do avô nos primeiros anos após fixar residência na nova localidade. Almeida (1970) apontou duas situações que demonstravam o

poder político do Coronel Hermenegildo. A primeira situação, já apontada por Fonseca (1998) na citação anterior, dizia respeito ao exercício pessoal do poder do Coronel na política provincial, colocado por Almeida (1970) como resultado de um tipo de carisma próprio.

Dotado de grande simpatia pessoal, avesso a violências e a qualquer abuso do poder econômico, o Cel. Hermenegildo foi alargando, aos poucos, o círculo de suas relações e amizades, até se tornar um dos chefes políticos mais prestigiosos no Sul da Província, nos últimos anos da Monarquia. Com o advento da República, o seu prestígio consolidou-se e estendeu-se a tal ponto que passou a ser eleito vice- Presidente do Estado em todos os quadriênios que se sucederam até a sua morte, tornando-se, de certo modo, vice-Presidente vitalício de Goiás. Mas nunca aceitou

In document Persistence: a matter of identity? (sider 26-35)