Os resultados obtidos neste trabalho demonstram que a micropropagação é possivelmente o processo que permitirá repovoar a ilha da Berlenga com indivíduos das três espécies. Este processo é mais facilmente realizado e com um maior sucesso para Pulicaria microcephala, depois para Armeria berlengensis e é mais difícil para Herniaria berlengiana. Apesar de a taxa de sucesso de desinfeção ser maior para H. berlengiana, esta não permite uma taxa de multiplicação elevada, já que apresentou um crescimento mais lento e por isso a multiplicação é mais difícil do que para A. berlengensis. No entanto é possível afirmar que com exceção da fase 4, da aclimatização a condições ex vitro de Herniaria berlengiana (ensaio não realizado), se conseguiu com este trabalho estabelecer protocolos de cultura in vitro para as três espécies endémicas da ilha das Berlengas e que também existe um protocolo para a germinação de sementes de Pulicaria microcephala e de Armeria berlengensis.
Foi possível, finalmente, entender um pouco mais sobre estes endemismos e, principalmente no caso de Armeria berlengensis, começar a compreender os motivos pelos quais estão em criticamente ameaçadas e as formas como a combater.
Por não se poder trazer para o laboratório muito material vegetal como no caso da Pulicaria
microcephala (em que um pequeno ramo da planta original é possível dividir em vários
explantes), realizaram-se menos tentativas de desinfeção para A. berlengensis. Apesar de o processo 6 aplicado a P. microcephala, não ter resultado nesta espécie, este corresponde ao processo 3 aplicado aos explantes e folhas de A. berlengensis. Por não ser o indicado para uma espécie não significa que não o seja para outras. E por ser um processo mais agressivo, em vez de 10% de hipoclorito de sódio comercial, Domestos, utiliza 20%, foi escolhido para desinfetar A. berlengensis. Esta escolha de procedimento baseou-se no facto de as folhas de
A. berlengensis aparentarem ser mais resistentes do que as folhas de P. microcephala. Por
isso seria possível pensar que o processo com maior quantidade de hipoclorito de sódio não teria o mesmo impacto negativo, de total inviabilidade de implementação em cultura in vitro, sobre a espécie A. berlengensis que teve sobre a espécie P. microcephala. Normalmente não são testadas combinações de desinfetantes para se entender a sua eficácia separada, o que torna difícil a comparação dos resultados obtidos nestes ensaios com outros trabalhos, apesar da combinação de etanol e hipoclorito de sódio é bastante utilizada, os tempos e as concentrações é que vão sendo alteradas (Cao et al., 2004). Aliado ao facto de os géneros destas espécies de interesse na ilha das Berlengas não serem muito estudados para estes fins, germinação de sementes e micropropagação in vitro para obtenção de novas plantas
como objetivo final e o facto de quando o façam, muitas das vezes, não mencionam as taxas de sucesso ou todo o processo utilizado é ainda mais difícil realizar comparações com significado biológico.
O uso de agentes desinfetantes é comummente utilizado nos trabalhos de implementação de culturas vegetais em condições in vitro, seja a fonte do material vegetal sementes ou qualquer parte da planta (Zhang et al. 2000; Talei et al. 2012; Daud et al. 2012). Os mais utilizados são o etanol e o hipoclorito de sódio (Barampuram et al., 2014). No entanto sabe-se muitas das vezes estes mesmos agentes podem prejudicar o material vegetal e não permitir o sucesso do processo de desinfeção e implementação em cultura in vitro (Barampuram et al., 2014). Esse efeito nocivo poderá dever-se ao tempo de exposição, à concentração, ao tipo de produto ou mesmo a uma combinação de fatores, que devem ser avaliados para cada uma das espécies em particular e para cada tipo de tecido ou porção da planta que se pretende colocar em cultura (Dunfield et al., 2000; Barampuram et al., 2014). Alguns fungicidas danificam o nódulo de desenvolvimento da semente e por isso não permitem a germinação e assim prejudicam a taxa de germinação que se obtém (Rennie et al., 1985; Dunfield et al., 2000), o que poderá ter ocorrido, principalmente no caso de Armeria berlengensis. Outros agentes como o hipoclorito de sódio são apontados como em certas concentrações poderem influenciar positivamente a quebra da dormência das sementes e assim beneficiarem até certa medida as taxas de germinação (Hammond, 1959). Barampuram e os seus colaboradores (2014) mencionam que peróxido de hidrogénio é o melhor desinfetante superficial para sementes de algodão e nos resultados deste presente trabalho foi possível ver que, para explantes de A. berlengensis este desinfetante ajudou no sucesso do processo mas que ao ser aplicado a Pulicaria microcephala o resultado foi o inverso, este não foi o processo que melhor permitiu implementar os explantes em cultura in vitro. Este desinfetante é apontado como tendo a capacidade de promover a senescência das plantas, pela sua capacidade oxidativa, podendo ter sido o que ocorreu no caso de Pulicaria microcephala (Sairam e Srivastava, 2000; Upadhyaya et al., 2007; Raja et al., 2017). Mesmo que se tivesse aplicado os mesmos processos de desinfeção para cada uma das espécies (Armeria berlengensis,
Herniaria berlengiana e Pulicaria microcephala), quer para os explantes quer para as
sementes, possivelmente o mesmo processo iria desinfetar de forma diferente determinando diversas taxas de sucesso para todas as situações (Dunfield et al., 2000; Barampuram et al., 2014). O Etanol é descrito como devendo ser o primeiro passo, sendo seguido de outro ou outros agentes, como foi utilizado no presente trabalho em todas as desinfeções. É um forte esterilizante e é fitotóxico e por isso o tempo de exposição deve ser baixo (Sen et al., 2013).
É dito ainda que a sua concentração deve ser entre os 60 e os 90% para que a sua ação bactericida seja mais eficaz (Gross, 1987).
Realizou-se, ainda, o estudo da textura de campo de cada uma das amostras de terra de diferentes zonas da Berlenga (Tabela anexo XI) observando-se que 50% das amostras correspondem a terras Franco-Arenosas (amostras B, E, G, I, J e K), 33% apresentam características de terras Arenosas (amostras A, F, H e L) e 17% das amostras recolhidas são terras Francas (C e D). Estes dados são importantes para que nos estudos futuros se utilize terras com as características mais adequadas à aclimatização de exemplares de Pulicaria
microcephala, Armeria berlengensis e Herniaria berlengiana. A terra utilizada na aclimatização
foi Siro - Substrato Universal saca de 50L e foi utilizado um fertilizante universal o que torna as condições utilizadas diferentes daquelas a que as espécies estão adaptadas (Capítulo 4, 5 e 7), o que poderá ter influenciado o resultado desses processos, e acima de tudo pode depois comprometer a aclimatização ao Habitat natural, ilha da Berlenga.
Em suma, a continuação destes estudos é importante bem como a criação real de clones aclimatizados a condições ex vitro para a sua implementação na ilha de forma a cumprir o objetivo de ajudar a combater a extinção destas espécies com o auxílio da micropropagação.