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- Theory and Analytical Framework

EPISTEMOLÓGICOS

Um dos primeiros textos a abordar o fenômeno da ambigüidade no discurso é de Aristóteles99 que associa o fenômeno ao uso unívoco de um termo com sentidos diferentes, pois um sentido não se aplicaria a outro, e neste caso seria necessário diferenciar os dois sentidos de um mesmo termo. Portanto, a definição de um termo não deve ser generalizada, seus sentidos se relacionam ao seu uso em contexto, sendo possível igualar os dois sentidos se eles forem sinônimos. Neste caso, também pode ocorrer ambigüidade quando não há discrepância entre os sentidos, mas o uso de um termo para se referir a diferentes espécies de acepções, por exemplo o uso do termo “claro” para se referir a um som ou uma cor. O sentido é diferente mas um uso não exclui o outro, é preciso apenas que eles se diferenciem no contexto em que são usados. Algumas “expressões cujos significados são muitos, porém não diferem devido à ambigüidade de um termo, e sim de outra maneira”.100

97 O conceito de experiência está baseado no conceito desenvolvido por Benjamin (1986) e será desenvolvido no capítulo 3 da fundamentação teórica. Para fins de definição, utiliza-se o termo ‘experiência’ com o significado de “conhecimento adquirido com a prática e a vivência emocional que é subjacente a esse conhecimento acumulado” (AMATUZZI, 2007), integrando neste conceito tanto a experiência coletiva compartilhada quanto a individual e privada. Cf.: AMATUZZI, M. Experiência: um termo chave para a Psicologia. Revista Memorandum, n. 13, p. 8-15, 2007. Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a13/amatuzzi05.htm>. Acesso em: jun. de 2009.

98 BARBIERO, Alan. Brasis ou Brasil?: reflexões para uma sociologia da ambigilidade brasileira. Coleção Universidade e Sociedade. ANDES, v. 9, n. 20, p. 11-14, 1999. p. 14.

99 ARISTÓTELES. Tópicos: dos argumentos sofísticos. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 178. 100 ARISTÓTELES. Tópicos: dos argumentos sofísticos. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 63.

Para Aristóteles a presença de diferentes definições de um mesmo termo, termo este que pode ser usado de forma a dar diversos sentidos, precisa sofrer uma distinção para impedir que o leitor universalize o termo. Para Aristóteles101 “uma regra ou lugar no tocante à obscuridade é ver se, o significado que a definição tem em vista, envolve uma ambigüidade em relação a algum outro”. Ou seja, se o ouvinte não usa qualquer uma das definições dadas pelo autor, então podemos dizer que não foi possível defini-lo corretamente.

Para o autor há uma relação paralela entre ambigüidade e “falsa aparência”. Para Aristóteles102 “há dois tipos de refutação, pois algumas dependem da linguagem usada e outras são independentes da linguagem. As maneiras de produzir uma falsa aparência de argumento são em número de seis: há a ambigüidade, a anfibologia, a combinação, a divisão de palavras, a acentuação e a forma de expressão”. Desta forma, Aristóteles privilegia a análise da ambigüidade como fenômeno a ser diferenciado para que a categorização dos sentidos ocorra de forma estável e compreensível para todos que a interpretam.

Para Aristóteles103 “destas ambigüidades e anfibologias existem três variedades:

1) quando o nome ou a expressão significam propriamente mais de uma coisa, como a "águia" (a ave ou a insígnia) ou o "cão" (o animal ou a constelação). Na cooperativa surgiu uma ambigüidade semelhante: “ele faz umas quatro viagens”, sendo “viagem” como o deslocamento no território, e “viagem” como sendo o frete cobrado para levar a carga;

2) quando, por hábito, os chamamos assim, mas no contexto formal tem outro significado: “Se eu conseguisse encostar era mais fácil né? Aí tudo mais... caía um troco e eu ajudava em casa, não tinha tanta coisa... mais assim, eu num consigo”. Para a cooperada, encostar significa ser aposentada e receber o benefício do INSS. Entretanto, formalmente, no dicionário, o termo tem outros sentidos como: apoiar, fechar, aderir, etc.;

