O diagnóstico das condições que suscitam a condição de subdesenvolvimento para Myrdal (1965[1957]) está vinculado ao baixo investimento e à reduzida renda em países subdesenvolvidos, o que afeta o equilíbrio necessário para o seu desenvolvimento econômico. A formulação da crítica de Myrdal acompanha a conjuntura econômica e política do pós-guerra.
a) Que há um grupo pequeno de países prósperos e um grupo muito grande de países extremamente pobres.
b) Que, em geral, os países do primeiro grupo se encontram em processo de desenvolvimento econômico contínuo, enquanto no segundo o progresso médio é mais lento, uma vez que muitos países estão sob a ameaça permanente de não poderem sair da estagnação e até mesmo de retrogradarem.
c) Que, de modo geral, nas últimas décadas, as desigualdades econômicas entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos têm aumentado. (MYRDAL, 1965, p.23).
Nos países subdesenvolvidos há uma tendência de aumento populacional e desigualdade entre eles e os países desenvolvidos. Por conta disso, Myrdal salienta que a teoria internacional do comércio não é suficiente para explicar como as desigualdades econômicas internacionais se produzem e tendem a aumentar.
A teoria do comércio internacional e, na verdade, a teoria econômica, em geral, jamais foram elaboradas para servir ao propósito de explicar a realidade do subdesenvolvimento e do desenvolvimento econômico (MYRDAL, 1965, p. 27).
A teoria do equilíbrio estável para Myrdal (1965[1957]) está embutida na teoria clássica econômica. É preciso uma teoria que dê conta de preencher as lacunas
deixadas pela teoria clássica quando direcionada para estudo do subdesenvolvimento. Por conta disso, Myrdal embasa-se no conceito de círculo vicioso37
Para Myrdal (1965[1957]) o “círculo vicioso da pobreza” tem como base o processo acumulativo, sendo que as conseqüências podem gerar tanto os “efeitos progressivos”, como os “efeitos regressivos”. Os efeitos acumulativos são despertados pela mudança econômica ou pelos processos sociais.
da pobreza para expor o grau da pobreza e miséria nos países subdesenvolvidos.
Em economias subdesenvolvidas regidas pelas forças do mercado (laissez-faire) há uma tendência para aumentar as desigualdades regionais, beneficiam-se as regiões que possuem melhor infraestrutura, indústrias, ao passo que existem regiões que estão restritas à economia de subsistência. A intensificação do desenvolvimento desequilibrado é conseqüência de um volume maior de investimentos em uma região (o que propicia dinamismo da atividade econômica), em relação à outra região dentro de um mesmo país. O resultado é o crescimento econômico da região mais dinâmica à custa de outras regiões com economia estagnada (MYRDAL, (1965[1957]).
O diagnóstico de Myrdal (1965[1957]) de uma região subdesenvolvida é exposto pela causação circular dos processos acumulativos, cuja proposta é incluir tanto os fatores não econômicos como os econômicos, que provocaram as mudanças no país subdesenvolvido. Os efeitos negativos oriundos das transformações econômicas são tratados por Myrdal como “efeitos regressivos”.
37 O círculo vicioso da pobreza foi utilizado por Nurkse em sua obra Problema de Formação de Capital
Introdução nova Indústria ou expansão da empresa existente Atratividade ligada à indústria Melhoria do pólo de empregos e treinamento para empregos Incremento por demanda de serviços Aumento populacional (imigração), boa qualidade de saúde Aumento da renda
per capita (aumento do poder de compra disponível) Construção de uma nova atividade econômica, crescimento do setor terciario Criação dos pólos de
crescimento INVENÇÃO E INOVAÇÃO “Atratividade para trás” - ligações da empresas para o fornecimento de matérias-primas ou componentes de peças “Atratividade para a frente” - ligação das empresas para o processamento do produto ou usá-lo como
um componente Criação de novos
empregos na área de infraestrutura
Gráfico 1 – Esquema da Causação Circular (acumulativa)
Fonte: Baseado em MYRDAL, 1965.
