A sistematização proposta leva em conta ainda as heranças históricas e culturais e a estrutura econômica, de base agrícola nos dois países, características que contribuem para reforçar essa divisão. Além disso, os textos analisados ressaltam as diversas representações mediáticas a respeito do campo e da cidade, a partir dos estereótipos que idealizam e romantizam a vida calma e tranqüila (o rural idealizado) em contraposição à agitação das cidades poluídas e barulhentas. Do ponto de vista teórico, é oportuno ressaltar também que a Sociologia do Ambiente absorveu contribuições tanto da Sociologia Rural como da Sociologia Urbana, conforme foi destacado no capítulo 2 (a respeito das diversas visões teóricas sobre o ambientalismo).
Entre outras categorias relevantes, resultantes da recategorização aqui proposta, podemos destacar também as representações políticas sobre ambiente, as quais também serão comentadas oportunamente.
4.1. As temáticas rurais
As representações ambientais sobre o mundo rural foram agrupadas em duas amplas categorias: o rural idealizado e o rural degradado. Esse procedimento se justifica pela própria perspectiva da mediatização do ambiente nos dois países, cuja lógica consagrou essa dualidade, embora seja uma dicotomia construída, passível de críticas. Ao adotá-la, portanto, não significa que concordamos com o modo com essa dualidade é construída. O critério foi o da relevância que essas duas representações assumem nos conteúdos mediáticos analisados.
4.1.1. O rural idealizado no Brasil
No Brasil, essa perspectiva idílica, que remete à visão mitológica sobre o paraíso, tanto a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, os Pampas e outras paisagens naturais de beleza reconhecida são retratados pelos media como lugares encantados, carregados de mistérios, lendas e mitos. Além da paisagem em si, as revistas ilustradas e as séries especiais de TV ressaltam aspectos relacionados com a diversidade da fauna, as espécies raras, as flores gigantes como a vitória- régia, as aves de beleza surpreendente e as micro-espécies cintilantes etc.
Durante a década de 1970, as revistas ilustradas destacaram os aspectos naturais da paisagem, numa perspectiva de exibição de imagens inéditas. Os lugares virgens, ou seja, ainda sem registro da presença continuada dos homens, recebem atenção especial. Desse ponto de vista, conseguir surpreender o público com imagens de raro apelo bucólico parece ser uma das principais motivações editoriais dos veículos. O ambiente ainda não está
113 integrado à lógica da noticiabilidade e do valor-notícia. Basta que a paisagem seja nova para o público ou que haja algum apelo relacionado aos encantos da natureza, como uma cachoeira descoberta em um local improvável, uma samambaia xaxim ou uma palmeira de proporções gigantescas ou ainda algo que surpreende até os próprios cientistas.
Nesse estágio de representação da natureza, há certo narcisismo patriótico e ufanista, calcado na necessidade contínua de exibir um ampliado repertório de belas paisagens, como sendo “as únicas da América do Sul, dos trópicos ou do Brasil”. Até então a natureza é representada como um patrimônio natural ou um bem a ser usufruído do ponto de vista plástico/contemplativo ou turístico/econômico. Ainda não há uma cobertura de natureza política e muito menos ambientalista no sentido estrito
A idealização do mundo rural inclui reportagens sobre as fascinantes descobertas em relação à biodiversidade brasileira, com o inventário e a identificação de espécies ainda desconhecidas dos cientistas e da população. Essas reportagens abordam desde a biodiversidade marinha, a ecossistemas como manguezais, dunas, florestas, cerrado, caatinga, restingas e igapós. Reportagens sobre fenômenos naturais espetaculares típicos da paisagem brasileira também são amplamente exploradas, a exemplo do fenômeno hidrodinâmico da pororoca na Amazônia. Da mesma forma, as matérias que colocam em primeiro plano as imagens de orquídeas raras, aves de grande porte e espécies de canto peculiar. Esse universo é representado como um mundo encantado, especialmente no caso de matérias televisivas que exibem os detalhes dos rituais de acasalamento e os cuidados com os filhotes.
Enquadra-se nessa mesma perspectiva representações sobre o estilo de vida dos povos indígenas e descendentes de quilombolas. Esses povos são apresentados como mestres da vida em harmonia com a natureza, especialmente os índios, com todos os mistérios contidos em suas lendas e mitos, com inspiração direta nas forças na natureza. O universo simbólico dos povos indígenas é explorado exaustivamente, como representação idealizada e romantizada. As práticas “medicinais”, a “cura xamanística”. A literatura oral indígena, suas lendas e mitos, e o calendário econômico de algumas tribos também fazem parte desse universo cultural estudado pelos antropólogos e levados a conhecimento do público pelos media.
O comportamento em relação à natureza é analisado predominantemente sob a perspectiva da busca do equilíbrio ecológico, apontando como os índios retiram seu sustento do solo sem danificá-lo, o que favorece o equilíbrio da área explorada. Mesmo quando se utilizam de queimadas, o fazem sabiamente, pois para eles, o fogo tem funções definidas:
114 controla a população de cobras e escorpiões e evita o crescimento excessivo de gramíneas e cipós.
Comumente os autores chamam a atenção para a utilidade do conhecimento dos povos indígenas, uma vez que todas as tribos vivem há séculos na região sem causar danos ambientais, já que é notória a sabedoria indígena sobre a fauna, a flora e os rios. Esse saber é apontado como sendo importante inclusive para os cientistas, os quais deveriam utilizá-lo para auxiliar nos estudos sobre a classificação dos ecossistemas amazônicos.