Chapter 1. General Introduction
1.2 Thesis Outline
Analisando a trajetória profissional dos entrevistados, é possível compreender que “A construção das identidades se realiza, pois, na articulação entre os sistemas de ação, que propõem identidades virtuais, e as trajetórias vividas, no interior das quais se formam as identidades reais às quais os indivíduos aderem" (DUBAR, 2005, p.140).
A construção das identidades se realiza por meio da articulação entre as instituições e os sujeitos e seus sistemas de ação – identidades virtuais e trajetórias vividas – nesse processo se formam as identidades reais; trata-se de uma articulação que é dialética, que pode ser entendida como a interação entre o sujeito e as instituições sociais (DUBAR, 2005).
O acesso dos sujeitos participantes do estudo ao cargo de Supervisores de ensino, independente de sua atuação do campo da coordenação ou direção de ensino, faz-se inicialmente pela docência13. A exigência inicial para ingresso é ter
licenciatura em alguma área; isto é, a base para a supervisão é a docência, sendo também considerado tempo de serviço em coordenação e direção de ensino.
A Supervisão de ensino não constitui a primeira escolha profissional para os sujeitos "A", "B" e "C", que relatam que não tinham a pretensão de tornarem-se Supervisores de Ensino:
Não estava nos meus planos tornar-me Supervisor de Ensino. [...]14 o ingresso na supervisão deve-se à precariedade funcional na atuação como professor. [...] eu tinha que lecionar em várias escolas para exercer minha profissão; a atuação na supervisão permite uma visão mais ampla do processo educacional, é difícil de construir enquanto professor. (SUPERVISOR "A")
13 De acordo com o Anexo III da Lei Complementar nº 836, de 30 de dezembro de 1997, são
requisitos para o provimento do Cargo de Supervisor: - ter no mínimo 8 (oito) anos de exercício, efetivamente prestado no Magistério, desde que exercido em escola devidamente autorizada e reconhecida pelo órgão do respectivo sistema, dos quais 2 (dois) anos no exercício de cargo ou função de suporte pedagógico educacional ou de direção de órgãos técnicos, ou ter, no mínimo, 10 (dez) anos de Magistério; - ser portador de pelo menos um desses títulos: diploma, devidamente registrado, de licenciatura plena em Pedagogia; de Mestrado ou Doutorado, na área de Educação; - certificado de conclusão de curso de especialização na área de educação, destinado a licenciados, criado e aprovado nos termos de normas específicas do Conselho Estadual de Educação.
14 As supressões nos depoimentos foram realizadas para não incorrer na identificação do sujeito e,
No início da minha carreira docente eu não idealizava o trabalho na
supervisão. Foi depois de eu ter iniciado o trabalho como coordenadora do
núcleo pedagógico que eu passei a conceber a possibilidade de atuar na supervisão. Eu fui aprendendo ao ensinar os outros professores da escola e, quando passei a trabalhar no núcleo pedagógico da Diretoria de Ensino, pude interagir com muitos outros coordenadores e essa interação foi um estimulante intelectual, para eu continuar pesquisando sobre as melhores formas de orientar a formação de outros profissionais. Quando eu ingressei na supervisão eu tinha experiência na formação docente como coordenadora dentro da escola. (SUPERVISOR "B")
No início de minha carreira docente eu não idealizava a profissão de
Supervisor de Ensino. Depois que eu fiz o curso de Pedagogia e passei a
ocupar a função de vice-diretor eu passei a almejar a carreira de supervisor. (SUPERVISOR "C")
Do relato do Supervisor "A", emerge uma experiência profissional marcante que pode ser identificada à luz do mecanismo de “instalação da dualidade” de Hughes (1958), o qual Dubar (2005), fundamentado nesse autor, explica que ocorre uma dualidade entre o modelo ideal – dignidade da profissão – e o modelo prático – tarefas cotidianas e os trabalhos. É no processo de socialização profissional que ocorre a escolha de papéis, visto que são momentos em que se dá a interação com um grupo de referência. Trata-se de uma projeção pessoal em uma futura carreira; isto é, uma identificação antecipada.
