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In document The Structure of Quark Stars (sider 84-0)

Ao abordamos o conceito de letramento, termo ainda desconhecido por grande parte dos profissionais da educação, é necessário distinguirmos as duas perspectivas subjacentes a essa concepção.

A primeira o vê como sinônimo de desenvolvimento cognitivo, isto é, aponta que o desenvolvimento da linguagem e do pensamento se dá após o acesso aos textos escritos. Assim, ser letrado significa possuir esse desenvolvimento (MATENCIO, 1994). Já a segunda conceitua o letramento como advento das multiplicidades sociais e culturais.

Desse modo, havendo diferentes sociedades e, consequentemente, formas distintas de se conceber a escrita, muitos são os tipos de letramento.

Essa segunda perspectiva, mais abrangente, surgiu como uma tentativa de se separar, dentro dos estudos relacionados à escrita, aquilo que mantém uma conotação individual daquilo que é de caráter social, configurando a teoria do letramento como

prática social. (KLEIMAN, 1995). Tal teoria procura focalizar a escrita em sua

pluralidade, compreendendo os seus usos e impactos sociais.

Em contrapartida, na primeira perspectiva, o letramento está encerrado em uma visão reducionista na qual a escrita está a serviço das capacidades individuais dos sujeitos, isto é, o aspecto social que permeia as práticas e usos da escrita não é distinguido nessa visão de letramento.

Na teoria do letramento como prática social, a alfabetização, tão comumente confundida como sinônimo de letramento, é vista apenas como um tipo de prática. Por prática de letramento, entende-se ser aquela cujas bases estão pautadas no uso da escrita.

Sendo assim, a alfabetização passa a ser conceituada como um tipo de letramento de caráter individual, uma vez que abrange tão somente aspectos relacionados a aquisição de uma habilidade, a de ler e escrever, ou seja, trata-se de uma tecnologia de decodificação e codificação de fonemas e grafemas.

Já o letramento é um conceito utilizado para investigar aspectos individuais e sociais relacionados à escrita. Nesse sentido, envolve aqueles sujeitos ditos alfabetizados, como também aqueles que não possuem a tecnologia da escrita, os denominados analfabetos, pois estes também estão envolvidos em práticas sociais mais amplas permeadas pela escrita.

Na realidade, Street (2003) define o letramento em dois modelos, um denominado autônomo e outro ideológico. No modelo autônomo o letramento é visto como uma técnica que possibilita aos sujeitos, de posse da tecnologia da escrita, fazer o que desejarem com esse dito letramento, pois esse modelo supõe que, de forma autônoma, o letramento terá “efeitos sobre outras práticas cognitivas e sociais.” (idem, p.4). É o que postula, também, a perspectiva onde o letramento é visto como sinônimo de desenvolvimento cognitivo.

Diferentemente, no modelo ideológico, as práticas de letramento nunca são vistas com neutralidade, uma vez que ao conceito agregam-se princípios epistemológicos socialmente construídos (idem, ibidem). Esse modelo, então, é mais amplo que o primeiro, revelando toda a dimensão social embutida em qualquer prática de letramento. Nesse caso, temos o modelo de letramento que segue a perspectiva que o coloca como prática social.

Diante disso, enquanto é possível classificar um sujeito em alfabetizado e analfabeto utilizando o critério de se possuir ou não a mecânica da escrita, não se pode estabelecer o letrismo ou iletrismo, pois mesmo não estando de posse dessa mecânica da escrita o sujeito pode participar de eventos de letramento, ou seja, eventos mediados pela língua escrita.

Um exemplo de participação de pessoas analfabetas em eventos de letramento é o caso dos sujeitos adultos que fazem uso da escrita por meio de outras pessoas, solicitando que leiam cartas ou as redijam. Podemos citar, também, crianças que ainda não sabem ler e escrever, mas compartilham da leitura de estórias infantis com seus pais.

É nesse sentido que Tfouni (2002) afirma não haver o letramento “grau zero” (idem, p. 23). Segundo a autora, é preciso considerar que existem graus ou níveis de letramento, que serão determinados pelas práticas sociais nas quais os sujeitos estão envolvidos, devendo o conceito ser entendido em termos de um “continuum” (idem, p. 25).

