No decurso de uma investigação, a reflexão e a discussão sobre questões de qualidade associadas aos vários momentos do processo é, ou deveria ser, inevitável. Tal como refere Stake (1995/2009), ao longo do trabalho confrontamo-nos frequentemente com inquietações como “"Será que estamos a fazer as coisas bem feitas?" (…) "Estamos a desenvolver as interpretações que queremos?"” (p. 121, aspas no original). Este autor salienta que o senso comum é um auxiliar fiável mas insuficiente pois, como afirma, “na nossa procura, tanto de rigor como de explicações alternativas, precisamos de disciplina, precisamos de protocolos que não dependam apenas da simples intuição e das boas intenções de "fazer as coisas bem feitas"” (Stake, 1995/2009, p. 121, aspas no original). Por isso mesmo, alguns autores sugerem procedimentos e cuidados que permitem “aumentar a confiança na nossa interpretação” (Stake, 1995/2009, p. 127), nomeadamente a triangulação.
Stake (1995/2009) preconiza o uso da triangulação. Servindo-se da analogia com a navegação, afirma que, assim como informações adicionais permitem obter uma indicação mais precisa acerca da localização de um barco, também ao (re)olhar o mesmo objeto de estudo através de diferentes perspetivas, poderemos interrogar as primeiras interpretações e alcançar uma compreensão mais aprofundada. Reportando-se a trabalhos redigidos por Denzin (1984, 1989), Stake (1995/2009) apresenta quatro tipos de triangulação: (1) das fontes de dados; (2) do investigador; (3) da teoria; e (4) metodológica. Com a triangulação das fontes de dados pretende-se “ver se o fenómeno ou caso se mantém inalterado noutros momentos, noutros espaços ou à medida que as pessoas interagem de forma diferente” (Stake, 1995/2009, p. 126). Este tipo de triangulação permite, portanto, confrontar as interpretações que se fazem quando se perceciona o mesmo tipo de acontecimento em circunstâncias diferentes, nomeadamente, pelo envolvimento de participantes que ocupem posicionamentos diferentes em relação ao fenómeno em estudo e que, por isso, possam contribuir para a diversificação dos ângulos sob os quais este é olhado.
Para realizar a triangulação de investigadores é necessária a colaboração de outros investigadores, de forma a que diversas interpretações acerca do mesmo objeto de estudo possam ser confrontadas. Na maioria das vezes será complicado conseguir que outro investigador esteja presente no momento em que se realiza a recolha de dados. No entanto, este tipo de triangulação pode também ocorrer num momento posterior, facultando-se ao(s) outro(s) investigador(es) registos escritos, que poderão ser retirados do diário de bordo, ou de transcrições de entrevistas, entre outros. Quando os investigadores que se escolhem para colaborar na investigação assumem pontos de vista teóricos diferentes, nas discussões em que participam ocorrerá, também, a triangulação da teoria. Afirma Stake (1995/2009) que “uma vez que dois investigadores nunca interpretam as coisas exatamente da mesma maneira, sempre que diversos investigadores confrontam os seus dados, há uma triangulação da teoria” (p. 127). Este autor salienta que o processo ocorre quer haja, ou não, concordância relativamente às interpretações “porque o significado alternativo pode ser muito útil para ajudar os leitores a compreender os casos” (p. 127). Porém, um mesmo investigador também pode proceder à triangulação da teoria quando conjuga diferentes abordagens teóricas nas suas interpretações.
A triangulação metodológica é, de acordo com Stake (1995/2009), o procedimento mais frequentemente mais utilizado. Para Cohen e seus colaboradores (2001), a triangulação define-se pelo “recurso a dois ou mais métodos de recolha de dados do comportamento humano” (p. 112). Este procedimento prende-se, portanto, com a diversificação dos instrumentos de recolha de dados. Por exemplo, quando se cruzam as interpretações feitas sobre um caso a partir dos dados recolhidos com a observação, com aqueles que provêm de uma entrevista, a compreensão do fenómeno poderá revelar-se muito mais aprofundada e próxima do sentido que os participantes lhe atribuem do que aconteceria se se recorresse apenas a um desses instrumentos. Stake (1995/2009) salienta que, “com abordagens múltiplas no âmbito de um único trabalho, é muito provável que venhamos a realçar ou invalidar algumas influências exteriores” (p. 127).