Essa projeção pessoal por identificação com os membros de referência decorre do que Dubar (2005) chama de uma “frustração relativa”, decorrente de uma comparação com os membros que dispõem de “status social” superior. Dessa forma, o Supervisor "A" afirma que não estava em seus planos se tornar supervisor; em seguida, refere-se à precariedade da condição docente para explicar sua opção pela supervisão.
Os Supervisores "B" e "C" explicam que sua inserção na supervisão não se deu por idealização profissional e nem tampouco por projeção na carreira, mas pelas experiências prévias e pelo contato com os profissionais da área ao longo do percurso profissional. Sublinham a experiência na área de gestão educacional como marco de referência para a inserção na profissão.
O Supervisor "F", por sua vez, destaca a influência do Curso de Pedagogia e a interação com os supervisores como influências diretas na escolha.
[...] eu não idealizava e nem pensava em ser Supervisor de Ensino, posteriormente, com o contato que estabeleci com os professores do Curso de Pedagogia, é que eu comecei a adquirir a vontade de pesquisar e
estudar mais sobre o campo educacional. O contato com grandes mestres da Pedagogia e com os Supervisores, no exercício da vice-direção, influenciou o meu interesse pelo trabalho do Supervisor de Ensino. Mas eu não tracei nenhum objetivo, pois eu lecionava [...] e tinha o objetivo de fazer o Mestrado e o Doutorado. Quando se está atuando na vice-direção e depois na direção da escola, nós temos contato diário com os Supervisores e esse contato faz com que se pense na possibilidade de fazer concurso para a supervisão. (SUPERVISOR "F")
Contextualizando o pensamento de Dubar (2005, p.148), é possível entender que a identidade do Supervisor "F" é influenciada por dois acontecimentos importantes: “a graduação em Pedagogia" e a "inserção no mundo do trabalho". A licenciatura em Pedagogia possibilitou a aquisição de conhecimentos, que são significativos para a constituição da identidade do Supervisor. A interação socioprofissional, sobretudo, fornece elementos para as transações objetivas e subjetivas, que são estruturantes da constituição das identidades.
Eu idealizava na própria trajetória, desde docente até o trabalho realizado como vice-diretor; naturalmente eu ia pensado a possibilidade de fazer concurso para Supervisor; o contato, mesmo superficial com outros Supervisores, possibilitou a reflexão sobre a possibilidade de atuar na profissão de supervisor. (SUPERVISOR "D")
Sim, sempre gostei da área da Educação e todo o meu percurso profissional foi projetado para a evolução funcional, não porque eu veja a evolução funcional em termos de status, mas sim por que entendo que existem possibilidades de crescimento intelectual na medida em que se tem a oportunidade de conciliar os estudos que se faz com o exercício de funções profissionais na educação; ou seja, atuar como professor foi muito importante para conviver e aprender ao mesmo tempo em que se ensinava aos alunos. Contudo, na coordenação pedagógica da Diretoria de Ensino eu tive a oportunidade de continuar trabalhando com a formação de professores. (SUPERVISOR "E")
Dos relatos dos Supervisores "D" e "E" emergem dois fatores: a atuação profissional prévia na gestão escolar e a intenção de progressão na carreira. As motivações que estiveram na origem da opção profissional foram extrínsecas à projeção na carreira. Mas também emerge dos dados a influência de outros significativos15 (Supervisores de Ensino).
É interessante notar que, dentre os seis entrevistados, em três sujeitos – "D", "E" e "F" – a identificação com a profissão se deu pelo contato com os Supervisores de Ensino.
Esses dados relacionam-se com a literatura; conforme apontado por Berger e Luckmann (2011), a experienciação das vivências pode ser conservada na consciência e projetada para futuras ações. Em outras palavras, “[...] Na socialização secundária o contexto institucional é em geral percebido. Não é preciso dizer que isto não implica a requintada compreensão de todas as implicações do contexto institucional” (BERGER e LUCKMANN, 2011, p. 183).
Em síntese, as análises das trajetórias biográficas profissionais dos Supervisores permitem o entendimento de que o processo de construção da identidade está articulado às interações socioprofissionais e, ainda, que a incorporação ativa das identidades só pode ser entendida na dialética das trocas simbólicas entre os sujeitos, no mundo do trabalho.