Quando pesquisamos no dicionário, a palavra colaboração pode ser entendida como “trabalho em comum com uma ou mais pessoas; cooperação” (FERREIRA,
2004), porém, na literatura, encontramos diferenças claras entre os termos colaboração e cooperação. Torres (2004) apresenta uma distinção entre os dois termos e destaca que há uma diferença conceitual entre eles, afirmando que o processo de colaboração, na maioria das vezes, tende a ser mais complexo. Para ela, sintetizando, estes termos
designam atividades de grupo que pretendem um objetivo comum. A diferença mais fundamental está na regularidade da troca, no trabalho em conjunto, na constância da coordenação. Ambos os conceitos derivam de dois postulados principais: de um lado, da rejeição ao autoritarismo, à condução pedagógica com motivação hierárquica, unilateral. De outro, trata-se de concretizar uma socialização não só pela aprendizagem, mas principalmente na aprendizagem (p.65). Pode-se afirmar que a diferença entre a cooperação e a colaboração está na maneira como a atividade é organizada e desenvolvida pelo grupo, sendo que na cooperação existe uma hierarquia no grupo e, conseqüentemente, divisão de tarefas. Já na colaboração todos trabalham em conjunto.
Esta visão de colaboração também é apresentada por Fiorentini (2004), quando ele afirma que “na colaboração, todos trabalham conjuntamente (co-laboram) e se apóiam mutuamente, visando atingir objetivos comuns negociados pelo coletivo do grupo” (p.50). Neste sentido, em um trabalho colaborativo, as “relações tendem a ser não-hierárquicas, havendo liderança compartilhada e co-responsabilidade pela condução das ações” (FIORENTINI, 2004, p.50). Para Kenski (2003)
a colaboração difere da cooperação por não ser apenas um auxílio ao colega na realização de alguma tarefa ou a indicação de formas para acessar determinada informação. Ela pressupõe a realização de atividades de forma coletiva, ou seja, a tarefa de um complementa o trabalho de outros (p.112)
Kenski (2003, p.112) ainda enfatiza que “as atividades virtuais colaborativas põem em prática os princípios da ‘inteligência coletiva’, apontados por Pierre Lévy”. Este autor define a inteligência coletiva como “inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências” (LÉVY, 2003, p.28) e enfatiza que sua base e objetivo “são o reconhecimento e enriquecimento mútuo das pessoas” (p.29).
Embora Lévy (1999) mencione apenas a aprendizagem cooperativa ou a aprendizagem coletiva, entendo-as como sinônimo de aprendizagem colaborativa partindo da idéia de inteligência coletiva, que ele define como “a valorização, a utilização otimizada e a criação de sinergia entre as competências, as imaginações e as energias intelectuais, qualquer que seja sua diversidade qualitativa e onde quer que ela se situe” (p.167).
Para ele, o ciberespaço, além de suporte, é um dos instrumentos privilegiados da inteligência coletiva, pois permite que sejam desenvolvidos sistemas de aprendizagem colaborativos através da rede.
No que tange os aspectos do trabalho colaborativo, Palloff e Pratt (2002, p.141) afirmam que “quando os alunos trabalham em conjunto, isto é, colaborativamente, produzem um conhecimento mais profundo e, ao mesmo tempo, deixam de ser independentes para se tornarem interdependentes”. Neste sentido, o trabalho dos estudantes ocorre sem divisão de tarefas, colaborativamente, visando uma produção de conhecimento qualitativamente diferente.
Para Borba et al. (2007, p.29) “a colaboração é determinada pela vontade interna de cada indivíduo de querer trabalhar junto com o outro, de desejar fazer parte de um determinado grupo”. Com isso, as relações tendem a ser espontâneas, voluntárias, orientadas para o desenvolvimento, difundidas no tempo e no espaço e imprevistas. Destacamos que
em contrapartida, trocar experiências, compartilhar soluções de problemas propostos, atuar junto não implica pensar de maneira uniforme. É um ambiente de contribuição, em que se somam as individualidades na busca de um benefício coletivo. E o coletivo não é necessariamente sinônimo de maciço e uniforme, pois, enquanto grupo, respeita a individualidade de seus membros de modo que, a partir de suas diferenças, produzem e crescem juntos (BORBA et al., 2007,p.30).
