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3.5 Codification system and examples

3.5.1 Athletic performance

Estruturas de categorias e efeitos prototípicos são subprodutos de estruturas às quais Lakoff (1987) denominará Modelos Cognitivos Idealizados (MCIs). Esses construtos são representações mentais relativamente estáveis que representam teorias gerais sobre o mundo. Assim, esses modelos são idealizados porque são abstrações gerais originadas de experiências diversas, servindo como base para compreender situações específicas da vida cotidiana (EVANS; GREEN, 2006, p. 270). Por possuírem aspectos detalhados sobre realidades no mundo, essas estruturas são capazes de guiar processos interligados de raciocínio e de categorização.

25 É claro que, estando fora de um contexto online, é possível tratar essa manifestação fisiológica descrita

metaforicamente como um outro tipo de emoção. Estamos supondo, neste momento, que esse é um caso em que a pessoa manifesta a sua raiva, especificamente.

De acordo com Lakoff (1987), cada MCI é um todo estruturado complexo, isto é, um

gestalt, que usa quatro tipos de princípios estruturadores:

i. estrutura proposicional: ligada à noção de frame (FILLMORE, 1985), ou uma esquematização da experiência que é representada no nível conceptual e estocada na memória de longo prazo – está relacionado a elementos e entidades associados a uma cena particular inscrita culturalmente na experiência corpórea. Assim, no frame para

CASAMENTO, por exemplo, temos elementos como NOIVO, NOIVA, VESTIDO, PADRINHOS,

DECORAÇÃO (dentro do qual teríamos VELAS e FLORES), IGREJA (e o subframe PADRE, CELEBRAÇÃO DA UNIÃO, ALTAR). A partir disso, teríamos o script: em uma igreja decorada com flores e velas, um padre no altar celebra a união de um noivo e de uma noiva, os quais estão acompanhados por padrinhos.

ii. estrutura de esquema de imagem (cf. JOHNSON, 1987): a organização do tempo, por exemplo, depende desses blocos da estrutura conceptual – „para frente‟ designa FUTURO e

„para trás‟, PASSADO;

iii. mapeamento metafórico: trata-se do entendimento de aspectos abstratos em termos de elementos concretos, como em (49) Chegar ao fundo do poço, em que FUNDO DO POÇO

designa uma situação ruim, assim como (50) Sentir-se nas nuvens há um mapeamento de

PARA CIMA paraexpressar uma sensação positiva;

iv. mapeamento metonímico: expressa, por exemplo, o melhor exemplar de uma categoria, como em „Xerox‟, entendido como elemento prototípico para fotocopiadoras.

MCIs, compostos por essas estruturas, são culturalmente situados. Contudo, não se tratam de estruturas internas fixas, pois são resultado da ação humana, sendo reformulados conforme a interação com a realidade que construímos. Eles são determinados por nossas crenças, valores, necessidades, intenções, propósitos entre outros, a fim de se compreender determinada situação. Como afirma Feltes (2007), MCIs devem ser entendidos, sob certas circunstâncias estruturais e funcionais, como Modelos Culturais, à medida que o sistema conceptual humano e as categorias por ele geradas são, ao mesmo tempo, cognitivos e culturais. Por isso, a cognição está inextricavelmente ligada à experiência corpórea social, cultural e histórica. Esses modelos são estruturas internas, abstratas, que são tomados como esquemas coletivos e intersubjetivos.

Para Lakoff (1987, p. 286), “em geral, os conceitos são elementos de modelos cognitivos”. Isso significa que, para construirmos determinados conceitos, precisamos inseri-los em categorias que levam em conta os princípios estruturadores que ligam os elementos

constituintes do MCI. Portanto, cada MCI possui uma lógica interna. Desse modo, os processos interpretativos – inferenciais – acessarão esses modelos a fim de (re)organizar os conceitos novos ou pré-existentes. Assim, nas situações cotidianas, como numa conversa por telefone, por exemplo, os MCIs guiam a ação em determinadas interações, de maneira que inferências sejam geradas conforme a interação se desenrola.

Os MCIs podem ser combinados a fim de formar um grupo complexo que pode ser mais básico do que os modelos que são tomados individualmente. Lakoff (1987) refere um grupo formado pelo conceito MÃE: os modelos nesse grupo podem trazer elementos como (a) mãe

genética; (b) mãe de criação; (c) mãe por causa do casamento do pai – madrasta; (d) mãe genealógica; (e) mãe adotiva; etc. Desse modo, o conceito em questão irá envolver um modelo complexo no qual os modelos individuais se combinarão para formar um grupo complexo. Cada um desses modelos é escolhido de acordo com a necessidade comunicativa, e não há um que seja mais importante do que outro. O conceito MÃE, assim como qualquer outro, não é claramente

definido sem um contexto comunicativo específico. Há, todavia, um caso central, a partir do qual todos os modelos de MÃE convergem, mas que também não é estabelecido com delimitações fixas, tendo em vista que o modelo em questão, que poderia ter como característica central ser

fêmea, poderia conter um modelo de PAI QUE TEM O PAPEL DE MÃE. A partir de um caso central, ou de um protótipo que é representativo de uma estrutura, MCIs podem ser gerados, e efeitos prototípicos podem passar a fazer parte de cada modelo. Cada protótipo e as suas extensões podem ser modelados conforme uma estrutura radial, como no caso do modelo MÃE, delimitado pelo estereótipo MÃE QUE TRABALHA FORA, em que temos um efeito prototípico para o conceito MÃE formulado por dois modelos. O grupo complexo, formado por um protótipo composto, pode irradiar informações que formarão uma estrutura radial para a categoria MÃE (conforme descrito por Lakoff, 1987), composta por mãe adotiva, mãe que dá à luz, mãe biológica, mãe que é esposa

do pai, mãe que cuida dos filhos, mãe que é dona de casa, etc. Para Lakoff (1987, p. 84), “uma estrutura

radial é aquela na qual há um caso central e variações convencionais, as quais não podem ser preditas por regras gerais”.

