• No results found

submetidas a duas inseminações por ciclo, não se observou efeito do intervalo IA/ovulação sobre a fertilidade das éguas, que foi de 93,75% para as fêmeas inseminadas dentro de 24 horas da ovulação e de 100,0% para as inseminadas no intervalo 24-48 horas de sua detecção.

Assim, de acordo com os estudos acima e com os de Palhares (1997), conclui-se que a fertilidade das éguas é muito mais dependente do adequado intervalo IA/ovulação do que do número de inseminações artificiais realizadas, na presença de uma concentração espermática adequada para cada tipo de sêmen utilizado (“in natura”, resfriado, resfriado e transportado ou congelado).

2.2.3. Efeito da Categoria Reprodutiva da Égua

As éguas, de modo geral, podem ser distribuídas em diferentes categorias reprodutivas, de acordo com o seu estado fisiológico e metabólico. Cada categoria seja potra, égua solteira (vazia na estação anterior), égua parida ou no “cio do potro”, possui suas particularidades, vantagens e desvantagens. Von Lepel (1975) descreve potras e éguas gestantes com um potencial de fertilidade superior (70-100%) ao de éguas que não conceberam na estação anterior (50-70%), ao das vazias por mais de duas estações reprodutivas consecutivas (25-50%) e bem superior ao daquelas susceptíveis às infecções e as com idade avançada (< 25%).

Da mesma forma, Silva (1988) encontrou, em seu estudo, alta fertilidade para potras e éguas no “cio do potro”, de 100,0% (1/1) e 81,8% (9/11) no ano de 85/86 e de 73,3% (11/15) e 100,0% (19/19) no ano de 86/87, respectivamente. Enfatiza, no entanto, que na última estação obteve uma alta taxa de reabsorção embrionária para éguas no “cio do potro”, de 21,05%. Morris e Allen (2002) caracterizam as potras e éguas paridas, que ciclam já no começo da estação de monta, como categorias de alta fertilidade, ao contrário das éguas solteiras que tiveram dificuldades em se tornarem gestantes na estação reprodutiva anterior.

Woods et al. (1987) não observaram efeito da categoria reprodutiva sobre a taxa de perda gestacional (13%), entretanto, de forma

semelhante ao que se observou em outros trabalhos, verificaram menor (p < 0,05) taxa de gestação nas éguas solteiras (47%) em relação às potras (58%) e éguas no pós-parto (56%). Verificou-se, também aqui, um menor potencial de fertilidade nas éguas vazias da estação reprodutiva anterior. Da mesma forma, Waelchli (1990) e Kossin (1995) demonstraram uma relação significativa importante entre categoria reprodutiva e fertilidade, de modo que a redução da fertilidade esteve diretamente relacionada ao número de anos consecutivos em que a égua apresentou-se vazia antes dessa avaliação.

No estudo conduzido por Ferreira (1993), utilizando sêmen de jumentos para um cruzamento industrial (égua x jumento), observou-se que as éguas com potro ao pé apresentaram 1,2; as solteiras 1,4 e as potras 1,5 ciclos/gestação. As taxas de gestação foram de 81,8% para as potras, 93,7% para as éguas solteiras e 81,8% para as éguas com potro ao pé, após considerar-se as perdas embrionárias ocorridas. O bom resultado para as éguas solteiras pode ter ocorrido por estarem vazias devido ao não aproveitamento e cobertura na estação anterior, ou por algum problema reprodutivo transitório, sem comprometimento duradouro da fertilidade.

Entre as particularidades das potras, Palhares (1989) encontrou uma maior incidência de atresia folicular (9,29%; 29/312) em relação às demais éguas (2,22%; 23/1035). A atresia para potras também foi alta no trabalho de Silva (1988), incluindo três estações de monta, com uma frequência de 21,4%, superior em seis vezes à das demais éguas, que apresentaram um percentual de atresia de 3,5%.

Mitchell e Allen (1975) também estudaram o desempenho reprodutivo de 137 potras jovens, entre 12 e 14 meses de idade, expostas ao garanhão pela primeira vez, por quatro estações de monta consecutivas. Houve concepção de 95 (69,34%) das fêmeas, sendo que destas, 44 (46,32%) abortaram de forma espontânea. Como exames adicionais não indicaram agentes infecciosos como causadores das perdas, assim como as concentrações de gonadotrofina coriônica eqüina (eCG) foram semelhantes entre as fêmeas que perderam as gestações e as demais, concluiu-se que a alta incidência de perdas gestacionais foi ocasionada,

principalmente, pela imaturidade das fêmeas púberes.

