Paper IV: the effect of market liberalization on agricultural commodity prices
2. Theoretical Framework
A reportagem Queridinha do Country foi publicada no último exemplar da revista Recreio Girls e foi comercializado pelo site da editora Abril e nas bancas de todo país no mês de junho de 2012. As análises seguem a sequência apresentada pela revista: primeiro a reportagem de perfil, seguida pela reportagem documental de moda e a de maquiagem e cabelo.
Na primeira reportagem - a de perfil - discutiremos o título e lead; a primeira coluna; os títulos e os discursos da segunda e da terceira coluna; os enunciados verbais destacados dentro das formas geométricas (círculo e retângulos); enunciados não verbais e as relações dialógicas entre si e o texto verbo-visual como um todo. Na segunda – sobre moda – e terceira – sobre cabelo e maquiagem – reportagens analisaremos o título, o lead, os textos verbais, os
visuais e o conjunto verbo-visual.
A reportagem de perfil da Taylor Swift apresenta duas páginas, sendo que mais de 50% do espaço são para as imagens. A segunda página é dedicada para uma foto do rosto da cantora e um pequeno quadro com seus dados pessoais: nome, data de nascimento, idade, signo, cor preferida e instrumentos que toca.
Quem é Taylor Swift68 dentro do nosso contexto social? Sabemos que se trata de uma jovem e importante cantora da cultura norte-americana. Taylor é uma das mais premiadas cantoras do estilo country69 no momento e tem uma grande legião de fãs no Brasil. A Revista Forbes a coloca em terceiro lugar na lista das celebridades – com menos de 30 anos – mais bem pagas do mundo. 70
Imagem 43 – Matéria de capa “queridinha do
country” a Imagem 44 country” b – Matéria de capa “queridinha do
Fonte: Recreio Girls, n. 5, p. 4. Fonte: Recreio Girls, n. 5, p. 5.
68 Apesar da reportagem apresenta-la somente como cantora, Taylor Swift é também atriz e já participou de
vários filmes de sucesso, dentre eles Hannah Montana: the movie (2009); Valentine’s Day (2010) e New girl (2013).
69 O estilo country é típico do sul dos Estados Unidos.
70Disponível em: <http://forbesbrasil.br.msn.com/listas/10-astros-mais-bem-pagos-abaixo-de-30-
O enunciado do título é “Queridinha do country” e o discurso da chamada é “Com uma voz poderosa e jeito delicado, Taylor Swift escreve canções sobre amor e amizade e se tornou uma das nossas cantoras mais amadas”. O locutor qualifica Taylor com muitos adjetivos - queridinha, poderosa (voz), delicado (jeito); ressalta que ela escreve sobre amor e amizade; conclui afirmando que ela “se tornou uma das nossas cantoras mais amadas”. Apesar de não ser brasileira, o discurso afirma que Taylor é “uma das nossas cantoras mais amadas”. O pronome possessivo “nossas” sinaliza discursivamente que Taylor ocupa um lugar de destaque no rol das artistas do nosso meio social, passando uma ideia de proximidade e de pertencimento, em um tom de inclusão e valoração comparativa com outras cantoras (“mais amadas”).
Imagem 45 – Enunciado da matéria de capa “queridinha do country”
Fonte: Recreio Girls, n. 5, p. 4.
O título é escrito com uma fonte que imita uma letra cursiva, que remete ao estereótipo da escrita feminina. O enunciado verbo-visual country é rosa, pontuado por reflexos luminosos e contornado pela cor dourada. O tom do rosa utilizado não é rosa-bebê ou rosa claro, ele tem um tom mais forte, buscando identificação com criança maior. O dourado e os reflexos luminosos lembram o sucesso. A cor dourada tem relação com o ouro, “quase que inseparáveis” e significa sofisticação, luxo e dinheiro – “a fama e a glamour também estão intimamente conectadas à cor ouro” (FARINA et al., 2006, p. 106-107). As cores escolhidas funcionam como signos ideológicos que fazem parte do contexto social da criança. A cor ouro fala diretamente com o universo da riqueza e da fama e a cor rosa, seguindo o padrão conservador, fala diretamente com o universo feminino.