Na procura da qualidade de uma investigação, Yin (2003) fala de validade, referindo-se a três tipos: (1) a validade de construção; (2) a validade interna; e (3) a validade externa. A validade de construção prende-se com a definição de um plano de ação e estratégias que seja adequado aos objetivos da investigação. Com a validade interna pretende-se “determinar se um acontecimento x conduz ao acontecimento y” (p.
36, itálico no original). A validade externa está relacionada com a possibilidade de generalização dos resultados do estudo.
Partindo das sugestões de vários autores, Sturman (1997) elabora uma lista de nove estratégias na persecução da credibilidade de uma investigação com design de estudo de caso:
(a) Os procedimentos para a recolha de dados devem ser explicados.
(b) Os dados recolhidos devem ser exibidos [displayed] e preparados [ready] para reanálise.
(c) As circunstâncias negativas devem ser relatadas. (d) Os enviesamentos devem ser reconhecidos.
(e) As análises do trabalho de campo precisam de ser documentadas. (f) A relação entre asserções e evidências deve ser clarificada.
(g) As evidências primárias devem ser distinguidas das secundárias e descrição de interpretação.
(h) Os diários de bordo [Diaries or logs] devem localizar o que realmente foi feito durante as diferentes etapas do estudo.
(i) Os métodos [Methods] devem ser concebidos para verificar [to check] a qualidade dos dados. (p. 65)
Sturman (1997) salienta, também, o conceito de triangulação, referindo que “este processo é, de acordo com Diesing (1972), a resposta dos holísticos à questão da validade e fiabilidade na pesquisa de opinião [survey research]” (p. 65).
Outro aspeto associado à qualidade de uma investigação são as questões éticas. No relatório da investigação, o investigador configura as histórias que presenciu ou que lhe foram narradas pelos participantes. Por isso mesmo, a relação investigador/participante deve ter em consideração quem é o investigador na história do participante (Clandinin & Connelly, 1998). A passagem para a escrita das experiências pessoais exige cuidado e responsabilidade (Clandinin & Connelly, 1998), uma vez que a descrição de pessoas ou instituições pode permitir que sejam reconhecidas (Sturman, 1997), mesmo que não houvesse essa intenção. Uma solução apresentada por Clandinin e Connelly (1998) é o recurso ao anonimato ou a nomes fictícios no texto. Estas questões podem ser negociadas com os participante, sob a forma de um contrato, um pedido de autorização, mais ou menos formal, ou a discussão dos textos antes da sua divulgação (Sturman, 1997). Esta última sugestão, não só envolve aspetos éticos, como permite reforçar a triangulação das observações e interpretações do investigador.
Neste processo (…) pede-se ao actor que examine um rascunho incompleto, onde constam as acções ou as palavras do actor (…). Solicita-se ao actor que reveja o material em termos de rigor e aprazibilidade. O actor poderá ser encorajado a
providenciar vocabulário ou interpretações alternativas (…) Regra geral, parte desse feedback é digno de inclusão. (Stake, 1995/2009, p. 128)
Atendendo às questões da qualidade e ética da investigação que estamos a realizar, existem certos procedimentos que temos adotado e pretendemos continuar a adotar. Por exemplo, a discussão entre investigadora e orientadores, outros professores da faculdade e colegas de doutoramento são frequentes, abordando-se aspetos ligados à metodologia (sobre procedimento de recolha e tratamento/análise dos dados, por exemplo), às interpretações e aos avanços na produção do texto. Desta forma, a triangulação de teoria e de investigadores vai ocorrendo. Os próprios participantes contribuem para este tipo de triangulação, na medida em que lhes apresentamos as interpretações que fazemos e os questionamos sobre as próprias interpretações e, do confronto das duas, pode surgir um reajuste no foco da investigação.
Procuramos, também, usar uma diversidade de fontes e de instrumentos de recolha de dados para que possamos ter acesso a várias perspetivas do mesmo objeto de estudo, tornando a recolha de dados mais completa e exaustiva, o que permite dar origem à triangulação metodológica. Envolvemos estudantes, colegas de turma ouvintes, professores de disciplinas e Unidades Curriculares (UCs) do domínio da Matemática e de Educação Especial e progenitores dos estudantes surdos, procurando, assim, realizar a triangulação de fontes.
Em termos éticos, foram solicitadas autorizações orais aos professores do ensino secundário e escritas aos professores e outros agentes educativos do ensino superior, aos estudantes (dos ensinos secundário e superior), bem como à direção da escola secundária. Os participantes foram informados sobre o propósito da nossa presença.