3) quando termos que em si mesmos tem um só sentido assumem um duplo significado ao combinar-se, por exemplo, "o conhecimento das letras". Pois cada um destes termos, "conhecimento" e "letras", tem possivelmente um só significado, mas ambos juntos têm mais de um: “ou que as próprias letras possuem conhecimento, ou que alguém tem conhecimento delas”. Na cooperativa tem como exemplo esta fala de um cooperado: “oh, negócio é o seguinte: o cara tem um pedido de dez mesas a R$ 80,00(oitenta)”. Esta fala pode significar que ele (“o cara”) fez um pedido para outra pessoa como pode significar que ele (“o cara”) recebeu um pedido.

Com os estudos de Aristóteles iniciou um processo de diferenciação entre duas concepções que estão presentes ainda hoje nos estudos lingüísticos e das significações: uma que parte do discurso para analisar a estrutura e que vê a linguagem como um instrumento de produção de uma linguagem pura, livre de múltiplas interpretações; e outra que aceita elementos extralingüísticos no estudo do discurso, e que portanto, compreende a multiplicidade de interpretações como parte do processo discursivo. A partir desta separação no estudo lingüístico,

101 ARISTÓTELES. Tópicos: dos argumentos sofísticos. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 153. 102 ARISTÓTELES. Tópicos: dos argumentos sofísticos. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 231. 103 ARISTÓTELES. Tópicos: dos argumentos sofísticos. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 232.

a ambigüidade também é interpretada nestes dois vieses: no primeiro ela é um problema a ser resolvido, explicado, esclarecido, minimizado, na busca de uma linguagem pura, livre de multiplicidade ou obscuridade de sentidos; no segundo, a ambigüidade é um fenômeno que contribui no processo de construção e desconstrução da linguagem, pois passa a ser analisada como um fenômeno social e subjetivo, sendo compreendido pela lingüística a partir de seus elementos extralingüísticos naquilo que eles podem explicitar a partir da multiplicidade de sentidos.

O estudo da ambigüidade acompanha os diferentes paradigmas utilizados para a análise e compreensão da linguagem e do discurso. Na sociologia também houve essa ênfase na importância da estabilidade e da coesão no estudo dos fenômenos, deixando como aspectos secundários as mudanças e os conflitos. A perspectiva essencialista defende que a ênfase dos estudos na estabilidade e na permanência atende a necessidade de compreender a essência da sociedade, naquilo que ela permanece e que dá sua condição universal no decorrer do tempo.104

A ênfase da filosofia metafísica na permanência e na clareza de idéias considerava a mudança e a ambigüidade como fatores de confusão e de engano no entendimento da realidade. Para autores como Hobbes e Leibniz a linguagem deveria ser livre de toda ambigüidade, possibilitando assim um pensamento claro, puro, lógico e regular. Este foi o ideal científico que prevaleceu no século XX e que está presente nos paradigmas utilitaristas e racionalistas, visando uma linguagem técnica que defende como ideal a busca pela verdade universal, levando à criação das grandes narrativas universalistas.

Por outro lado, autores pós-modernos como Lyotard, Guattari, Derrida, e até mesmo com Foucault e Freud, há uma participação progressiva no processo de inclusão das interpretações múltiplas da realidade. Foucault vai dizer que o discurso pode ser concebido como “uma violência que fazemos às coisas” pois elas são mais complexas.105 Desta forma, a ambigüidade seria um fenômeno que representaria a busca de integração desta multiplicidade no discurso, mas ainda de forma indiferenciada. As abordagens pós-modernas consideram que existem diferentes discursos sobre a realidade, incluindo a ambigüidade e a mudança como fatores relevantes na compreensão do homem e do mundo. A problemática da ambigüidade está envolta pelas transformações das idéias filosóficas, sociológicas e psicológicas, assim como as mudanças na filosofia pós-moderna, nos estudos culturais e sociais, que trazem um aporte teórico mais voltado para a interpretação dos sentidos polissêmicos.