As emoções são geralmente apresentadas como modelos cognitivos, ou modelos culturais: “uma emoção particular pode ser representada por meio de vários modelos cognitivos que são prototípicos daquela emoção” (KÖVECSES, 2008a, p. 133). Assim, metáforas conceptuais, metonímias conceptuais, conceitos relacionados convergem para um modelo (prototípico) de uma emoção, a partir do qual estruturas radiais serão formadas. Conceitos relacionados, para Kövecses (2008a, p. 133), são “emoções ou atitudes que o sujeito tem em relação ao objeto ou causa de sua emoção”. Isso quer dizer que os conceitos que poderão ter

aproximação com um conceito de categoria básica, como FELICIDADE, por exemplo, são vistos como relacionados a ele. Interpretando essa concepção a partir da noção roschiana de categorização, podemos dizer que (sentimento de) excitação, prazer, ou alegria são conceitos de categoria subordinada relacionados a uma emoção dita linguisticamente básica, como FELICIDADE.

Para Emanatian (1995), os efeitos fisiológicos de uma emoção podem estar condicionados a um modelo de emoção culturalizado: “a ideia é que, em algum nível, devemos estar conscientes da correlação entre um padrão de experiência sentida em nossos corpos [...] e um estado emocional que estamos sofrendo” (p. 166). Já Kövecses (2008b, p. 390) aprofunda a questão e afirma que, de modo geral, costumamos perceber nossas emoções por meio de estágios26: (1) causa → (2) existência da emoção [raiva, por exemplo], ou sua contraparte (na

forma de uma força) → (3) tentativa de controle → (4) perda de controle → (5) expressão27.

Contudo, o autor salienta que nem sempre o evento emocional ocorre exatamente como demonstra essa estrutura. Kövecses (2008b) acredita que há ainda uma estrutura mais básica de compreensão de uma emoção, ou seja, um modelo geral das emoções: causa → existência da emoção

(entidade de força) → expressão. Para o autor, essa percepção geral parece ser compartilhada por

indivíduos de diversas culturas, embora esse modelo seja bastante intuitivo: há causas que levam a certas emoções, que nos fazem produzir certas respostas. O modelo elaborado por Kövecses (2008b) assemelha-se à noção jamesiana para um evento emocional, exposta no Capítulo 1. Contudo, o construto cognitivo relacionado à elaboração da emoção, ou à interpretação do que se sente, não está explícito em ambas as estruturas, embora pareça subjacente a partir da segunda etapa, conforme o modelo por estágios desenvolvido por Kövecses. Em nossa concepção, a interpretação emerge enquanto o evento emocional se desenrola, e apenas percebemos as emoções nessa ordem por termos uma tendência natural de ordenar e classificar todos os eventos em nossas vidas. De fato, ao conceptualizarmos uma emoção, as redes conceptuais emergentes levam a uma hibridização desse continuum que parece se desenrolar cronologicamente, em dada interação com outros indivíduos. Tal constatação é corroborada por Le Breton (2009):

as emoções não existem desvinculadas da formação da sensibilidade que o relacionamento com os outros enseja no seio de uma cultura e num contexto particular. Elas não têm realidade em si, elas não se fundam numa fisiologia indiferente às circunstâncias culturais ou sociais: não é a natureza do homem que se exprime através delas, mas a situação e a existência social do sujeito. Elas se inscrevem sobre uma teia de significados e de atitudes que prescreve aos indivíduos tanto as formas de descrevê- las quanto as maneiras de exprimi-las fisicamente (LE BRETON, 2009, p. 120).

26 O símbolo [→] demarca a sucessão temporal relacionada ao evento emocional.

27 Em Kövecses (1990, capítulo 11), há atribuição de um estado emocional neutro a partir do qual o processo

Para o mesmo autor, o indivíduo aplica suas peculiaridades sobre um tecido coletivo reconhecível por seus pares. Nesse sentido, ao construir conceitos de emoções com base em um MCI específico e em dado momento interacional, a intenção do sujeito em compartilhar o que sente e, portanto, de fazer reconhecer sua concepção sobre dada emoção, torna-se compartilhada. Apesar de essa construção ocorrer a partir da história pessoal, e de ser amplamente reconhecido, pelo senso comum, que as emoções são produto da subjetividade, essas só podem ser elaboradas no curso da comunicação, explorando-as linguisticamente28.

A estrutura que compõe os MCIs é fundamental para a construção de conceitos por ser a base a partir da qual se sustenta todo o processo cognitivo de conceptualização. É por meio deles que se avalia o potencial de universalidade de um conceito de emoção – tendo em vista as suas características ligadas às percepções corporais –, como também se pode avaliar as variações sociais e culturais acerca de dado conceito por influência da inserção do sujeito em sua comunidade de fala. Discutiremos essas questões na próxima seção.