O início da docência é o momento do ‘chegar a ser professor’, como chama Veenman (1988). Esse autor classifica o primeiro ano de exercício no magistério como difícil e dramático, podendo tornar-se traumático em alguns casos. Segundo ele, o ‘choque de realidade’ seria o que geralmente causaria tais sentimentos tão negativos nos professores iniciantes.
O ‘choque de realidade’, já indicado por autores que estudaram a socialização profissional, seria fruto da transição, geralmente abrupta, da formação inicial ao primeiro emprego e, nas palavras de Veenman (1988, p.40):
En general, este concepto se usa para indicar el colapso de los ideales misioneros elaborados durante la formación del profesorado con la cruda y dura realidad de la vida cotidiana en clase.21
Desta forma, o ‘choque de realidade’ é sentido quando a realidade da escola e da sala de aula não se identificam, pelo menos de maneira direta, com aquela que idealizamos durante a formação.
Muitas podem ser as divergências entre o ideal e o real: as crianças, que não são como esperávamos e não têm interesse em aprender o que achamos que elas precisam aprender; os colegas, que não são como os da faculdade e não partilham dúvidas, dificuldades e acertos; o diretor, que pode ser mais centralizador ou ausente do que esperávamos; os pais das crianças, que não querem saber de perguntar como podem ajudar seus filhos em casa ou não providenciam o material dos seus filhos (o que pode ocorrer por inúmeros motivos compreensíveis, mas que ainda assim não correspondem ao nosso ideal); o conhecimento dos conteúdos e o conhecimento pedagógico dos conteúdos, que se mostra insuficiente quando, com uma pergunta uma criança desestabiliza toda nossa explicação sobre o ‘vai um’, numa adição, entre infinitas possibilidades.
19 A esse respeito, citam-se as pesquisas de Guarnieri (1997), Marcelo Garcia (1998/1999) e Tardif e
Raymond (2000), entre outros.
20 Em anexo, roteiro das entrevistas realizadas com a professora Vera – anexo 3.
21 Tradução livre: Em geral, este conceito é usado para indicar o colapso dos ideais missionários elaborados
Os dados da presente pesquisa indicam que para Vera o ‘choque de realidade ‘ foi presente nos dois anos em que a acompanhamos, com maior impacto no segundo ano, o que ela indica ao falar sobre a desilusão com seus anos iniciais. O excerto abaixo reproduz nossa conversa:
Vera: Eu acho que por causa da desilusão. Sabe, eu penso: Será que vale a
pena?
Ths: Você acha que os seus anos inicias, os seus dois primeiros anos de
magistério, fazem com que você não esteja disposta (a investir nas práticas
pautadas na intermulticulturalidade) ou a desilusão é com outras coisas?
Vera: Não, eu acho que a desilusão é com os meus dois anos (frisa o final da
frase falando pausadamente). (Trecho da 2ª sessão de entrevista).
Vera tinha muito bem definidos seus ideais de aluno, de Direção, de colegas de trabalho, de pais de alunos, de professor e de escola; os dados da primeira e segunda sessões de entrevista mostram como a professora os definia. O aluno ideal seria ‘aquele que
sabe fazer tudo o que eu peço, que acompanha, que consegue’. A Direção ideal ‘acompanha as aulas, olha os cadernos das crianças (...) e se dispõe a ajudar, com materiais e com outras coisas’. O professor ideal seria ela mesma, se ela ‘conseguisse (...) observar, acompanhar, passar perto, ajudar...com todos’. A família ideal deveria ‘ajudar no dever de casa, olhar o caderno, perguntar para as crianças todos os dias como é que foi a aula’, entre outras coisas. Já os colegas de trabalho ideais seriam aqueles que ‘se preocupam em compartilhar as coisas’. A escola particular em que Vera lecionava no
período da manhã foi indicada por ela como a escola ideal, justificando que lá ‘as crianças
têm atividade dentro da escola, tem atividade fora da escola (...) vão nas exposições que tem em São Paulo, nas exposições da OCA22’. (Trechos da 2ª sessão de entrevista)
Na última sessão de entrevistas, numa conversa sobre armadilhas ideológicas, falamos sobre a rigidez de seu padrão de aluno e Vera falou: ‘É que eu não vejo os meus
alunos como alunos, eu vejo meus alunos comparando com o que eu queria que eles fossem’ (Trecho da 5ª sessão de entrevista).
Tais concepções, principalmente a do aluno ideal e a de escola ideal, que refletem um aluno que tem acesso a atividades extra-escolares, influenciavam as práticas da professora, o que poderá ser mais bem percebido na Parte II deste texto. Contudo, gostaríamos de
22 Escola particular de Educação Infantil e Ensino Fundamental da cidade de São Carlos que promove,
anualmente, uma Feira de Conhecimentos aberta à comunidade. Vera citou, numa das entrevistas, o corpo humano que foi apresentado nesta feira em 2006.
destacar que essas idealizações da professora poderiam ser um dos fatores que a levaram a sentir o ‘choque de realidade’ com tamanha intensidade.
A esse respeito, Veenman (1988) indica que as possíveis causas que levam ao choque de realidade podem envolver fatores pessoais e situacionais. Os problemas pessoais estariam relacionados a um desencanto com a profissão, por essa não satisfazer necessidades pessoais; a características pessoais inadequadas à profissão, e a formação inadequada.
