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Em relação ao ditador de O outono do patriarca, no avançar de sua velhice, ele passa a se esquecer de suas lembranças, e “só lhe restavam nas torneiras da memória umas quantas migalhas soltas dos vestígios do passado” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.123).240 Restavam apenas algumas lembranças de um passado distante, misturadas em sua memória. Desse modo, o patriarca “arrancava as margens dos processos e neles escrevia com letra floreada os resíduos restantes das últimas lembranças que o preservavam da morte, uma noite havia escrito que eu me chamo Zacarias” (GARCÍA

239 RICOEUR, 2007, p.54.

240 “sólo le quedaban en las troneras de la memoria unas cuantas piltrafas sueltas de los vestigios del

MÁRQUEZ, 1993, p.124).241 Pode-se depreender desse trecho que o ditador, ao temer o esquecimento de si mesmo, tentava escrever tudo o que conseguisse recordar de um tempo passado para salvar essas lembranças do esquecimento. Entretanto, no livro, o nome “Zacarias” nunca é mencionado como o nome do ditador, aparecendo apenas nesse momento do livro. Assim, não se pode afirmar se esse seria realmente o nome do patriarca.

O ditador, no avançar de seu “outono”, sofre também com a deterioração de seu corpo. Ele ouve cada vez menos a algazarra dos pássaros nas gaiolas e joga fora a comida que lhe servem, para dissimular a humilhação de que o estômago recusava tudo. O pessoal de serviço da casa foi reduzido ao mínimo, para que não houvesse testemunhas das tantas infâmias da idade que enfrentava. Sentava-se em sua cadeira de balanço de vime, com plantas medicinais nas têmporas, sob a luz do caramanchão, e se punha a recordar o que temia ter esquecido sobre si mesmo e seus tempos de glória. Assim,

Seus únicos contatos com a realidade deste mundo eram então umas quantas migalhas soltas de suas maiores lembranças, só elas o mantiveram vivo depois que se despojou dos assuntos do governo e ficou nadando no estado de inocência do limbo do poder, só com elas enfrentava o sopro devastador de seus anos excessivos (...) (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.124).242

O ditador se esforçava para recordar de sua legítima esposa, Letícia Nazareno, escrevendo, o pouco que se lembrava dela, em papeizinhos. Ele se esforçava para recordar a imagem pública da esposa, envolta em sua pele de raposa com a sombrinha de tafetá. Depois enrolava as tiras de papel amarelado e escondia nos resquícios mais improváveis da casa, onde ninguém pudesse encontrá-las. Tal atitude era para “lembrar- se de quem era ele mesmo quando já não pudesse lembrar-se de nada” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.125).243 Então chegou um momento em que “inclusive a imagem

241 “arrancaba los márgenes de los memoriales y en ellos escribía con su letra florida los residuos

sobrantes de los últimos recuerdos que lo preservaban de la muerte, una noche había escrito que me llamo Zacarías” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.147).

242 Sus únicos contactos con la realidad de este mundo eran entonces unas cuantas piltrafas sueltas de sus

recuerdos más grandes, sólo ellos lo mantuvieron vivo después de que se despojó de los asuntos del gobierno y se quedó nadando en el estado de inocencia del limbo del poder, sólo con ellos se enfrentaba al soplo devastador de sus años excesivos (…) (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.146-147).

243 “acordarse de quién era él mismo cuando ya no pudiera acordarse de nada” (GARCÍA MÁRQUEZ,

de Letícia Nazareno terminou de deslizar pelos desaguadouros da memória” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.125).244

O patriarca, para se lembrar da esposa, escreve o nome dela numa tira de papel, o que se aproxima do modo mnemônico de Casey, comentado por Ricoeur, denominado

Reminding – algo que funciona como indício para lembrar-se de outra coisa. Os

rolinhos de papel que o patriarca guardava nas frestas das paredes da casa presidencial, para que só ele os encontrasse, também serviriam para que ele se lembrasse de si mesmo.

A imagem, que García Márquez utiliza para se referir à memória, como se essa fosse um reservatório de água, é bastante interessante. A memória é considerada como um local onde as lembranças estão depositadas, mas que quando tem suas torneiras abertas, deixa escapar as lembranças de forma irrecuperável, pois são como água corrente. Retoma-se, assim, a frase de Ricoeur que diz estar a memória no singular, pois ela é capacidade, efetuação, e as lembranças, no plural, pois “temos umas lembranças”.

