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Towards a theoretical base

Em Li Ké Terra, há poucos momentos em que se ouve música, dos quais destaco três. Um deles acontece quando, no início do filme, Ruben escuta rap junto de alguns amigos. Outro, quando vê-se um restaurante e há uma música ao fundo, cuja fonte se encontra no local. E, mais um, ocorre quando Miguel e alguns colegas de escola cantam e tocam uma canção. Ou seja, não há adição de música não-diegética9 por parte dos realizadores. Essa falta de música

não-diegética em Li Ké Terra, inclusive, configura uma particularidade pouco comum no cinema (ficcional ou documental), como atesta Fernão Ramos:

“A fôrma-câmera10, com figuras em movimento, pede a melodia de modo premente. Essa premência chega a impressionar por sua universalidade. Dois fatores podem ser destacados: 1) a relação entre movimento/transcorrer e melodia/transcorrer, em sua disposição no eixo temporal conforme surge para a percepção; 2) o configurar abstrato de estados emocionais a que a música induz e que são aproveitados pela trama dramática, tanto no cinema de ficção como no documentário. No caso do documentário, muitas vezes, a música qualifica diferencialmente as emoções que a narrativa quer agregar às asserções enunciadas. A música possui na tradição do documentário uma dimensão que não fica aquém daquela do cinema de ficção [...]” (RAMOS, 2008, p.86)

Ramos aponta que a música pode ser trabalhada de modo a colaborar na construção das asserções propostas pelos realizadores. No caso de Li Ké Terra, porém, a sua ausência possui esse mesmo papel.

Levando-se em conta a opção de Nuno, Filipa e João por um modelo de registro com caráter observacional, torna-se compreensível a não adição de música ao filme. Utilizar um elemento estranho ao universo da narrativa poderia diminuir a impressão de realidade pretendida pelos realizadores, uma vez que o modo observativo certifica o engajamento íntimo dos realizadores no mundo histórico, onde o que se registra deve ser apenas o que pode ser experimentado.

É possível identificar, na ausência de música não-diegética, uma outra característica referente à composição do discurso elaborado pelos realizadores. Apesar de, como analisado anteriormente, haver indicadores de construção de significados através de recursos estilísticos diversos, a não utilização de música, um elemento com forte poder associativo e de criação de sentimentos e sensações, confirma a preferência dos cineastas por discrição e

9 Esse tipo de música também é chamada de “música de fosso” por Michel Chion. Segundo o autor, ela seria aquela “que acompanha a imagem a partir de uma posição off, fora do local e do tempo da ação. Este termo faz referência ao fosso de orquestra da ópera clássica” (CHION, 2011, p.67). Em contrapartida, há a música de ecrã, quando a fonte que a emite pode ser identificada “no lugar e no tempo da ação, mesmo que esta fonte seja um rádio ou um instrumentista fora de campo” (CHION, 2011, p.67).

10 Fernão Ramos utiliza a expressão “fôrma-câmera” para referir-se ao aspecto da imagem captada pela câmera. Segundo ele, trata-se de “uma fôrma, pois tudo o que atravessa suas lentes e deixa o traço de sua presença no suporte é conformado maquinicamente pela fôrma” (RAMOS, 2008, p.84).

não evidência das suas estratégias. Essa opção aproxima o entendimento do discurso como sugestão e indício, ao invés de imposição. A posição dos realizadores, dessa forma, mostra coerência com a ideia, presente ao longo do filme, de tratar a identidade dos novos luso- africanos a partir da perspectiva dos representados, mesmo que ela ocorra a partir de uma mediação.

Além desses fatores, a escolha pela não inclusão da música também revela-se como uma busca em qualificar, através da formulação de uma paisagem sonora, o ambiente em que se passa a ação. Raymond Schafer, sobre essa noção de “paisagem sonora”, identifica três principais elementos que a constituem:

“Os sons fundamentais de uma paisagem são os sons criados por sua geografia e clima: água, vento, planícies, pássaros, insetos e animais. [...]

Os sinais são sons destacados, ouvidos conscientemente. Nos termos da psicologia, são mais figura que fundo. [...] devemos limitar-nos a mencionar alguns desses sinais, que precisam ser ouvidos porque são recursos de avisos acústicos: sinos, apitos, buzinas e sirenes. [...] O termo marca sonora deriva de marco e se refere ao som da comunidade que seja único ou que possua determinadas qualidades que o tornem especialmente significativo ou notado pelo povo daquele lugar. ” (SCHAFER, 1997, p.26-27)

À luz do exposto por Schafer, pode-se perceber a maneira como os realizadores reforçam a ideia de neutralidade e padronização do bairro Casal da Boba através da construção de sua paisagem sonora. Os sons percebidos com mais frequência e que caracterizam a paisagem daquele local são, primeiro, um ruído grave, que denuncia a existência de alguma rodovia com tráfego intenso nos arredores, e, segundo, as vozes dos moradores ao interagirem nos espaços públicos. Dessa forma, torna-se difícil identificar uma marca sonora do local que o represente como único.

O som ambiente em Li Ké Terra, por vezes, também assume funções que caberiam à música. Em determinada sequência, por exemplo, que ocorre logo após uma em que Ruben fala sobre as dificuldades enfrentadas por não possuir documentação, vêem-se planos fixos do bairro e, ao fundo, a paisagem sonora ganha maior dimensão. Há, ao longe, o ruído grave de trânsito e, junto a ele, alguns sons mais específicos, como o de pássaros e o de sinos pendurados no pescoço de ovelhas. Nesse caso, o som ambiente aumenta a densidade dramática da situação exposta por Ruben anteriormente e assume um papel que alguma música poderia mais facilmente exercer.

Por fim, há também uma outra questão que pode ser colocada. Caso utilizassem música não- diegética, que tipo de música utilizariam? Miguel, por vezes, cita a sua identificação com os ritmos cabo-verdianos. Essa poderia ser uma justificativa para que os realizadores inserissem músicas de Cabo Verde. Há, porém, o fato de os personagens demonstrarem sua necessidade

em obter documentos portugueses, o que justificaria a utilização de músicas portuguesas, ou europeias de um modo geral. Resolver esse impasse, entretanto, poderia indicar que os realizadores atribuem a eles uma aproximação identitária com a cultura portuguesa ou com a cabo-verdiana. Por não fazer parte da pretensão do filme estabelecer vereditos sobre as identidades, mas sim problematizá-las, a ausência de música não-diegética mostra-se uma escolha pertinente.