Nos países subdesenvolvidos os “efeitos propulsores” são fracos. As “vantagens comparativas” determinam que o livre comércio seja benéfico apenas para os países ricos, enquanto que reforça a posição de submissão dos países pobres no comércio internacional. Logo, temos a equação ditada por Myrdal.
O fato de um baixo nível de desenvolvimento econômico ser acompanhado, em geral, por grandes desigualdades econômicas representa, por si mesmo, grande obstáculo ao progresso. Esta é uma das relações interdependentes, por meio das quais, no processo acumulativo, “a pobreza se torna a sua própria causa” (MYRDAL, 1965, p. 63).
No jogo do livre mercado “os efeitos propulsores” são maiores para os países desenvolvidos, do que em países subdesenvolvidos. O laissez-faire proporciona vantagens somente para os países mais bem preparados para competir no mercado,
assim o impacto dos “efeitos regressivos” nos países desenvolvidos é menor do que nos países subdesenvolvidos (MYRDAL, (1965[1957]).
De acordo com Myrdal (1965[1957]) o “Estado de Bem-Estar” funciona muito bem em países ricos, pois proporciona maior igualdade regional e “efeitos propulsores”. Em países pobres, o “Estado de Bem-Estar” não tem o mesmo alcance que nos países ricos, de modo que atinge determinadas regiões e outras não, repercutindo em desigualdades sociais (MYRDAL, (1965[1957]).
É utilizado como justificativa por Myrdal (1965[1957]) para os países pobres não ingressarem no clube dos países ricos o fraco esforço de integração nacional. Nos países ricos a “causação circular” tem agido pelos “efeitos propulsores” e políticas igualitárias. Por outro lado, em países pobres a “causação circular” tem atuado gerando desigualdades internas, o que enfraquece a eficácia do governo democrático. Myrdal ressalta que a falta de integração econômica nacional e o atraso econômico é de influência mútua.
No cenário mundial, não há um equilíbrio de força, as desigualdades internacionais têm resultado no desnivelamento entre as nações, ilustrado pelo baixo poder de barganha dos países periféricos. O atraso econômico, cultural nos países subdesenvolvidos, a dominação econômica estrangeira e o colonialismo político são conseqüências da frouxa relação entre os países subdesenvolvidos (MYRDAL, 1965[1957]).
Até o presente não há, a bem dizer, cooperação econômica entre os países subdesenvolvidos, e a base para que se estabeleça é fraca, uma vez que a situação inicial é quase completa falta de relações econômicas e, muitas vezes, de reais facilidades de transporte. Todavia, no plano político mais geral, está em marcha crescente solidariedade entre os países subdesenvolvidos, que tende a tornar-se uma das grandes forças da História. Têm em comum as reminiscências da dominação e da exploração estrangeira, profunda compreensão da pobreza e da desigualdade internacional e a ambição de conseguir participar mais intensamente das oportunidades mundiais (MYRDAL, 1965. p. 111-112).
Supõe Myrdal (1965[1957]) que se existisse cooperação entre os países pobres, a união destes aumentaria o poder de barganha frente às relações econômicas com os países ricos.
Na percepção de Myrdal (1965[1957]) a teoria clássica foi aplicada erroneamente como solução para suprimir o subdesenvolvimento. Esta teoria foi formulada sob os interesses políticos nacionais dos países desenvolvidos, de modo que, não tem aplicabilidade às peculiaridades dos países subdesenvolvidos. Com efeito, Myrdal salienta a sua preocupação em rechaçar as velhas preferências do laissez-faire, do livre-câmbio e da teoria do equilíbrio estável.
A alternativa apontada por Myrdal (1965[1957]) para substituir a teoria clássica e apresentar uma metodologia que combata o subdesenvolvimento é a causação circular, que relaciona todos os fatores do sistema social resultante do processo acumulativo.
2.3.2. O círculo vicioso também atua do lado dos efeitos progressivos nos países