2.2 Solar Cell Generations
2.2.3 Third Generation
Alguns pesquisadores dedicaram tempo para o estudo da pesquisa qualitativa em sala de aula com o intuito de auxiliar o professor a construir, desenvolver e aperfeiçoar sua prática sobre a organização social e cognitiva da vida em sala de aula. Alguns exemplos são André (2001), Lüdke (2001), Alarcão (2003) e Bortoni-Ricardo (2008).
De acordo com Kamberelis e Dimitriades (apud BORTONI-RICARDO, 2008), no começo dos anos 1980 dois aspectos da didática de sala de aula ganharam relevância, especialmente em países industrializados: a interação professor-aluno e a qualidade do processo de aprendizagem.
Esses dois aspectos desencadearam um novo hábito nos professores, o de investigar sua própria prática com o objetivo de melhor apresentar o conteúdo a ser trabalhado para a classe e também acompanhar o processo de aprendizagem dos alunos. Dessa forma, os professores começaram a investigar suas próprias turmas e a trocar experiências (BORTONI-RICARDO, 2008).
A troca de experiências sempre se mostrou bastante rica nos meios escolares. Já o processo de investigação permite que o professor transforme os seus “achados” em uma “teoria prática” e o auxilia a operacionalizar o processo de ação-reflexão-ação na sua realidade, ou seja, no seu dia a dia em sala de aula.
Nas atividades realizadas em sala de recursos, em que o professor de AEE necessita atuar, no caso de alunos com deficiência intelectual, na complementação curricular específica e orientar o professor regente, ter um perfil de professor pesquisador certamente auxilia bastante.
Nesse caso, o planejamento individual realizado especificamente para atender as especificidades do aluno que frequenta a sala de recursos pode se configurar como objeto de pesquisa, ou seja, ser o ponto de partida para a investigação do seu processo de aprendizagem. O planejamento deverá ser traçado após uma avaliação
inicial do aluno com NEE. A partir dos dados encontrados na avaliação serão delineados os objetivos gerais e específicos para serem alcançados durante o bimestre e/ou semestre letivos.
A prática da pesquisa exige registro. E o registro pode funcionar como fonte de reflexão que possibilita uma forma de ação mais ativa, consistente e crítica da práxis do professor.
Com base em experiências e pesquisas, Sena (2004, p. 40) observou:
À proporção que recorremos aos nossos registros para alimentar nossas reflexões, percebemos também a importância do registro das experiências dos outros autores. A reflexão nos faz questionar. Nos questionamentos surgem perguntas as quais não conseguimos responder e, assim, temos que recorrer a pesquisas [...] o despertar da consciência individual sobre as nossas limitações e potencialidades. E, quanto às limitações, o ato da reflexão nos lança na eterna busca pelo conhecimento através da pesquisa.
De acordo com Bortone (2008), o professor pesquisador é aquele que a partir da identificação de uma determinada dificuldade no processo de aprendizagem de seu aluno consegue promover uma mudança de atitude consciente, desenvolvendo novas estratégias de ação que favoreçam a aprendizagem significativa.
Zamboni (2008, p. 112) alerta que na prática docente é comum agir seguindo intuições que foram “sendo buriladas em longos anos de magistério e infinitas horas de trato com os alunos”. De acordo com a autora, muitos cientistas confessaram ter chegado a descobertas importantes seguindo o caminho da intuição, em virtude de esta ser ligada à criatividade. Contudo, é preciso “sempre buscar o entendimento pleno do que acontece, lançando mão do conhecimento racional e do raciocínio lógico” (ZAMBONI, 2008, p. 112).
Tendo como princípio uma postura investigativa, baseada em objetivos concretos, o professor pode atuar de forma mais individualizada, buscar atender às peculiaridades de cada caso e agir de forma intencional. Vigotski (2000) destaca que o desenvolvimento das formas superiores da conduta se realiza por pressão da necessidade. Se a criança não tem necessidade de pensar, não pensará. A partir dessa premissa, é possível compreender como é importante a atuação do professor de AEE no sentido de organizar atividades no ambiente de sala de recursos que propiciem a reflexão, o pensar antes do atuar.
Vigotski (2000) ressalta ainda que existe diferenciação entre os processos de desenvolvimento e aprendizado e afirma que apesar de os dois processos serem interligados, os dois nunca acontecem paralelamente. Dessa forma, podemos evidenciar mais uma vez a importância do professor na organização do ambiente com o intuito de favorecer a aprendizagem:
Desse ponto de vista, aprendizado não é desenvolvimento; entretanto, o aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer. Assim, o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas (VIGOTSKI, 2000, p. 118).
Conforme destaca Ricardo-Bortoni (2008), o professor pesquisador não se vê apenas como usuário de conhecimento. Ele se propõe a produzir conhecimentos de forma a melhorar sua prática, além de se manter aberto a novas ideias e estratégias. É um profissional que reflete sobre a sua prática e que busca reforçar e desenvolver aspectos positivos e superar as próprias deficiências.
Salientamos que a metodologia proposta para a ação do professor pesquisador incorpora rotinas da pesquisa qualitativa que, ao investigar, faz uma interpretação do que enxerga, ouve e entende (investigação interpretativa), agindo dentro do seu contexto (no caso, a sala de aula).
Esse tipo de pesquisa tem como base o processo de resolução de problema que é dividido em quatro etapas: identificação da situação; projetação de soluções; implementação de soluções e avaliação do procedimento.
Na rotina dos professores de AEE, que é caracterizada pela realização de atividades diversificadas e pelo atendimento a vários alunos, é comum eles alegarem falta de tempo para fazer os registros. Mas quando essa prática se torna rotineira, o profissional percebe a relevância dos registros, principalmente na contribuição para a melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem de seus alunos.
Além disso, só quando a ação contínua dos registros se torna hábito e parte do atendimento, o professor passa a compreender o seu significado. Esse é o momento que possibilita o pleno exercício da ação-reflexão-ação.