As relações interpessoais travadas na escola, principalmente quando envolviam a Direção e os colegas de trabalho, indicavam que o jeito um tanto assertivo23 de Vera parecia ser uma característica pessoal que dificultava suas relações profissionais.
O desencanto com a profissão foi expresso pela professora em conversas informais durante as observações na escola urbana central, nas entrevistas e no questionário respondido por ela no início do seu segundo semestre de trabalho na escola urbana central. Como já destacado, neste questionário a professora disse não estar ‘realizada com a idéia
que tinha de escola, de trabalho coletivo’ (Questionário respondido pela professora).
Já os problemas situacionais indicados por Veenman (1988) estariam relacionados com alguns fatores como: relações hierárquicas, estruturas organizativas rígidas, corpo docente inadequado, escassez de materiais e recursos, ausência de objetivos educacionais explicitamente estabelecidos, solidão no lugar de trabalho, pais que enfatizam a transmissão de conhecimentos, multiplicidade de tarefas do professor e alunos habituados com um ensino autoritário.
Dentre tais fatores, Vera se incomodava, sobretudo, com as relações entre a Direção e os professores e entre os próprios professores. Inúmeras vezes a professora citou o desejo de compartilhar com os colegas e o desagrado com as relações estabelecidas entre os profissionais da escola, principalmente na escola urbana central, que a faziam sentir uma certa solidão profissional.
Autores como Sarmento (1994) e Valli (apud Marcelo Garcia, 1999, p.114) indicam a solidão profissional como um problema que aflige aos professores iniciantes e que contribui para o choque de realidade. Pesquisas, como a de Corsi (2006), e análises da própria prática, como as de Mariano (2006) e de Monteiro (2006) indicam claramente como tal
23 Este jeito assertivo é aqui compreendido como um jeito direto e explícito – em algumas vezes agressivo -
que Vera tinha para dizer o que pensava, sem eufemismos ou tentativas de ‘abrandar’ o dito. Cabe destacar que não estamos utilizando o conceito de assertividade da Psicologia.
sentimento causa um ‘mal estar’ nos professores, como escreve Lima (2006), ao analisar os textos dos três autores acima citados.
Ao comparar como se sentia na escola rural e na escola urbana central, Vera evidencia o que sentia:
Lá (escola rural), como era meu primeiro ano, eu me sentia desamparada em apoio pedagógico, mas entre conhecidos...porque tinha as minhas amigas. Agora aqui (escola urbana central), eu me sinto ainda desamparada pelo apoio pedagógico, que não tem; ninguém nunca aparece na minha sala pra falar: ‘Como é que está? Está precisando de alguma coisa? Pensei nisso, veja se isso você acha legal?’. A não ser uma ou outra vez que a Alice e a Catarina...uma vez a cada dois meses na reunião. E aqui, nem as minhas amigas eu tenho. Aqui é só a proximidade da minha casa... é só. (Trecho da 4ª sessão de entrevista).
Cabe destacar que, de acordo com o que afirma Veenmam (1998), um dos fatores que agravou tal situação no seu segundo ano de magistério, na escola urbana central, foi o fato de lecionar na primeira série cujas crianças foram agrupadas como as ‘mais fracas’.
Este contexto levava Vera a vivenciar muito mais a sobrevivência que a descoberta, dois sentimentos indicados por Huberman (2000, p.39) como fazendo parte do início da docência. Segundo o autor, os professores e professoras em início de carreira teriam esses sentimentos de forma concomitante. A descoberta relacionar-se-ia com o fato de estar com sua própria turma, de ser profissional, de adentrar a carreira, enquanto aspectos positivos. E a sobrevivência estaria relacionada com as agruras, a solidão, as dificuldades no trato com os conteúdos, com a indisciplina das crianças, a distância entre ideal e real, a fragmentação do trabalho, o tatear constante, e as relações demasiado íntimas e demasiado distantes (Huberman, 2000, p.36).
Na terceira sessão de entrevistas, Vera foi convidada a fazer um exercício de livre associação. Eu citava alguma coisa relacionada à profissão docente e ela deveria indicar no que havia pensado, numa espécie de brincadeira de Ping-Pong. Ao falar sobre ‘sala de aula’, claramente podemos perceber sobrevivência e descoberta juntas:
Ths: Com que você compara a profissão de professor? Qual é a sua metáfora
para a profissão de professor?
Vera: Sabe o que veio na minha mente primeiro...inferno! (risos) Ths: Com que você compara a sala de aula?
Vera: Que horror, né?!? Sala de aula? Então, eu acho que é uma mistura de
inferno e de prazer porque quando você está naqueles dias que quer desistir de tudo é um inferno, mas tem hora que é tão bom, tão legal.
Os dados teóricos apresentados e as falas da professora exemplificam como Vera vivenciava os aspectos peculiares ao início da docência. Podemos perceber que uma das queixas da professora relaciona-se à solidão profissional e ao seu descontentamento com o trabalho coletivo e com a relação com os colegas e seus superiores.
A aprendizagem do ‘como me relacionar com os colegas de trabalho?’; do ‘como me relacionar com os hierarquicamente superiores?’ e tantas outras aprendizagens que tocam as relações interpessoais no ambiente de trabalho são aprendizagens que são iniciadas no momento de inserção numa profissão. Assim como em outras profissões, como médicos, enfermeiros etc, os professores passam por um processo de socialização profissional, que focaremos no item seguinte.