Mas o esforço do patriarca em escrever o que não queria que fosse esquecido acaba por ser em vão, pois percorria o palácio em busca de seus frascos de mel, escondidos por ele mesmo, e encontrava por engano seus rolinhos de papel, com anotações de outra época, que nem ele mesmo sabia identificar. Assim, encontrava escrito em papéis amarelados as palavras: “Letícia Nazareno da minha alma” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.191),245 e já não se lembrava mais quem tinha sido aquela mulher, mas sabia que aquela letra era a sua.

O ditador percebia que de nada adiantava esconder os papeizinhos enrolados nas frestas das paredes, pois “havia terminado por esquecer o que era que devia recordar” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.243).246 Ele passa a se lamentar de sua situação naquele momento, confrontando-a com seu passado de glória. Assim, dizia:

(...) um homem como eu que era capaz de chamar pelo nome e sobrenome a toda uma população das profundezas do seu desmesurado reino de pesadelo, e entretanto havia chegado ao extremo oposto (...) (GARCÍA MÁRQUEZ, 1993, p.243).247

244 “inclusive la imagen de Leticia Nazareno acabó de escurrirse por los desaguaderos de la memoria”

(GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.148).

245 “Leticia Nazareno de mi alma” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.225).

246 “había terminado por olvidar qué era lo que debía recordar” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.286). 247 (…) un hombre como yo que era capaz de llamar por su nombre y su apellido a toda una población de

las más remotas de su desmesurado reino de pesadumbre, y sin embargo había llegado al extremo contrario (…) (GARCÍA MÁRQUEZ, 2005, p.286-287).

Márcia Hoppe Navarro já havia atentado para a “perda de memória” sofrida pelo patriarca, interpretando-a como o prenúncio de seu aniquilamento. O ditador não só é incapaz de lembrar a sua história, como também quer eliminar tanto o seu passado quanto o do povo. Essas atitudes funcionam como uma maneira de manter estável a ordem vigente. A autora defende que, na obra, enquanto o patriarca sofre com o esquecimento de suas lembranças, simultaneamente, os personagens – considerados por ela como representantes do povo – iniciam um processo de recordação e formação de uma memória comum. O povo torna-se consciente de seu papel como sujeito histórico. A metáfora que García Márquez utiliza para descrever esse processo que se inverte é, na opinião da autora, a menção aos cegos, paralíticos e leprosos que vivem no entorno do palácio presidencial e que ao final da narrativa são curados. Tais pessoas representariam o povo vivendo sob um regime de opressão e decadência que, passando a se engajar em processos de luta social, nasceriam enquanto entidade política.248

O presente trabalho está de acordo em parte com a análise de Márcia Hoppe Navarro. Assim, concorda-se com o fato de que o esquecimento do patriarca em relação às suas lembranças está relacionado ao seu deterioramento, prenunciando o seu aniquilamento, e também com a afirmação de que o controle da história oficial por parte do patriarca é uma forma de manter o regime em vigor. Porém, esta dissertação não compartilha com a autora a ideia de que enquanto o patriarca se deteriora, os personagens tomam consciência de seu papel como sujeitos históricos. A análise de Navarro baseia-se na seguinte premissa: no início do romance, os personagens e o narrador acreditam nos poderes do patriarca e são submissos a ele, mas com o passar do romance, eles adquirem a consciência necessária para reverter o processo. Já a análise empreendida neste trabalho parte do pressuposto de que, durante todo o livro, o narrador lança mão da ironia para construir e destruir a imagem do patriarca, de forma que, desde o início da narrativa, os personagens não acreditam nos poderes do ditador, pois o narrador é irônico ao afirmar que sabiam que ele era o predestinado para governar os destinos de todos.249

O patriarca também tenta forjar as lembranças de seu próprio passado. Na dúvida se as lembranças que tinha eram de sua infância ou se eram histórias contadas nas noites de febre das guerras, ele pensava que nada daquilo importava, pois todos veriam que, com o tempo, a verdade seria aquilo que ele desejasse. Assim, a sua

248 NAVARRO, 1989.

infância não corresponderia às incertezas que tinha vivido ao lado de sua mãe Bendición Alvarado, mas sim, os momentos que passou com Letícia Nazareno, que o ensinava a ler e a escrever todas as tardes, em um banquinho escolar, sob a sombra dos amores- perfeitos.250