Este relato está de acordo com Wilsher e Allen (2002) que observaram na placenta de primíparas, uma área total microcotiledonária significativamente menor que a de éguas multíparas. Tal observação pode explicar o menor peso dos potros nascidos de primíparas em relação aos de fêmeas multíparas, influenciado por fatores de maturação uterina. Dessa maneira, trabalhos demonstram haver necessidade de um período pós-puberdade para o completo desenvolvimento reprodutivo, pois se observa, na espécie eqüina, aumento considerável do tamanho dos órgãos genitais no decorrer da puberdade (Andrade, 1986).

Oliveira et al. (1988) analisaram 19 estações de monta, num regime de monta natural, obtendo uma idade à primeira concepção de 36,94 e 38,35 meses (p<0,01), taxa de gestação de 84,90% e 81,58% e taxa de aborto de 7,69% e 8,99%, respectivamente, para potras das raças Mangalarga e Bretão. Os bons resultados deste trabalho, assim como os demonstrados por Von Lepel (1975) e Naden et al. (1990), com fertilidade entre 70% e 100% para potras, denotam produtividade significativa desta categoria de fêmeas. Tais resultados contrastam com os observados por Mitchell e Allen (1975), o que sugere que os resultados refletem o bom manejo estabelecido, principalmente o nutricional e o reprodutivo. Além disso, segundo Morris e Allen (2002), foi possível observar menor número de tratamentos uterinos utilizados nas potras (p< 0,0001) em relação às demais categorias (éguas solteiras e paridas). Tal observação pode ser explicada por se tratarem, as potras, de éguas jovens, com maior higidez e menor manipulação do sistema genital, em virtude do recente ingresso na atividade reprodutiva.

No Japão, de acordo com Nishikawa (1959), utilizavam-se na reprodução apenas potras acima de três anos de idade, devido às preocupações com a imaturidade do sistema reprodutivo nesta categoria. No entanto, em alguns distritos, foram selecionadas fêmeas de dois anos de idade, com bom desenvolvimento corporal, que responderam por taxas de concepção de 79,2% e de parto de 76,6%. Dessa forma, não havia restrição ao uso de potras na reprodução, desde que

apresentassem idade acima de dois anos e um desenvolvimento corporal adequado.

Atualmente, verifica-se forte restrição ao uso de potras muito jovens na reprodução, devido à imaturidade do sistema reprodutivo, principalmente a do útero (Wilsher e Allen, 2002). Geralmente, potras são colocadas em estação de monta aos três anos de idade parindo, assim, aos quatro anos. Entretanto, pode haver grande variação neste aspecto, dependendo da duração da carreira do animal na sua função precípua, sendo que fêmeas (árabes) de corrida são liberadas para a reprodução, aproximadamente, apenas aos 60 meses de idade (El-Ghannam e El-Sawaf, 1976). No entanto, existe a alternativa de se fazer transferência de embriões nessas fêmeas, incapacitadas, temporariamente, de levar a gestação a termo. Camillo et al. (2002) utilizaram potras de um e dois anos de idade e obtiveram taxas de recuperação embrionária de 50% e 75%, respectivamente, não observando diferenças estatísticas entre elas. No mesmo sentido, Steiner e Jordan (1988) obtiveram uma taxa de recuperação embrionária em potras de dois anos, de 50% (4/8), similar à observada por Iuliano e Squires (1985), de 36,3%. Tais estudos comprovaram a possibilidade de recuperação embrionária em potras jovens, de dois anos de idade, que apresentaram embriões morfologicamente normais e capazes de se desenvolverem em éguas receptoras de boa fertilidade.

As fêmeas da espécie eqüina são singulares no que diz respeito ao retorno da atividade ovariana no pós-parto. Dentre os animais domésticos de grande porte, as éguas apresentam o menor intervalo do parto ao estro (“cio do potro”), evento que ocorre num período de cinco a vinte dias após o parto (McKinnon e Voss, 1993; Nagy et al., 1998; Godoi et al., 2002), acompanhado por falhas de ovulação inferiores à 10% (Bain e Howey, 1975; Palhares, 1989; Heidler et al., 2003).

A função ovariana pós-parto não é bloqueada pelo estímulo da mamada e/ou pela presença do potro (Nagy et al., 1998; Godoi et al., 2002; Deichsel e Aurich, 2005). Assim, o anestro lactacional raramente ocorre em éguas. O problema parece estar relacionado, principalmente, ao fotoperíodo, sendo maior a

55