Ribeiro (2004) também corrobora essa consideração que vê a análise do letramento em relação aos seus níveis e graus. De acordo com a autora, “saber ler e escrever não é uma questão de tudo ou nada, mas uma competência que pode ser desenvolvida em diversos níveis” (idem, p. 15).

Relacionar a abordagem do letramento a níveis e graus, no entanto, não é unânime entre os estudiosos do assunto. Para Kleiman

o letramento é um processo em curso na vida dos membros das comunidades da sociedade contemporânea. Um sujeito participa dos eventos de letramento dos grupos a que pertence, de forma diferenciada, mais centralmente ou mais perifericamente, independentemente ou não. Nessa perspectiva, portanto, não faz sentido falar em níveis de letramento dos sujeitos. (Parecer qualificação do Projeto de Pesquisa, grifos nossos).

Assim, de acordo com a autora, há maneiras diferentes de participar dos eventos de letramento, de forma mais central ou mais periférica, mas não se pode definir que um sujeito tem um nível ou grau de letramento mais elevado que outro, uma vez que são muitas as formas em que pode se dar a participação em uma prática letrada.

Por outro lado, essa mesma autora, ao considerar o letramento como um processo, identifica a sua tese com as demais que o vêem como um continuum, como um fenômeno aberto e em constante transformação.

É nesse sentido de continuidade, de diferentes tipos, usos e impactos sociais, que a perspectiva do letramento como prática social fundamenta nossa pesquisa, pois, considerando-o como um processo que acompanha o sujeito no decorrer de sua vida, interessa-nos analisar como o trabalho desenvolvido com estudantes do ensino médio pode colaborar para o seu processo de letramento.

Ressaltamos, no entanto, que não descartamos a idéia de que o letramento pode ser analisado em termos de níveis ou graus, pois entendemos que essa classificação, geralmente utilizada por pesquisas que aferem as habilidades de leitura e escrita da população, permite que enxerguemos como são latentes os problemas relacionados ao uso competente da escrita.

Ademais, por trás desta pesquisa cujo objetivo é analisar o trabalho com o texto no contexto do ensino médio, etapa da escolarização em que se pressupõe alunos que tenham alcançado nível ou grau elevado de letramento, há a preocupação com a incidência de alunos que, apesar de concluintes da educação básica, apresentam graves problemas em relação ao uso da escrita. Esse assunto será retomado na próxima seção.

Ainda dentro da perspectiva do letramento como prática social, Barton et al (apud SOUSA, 2003) definem a natureza do letramento em seis proposições, a saber:

1. O letramento é melhor entendido como um conjunto de práticas sociais; essas podem ser compreendidas como eventos que são mediados pelos textos escritos.

2. Há diferentes letramentos associados a diferentes domínios sociais. 3. As práticas de letramento são padronizadas por instituições sociais e relações de poder. Alguns letramentos são mais dominantes, são mais visíveis, e influenciam mais que outros.

4. As práticas de letramento são direcionadas e encaixam-se em metas sociais amplas e em práticas culturais.

5. O letramento é historicamente situado.

6. As práticas de letramento transformam-se e novas práticas são frequentemente acionadas por meio de processos de aprendizagem formal e informal.

Os autores complementam afirmando que as práticas de letramento são processos sociais que envolvem “valores, atitudes, sentimentos e relacionamentos sociais”(idem, p.143). Além disso, definem que as práticas de letramento serão melhor compreendidas se analisadas dentro das relações entre pessoas, grupos ou comunidades, do que como propriedades individuais.

Em nossa investigação, então, entendemos que o trabalho com o texto realizado em salas de aula do ensino médio envolve práticas de letramento situadas, de diferentes tipos. Consideramos, também, que são práticas de letramento dominantes visto que a escola é considerada a maior agência de letramento que existe na sociedade.

As relações entre as práticas de letramento e o processo de escolarização serão tratadas na próxima seção.

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