No primeiro parágrafo, encontramos o seguinte enunciado: “Sabia que Taylor Swift tinha 11 anos quando decidiu ser cantora? Ela convenceu os pais a viajar para Nashville (a capital da música country), nos Estados Unidos, em busca de uma chance para brilhar”.
Imagem 46 – Coluna 1: Sabia que...
Fonte: Recreio Girls, n. 5, p. 4.
Entendemos que, ao iniciar o discurso com uma interrogação (“Sabia que…?”), o locutor busca estabelece uma relação de identificação da menina/interlocutora com a musa/cantora Taylor Swift. O enunciado instiga a curiosidade e, ao mesmo tempo, informa e relaciona dialogicamente a menina com a cantora, que, na época da edição da revista (2012), tinha 22 anos de idade. Mesmo sendo adulta, a cantora é apresentada discursivamente como um símbolo de referência e identificação para as crianças.
O enunciado seguinte – “No começo a garota não teve sucesso, mas ela não desistiu: aprendeu a tocar violão e escreveu a primeira música, Luck You, aos 13 anos” –O discurso estabelece uma relação dialógica com o interlocutor em termos de identificação e proximidade.
Imagem 47 – Coluna 2: Rumo ao sucesso
Fonte: Recreio Girls, n. 5, p. 4.
Os enunciados que compõem a Imagem 47 focalizam a glória que a cantora alcançou, a recompensa pelo seu esforço e determinação. A entonação discursiva confirma o que foi prenunciado no título. Segundo a reportagem, Taylor Swiff depois de insistir e se aperfeiçoar teve o apoio da família, que até mudou de cidade em prol da carreira dela, e o reconhecimento da mídia e assim alcançou o sucesso que tende a crescer ainda mais: “o sucesso foi tão grande que a cantora já gravou três álbuns e o próximo está em produção – e pode sair a qualquer momento”.
Na terceira coluna, o locutor volta a estabelecer uma relação direta entre a menina/interlocutora com a musa/cantora. O título é Por trás da fama... e as primeiras palavras completam o enunciado anterior, cujas lacunas marcadas pelas reticências são preenchidas pelo enunciado: “Existe uma garota parecida com você!”.
Imagem 48 – Coluna 3: Por trás da fama...
Fonte: Recreio Girls, n. 5, p. 4.
Observamos que o locutor elabora uma associação direta entre Taylor Swift e o interlocutor, o que pode ser observado por recurso linguístico, no caso o uso do pronome de tratamento pessoal “você”: “Existe uma garota parecida com você!”. A aproximação é, da mesma forma, observável pelo uso de “também”: “Taylor também ama se produzir…”. Esse recurso pressupõe, comparativamente, que a menina/interlocutor gosta de se produzir como a artista.
Bakhtin/Volochinov (2004, p. 96) ressalta que a palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial; é impossível separar a língua de seu conteúdo ideológico. No discurso em análise, observamos uma forte sugestão ideológica dirigida ao público alvo na afirmação que diz que a cantora é parecida com a menina/interlocutora. O locutor projeta e constrói discursivamente uma imagem social da menina/interlocutora, que não coincide – necessariamente – com o leitor empírico.
Na sequência, é apresentada uma relação de amigos da artista – todos famosos – sendo um colocado em destaque: “e até Zac Efron”. Zac Efron não é inserido no grupo de amigos
com uma simples partícula aditiva – “e Zac Efron” – mas sim com uma entonação valorativa sinalizada pela inclusão da preposição “até”. Trata-se do cantor/ator mais famoso do grupo, protagonista da série High Scholl Musical. Os amigos de Taylor são mencionados com um tom de intimidade, como em uma conversa casual.
Qual a semelhança real dos amigos da Taylor com os amigos da interlocutora de reportagem? Tomemos Bakhtin (2010a, p. 295) que afirma que “a expressividade de determinadas palavras não é uma propriedade da própria palavra como unidade da língua e não decorre imediatamente do significado dessas palavras”, mas que elas são uma espécie de “eco de uma expressão individual alheia, que torna a palavra uma espécie de representante da plenitude do enunciado do outro como posição valorativa determinada”. Ao usar um estilo coloquial e aproximar-se, pelas palavras, da menina/interlocutora, o locutor estabelece uma relação de confiança com a leitora alvo.