Porém, para que exista um trabalho efetivamente colaborativo, o diálogo, visto como um processo de descoberta, influenciado pelo fazer coletivo e compartilhado, é fundamental. Ele não se constitui apenas como mero ato das pessoas se comunicarem, sendo então um processo que vai além de uma simples conversa (ALRØ; SKOVSMOSE, 2006), enfatizando-se a profundidade e riqueza desse ato. Para a produção de conhecimento, é preciso perceber a importância das pessoas expressarem suas opiniões, compartilharem experiências e sentimentos como insegurança, medo e dúvida. Da mesma forma, é preciso saber valorizar a participação do outro, ouvindo com respeito o que é socializado.
Freire (2005), já em 1967, chamava a atenção de que não é no silêncio que as pessoas se fazem, mas, entre outros fatores, na palavra. Para ele, o diálogo está embasado no encontro de seres humanos para a tarefa comum de saber agir, mediatizados pelo mundo, e se impõe como caminho pelo qual eles ganham significação enquanto pessoas. Dessa forma, não se pode reduzi-lo “ao ato de depositar idéias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de idéias a serem consumidas pelos permutantes” (p.93).
Também não pode ser uma guerra entre pessoas que querem impor suas verdades, ao invés de buscá-la conjuntamente. “A conquista implícita no diálogo é a do mundo pelos sujeitos dialógicos, e não a de um pelo outro. [...] A educação autêntica não se faz de ‘A’ para ‘B’, ou de ‘A’ sobre ‘B’, mas de ‘A’ com ‘B’” (p.93, grifos do autor). Para ele, “não há diálogo verdadeiro se não há nos seus sujeitos um pensar verdadeiro. Pensar crítico. [...] Sem o diálogo não há comunicação e sem esta não há verdadeira educação” (FREIRE, 2005, p.97-8).
Alrø e Skovsmose (2006) afirmam que a qualidade da aprendizagem está intimamente ligada à qualidade da comunicação. As relações entre as pessoas são fatores cruciais na facilitação da aprendizagem, uma vez que aprender é um ato pessoal, mas é moldado em um contexto das relações interpessoais, e o diálogo, como meio de interação, possibilita o enriquecimento mútuo entre as pessoas. Eles ainda destacam que “a noção de seres-humanos-com-mídias também desempenha papel importante no entendimento da noção de diálogo” (p.130), pois segundo os autores esta unidade considera o processo de interação entre várias pessoas, devido ao plural de “seres-humanos”, o que pressupõe comunicação e diálogo. Ademais, para Alrø e Skovsmose (2006, p.130), “todo processo de aprendizagem envolve algum tipo de ‘instrumento’[..]” que são mídias como lápis e papel, TIC, etc.
Em Borba et al. (2007) destacamos que idéias relativas à importância das relações dialógicas
já habitam a educação há tempos como mostra o seminal trabalho de autores como o próprio Paulo Freire e, em Educação Matemática o de Bicudo [...], os quais se tornam altamente relevantes no cenário da EaDonline, já que a comunicação, síncrona ou assíncrona, tem que estar permeada desta noção mais profunda de diálogo, no qual os participantes envolvidos se abrem um para os outros da forma permitida pelas interfaces disponíveis em um dado ambiente virtual. (2007, p.28-29)
Após esta revisão sobre aspectos da colaboração e diálogo na Educação a Distância online, diferenciando-a da cooperação, passo a apresentar algumas pesquisas que foram desenvolvidas no contexto da EaDonline especificamente na Educação Matemática.