O discurso, além de estabelecer associação entre a cantora e a menina/interlocutora, prossegue convidando ao prosseguimento da leitura: “Que tal conhecer melhor o estilo da garota? Vire a página e se encante”. O locutor termina a reportagem de perfil, mas insere uma relação dialógica da reportagem com as próximas que virão. O discurso é constituído de modo a preparar a menina/interlocutora para que acredite que as roupas, produtos e maquiagens que serão apresentados nas reportagens seguintes fazem parte da rotina da Taylor Swiff e passem a ser alvo de desejo da menina/interlocutora.
Podemos compreender pelas análises empreendidas que a Revista Recreio Gilrs pode ser considerada como um jogo simbólico, uma espécie de brinquedo. Através da leitura, a criança mergulha no jogo simbólico do mundo da fantasia. A revista é uma ponte que a transporta para um mundo onde a criança pode vivenciar as emoções e aventuras de ser a heroína, a cantora, a atriz de sucesso que tem fama, destaque social e possui todos os objetos que o marketing a faz desejar.
Observamos que, no canto esquerdo da primeira página da reportagem, aparecem várias imagens – corações, violão, uma estrela brilhante e notas musicais – compondo um mundo onírico. Um discurso sintético está inserido dentro de um círculo rosa e dourado. Os enunciados informam que a Taylor tem um número da sorte – o número 13 – e que chegou a fazer uma tatuagem falsa71 desse número. Esses enunciados focalizam a superstição da cantora e a sua fragilidade – medo de que algo saia errado, o que a coloca mais uma vez em
relação dialógica de igualdade com a menina/interlocutora:
Imagem 49 – Número da sorte
Fonte: Recreio Girls, n. 5, p. 4.
Violão, notas musicais, corações vermelhos e a estrela lilás são signos ideológicos que aproximam a menina/interlocutora do discurso do locutor. No canto inferior direito da página um pequeno quadro destaca um texto verbo-visual que fala novamente do sucesso da Taylor Swift. O título é “Ela arrasa!” e os enunciados elencam os prêmios conquistados pela jovem cantora:
Imagem 50 – Ela arrasa!
Fonte: Recreio Girls, n. 5, p. 4.
Após a apresentação do perfil de Taylor Swift, segue na sequência uma reportagem do tipo documental, sobre moda (duas páginas) e em seguida sobre cabelo e maquiagem (mais duas páginas). Será que o interlocutor consegue perceber que a reportagem do tipo perfil terminou e que agora ele está diante de uma reportagem documental sobre moda? Será que o interlocutor perceberá que o discurso e as imagens que são apresentados não correspondem a uma sequência do perfil da cantora?
Compreendemos que, da forma como o discurso é construído, os produtos que são apresentados nas reportagens sobre moda, cabelo e maquiagem passam uma ideia de continuação da reportagem de perfil da Taylor Swift, como se as roupas, acessórios e demais produtos fizessem parte do guarda-roupa pessoal e do cotidiano da cantora.
Imagem 51 – Menina estilosa a Imagem 52 – Menina estilosa b
Fonte: Recreio Girls, n. 5, p. 6. Fonte: Recreio Girls, n. 5, p. 7.
Apesar de ser uma mulher de 22 anos de idade, o título das páginas seguintes, sequência da reportagem, é Menina estilosa. Trata-se de duas páginas de texto verbo-visual com fotos da artista posando com diversos estilos de roupa. Todas as roupas, com exceção do jeans e camiseta, no final da página 7, são produções adultas para festas. Obviamente se o título fosse Mulher estilosa não haveria uma identificação da criança com o texto. Lembramos da discussão apresentada anteriormente72 sobre a adultização e da infantilização do adulto. Trocando o título, essa mesma reportagem poderia ser publicada em uma revista específica para adolescentes - Garota estilosa - ou mesmo para mulheres.
Morin ([1962] 2011, p. 28) observa que, a partir da década de 1930, nasce uma imprensa “dirigida a todos”. A imprensa escrita, o rádio, a TV e o cinema passam a buscar o “grande público”. As barreiras entre as classes, gêneros e idade vão sendo paulatinamente tênues. Morin compreende que a homogeneização da produção significa uma homogeneização do consumo que “tende a atenuar as barreiras entre idades”.
A reportagem mostra diversos looks da artista, mas não existe nenhuma menção às