3. RESULTS
3.2 Key stakeholders in TLG
3.2.2 DSTC
americano, uma moda que chamou atenção da imprensa. A revista Realidade974 publicou artigo especial
“Façam amor, não guerra”, cujo subtítulo “Que fenômeno é Este? O que querem? O que fazem os hippies?” – surgia a fim de esclarecer o público sobre o fenômeno “hippy” e elaborar um retrospecto do fenômeno que chegava ao Brasil. O artigo ainda publica o depoimento de uma jovem estudante de filosofia, que define seus pares:
“Ser hip, antes de tudo, é ser um amigo do homem, um homem não violento e apaixonado pela vida. Um ser que coloca a liberdade acima da autoridade a criação acima da produção e a cooperação acima da competição. Pouco importa se tem a cabeça raspada ou
cabeleira de louco”. 975
Para o filósofo Luis Carlos Maciel976, a postura “desbundada” foi “a resposta mais criativa, mais
eficiente e mais enriquecedora para a situação que estávamos vivendo” e que esta mesma postura é
mais revolucionária “do que a de esquerda militante e armada, por um lado, edo que a da direita conformista e colaboracionista por outro”977. Esta parcela da juventude buscou uma forma de “vida
alternativa”978 valorizando a marginalidade como “uma forma de recusa a se submeter ao
comportamento social normativo”979 configurando-se em uma forma subversiva de resistência pacífica e passiva ao regime militar.
Naquele período surgem manifestações contraculturais que enfeixavam uma produção “variada
e dispersa” que recebeu diversas designações: “contracultura, cultura marginal, curtição e desbunde”980 ou ainda “underground”981. Elas têm em comum a perspectiva de um país que convivia com as contradições: de um lado o desenvolvimento econômico, industrial, tecnológico e o “salto na indústria cultural”982; e de outro aumento da desigualdade entre classes sociais, que impulsionava o crescimento urbano desordenado nas grandes cidades, como São Paulo983, e a massificação e internacionalismo
974 FAÇAM AMOR, NÃO GUERRA, Revista Realidade, n° 23, editora Abril, fev., p. 110-114, 1968. 975 Idem.
976 Luis Carlos Maciel - filósofo pela Faculdade de Filosofia da UFRGS, também, dramaturgo, roteirista, diretor de cinema, poeta e escritor, é considerado um ‘guru’ ou filósofo da contracultura - como seu colega Herbert Marcuse no cenário internacional - atuou como jornalista do Pasquim com a coluna Udigrudi. Cf. CAPELLARI, Marcos Alexandre. O discurso da contracultura no Brasil: underground através de Luis Carlos Maciel. Tese, FFLCH -USP, São Paulo, 2007. 977 MACIEL, Luiz Carlos. Geração em transe: memórias do tempo do tropicalismo. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1996.p.122.
978Fernando Gabeira discorre sobre esta nova forma de vida: “ a ideia de que existe uma vida alternativa e que deve e merece ser vivida mobiliza, de uma certa maneira, milhares de pessoas no mundo inteiro, inclusive no Brasil”. Cf. GABEIRA, Fernando. Vida alternativa: uma revolução do dia-a-dia.Porto Alegre: LP&M, 1986.
979 DUNN, Cristopher. Brutalidade jardim: a tropicália e o surgimento da contracultura brasileira. São Paulo: Editora UNESP, 2009, p. 156. 980 FAVARETTO, Celso. In. Anos 70 trajetórias: Itaú Cultural, 2001.
981 PEREIRA, Carlos Alberto M. O que é contracultura: São Paulo, Brasiliense, 1986.
982 HOLLANDA, H.B. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde: 1960/70. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2004, p. 101.
983 O ‘problema’ das favelas na cidade de São Paulo, data de 1940 com o surgimento dos primeiros assentamentos. Uma das primeiras, a grande favela de Vila Prudente, data de 1950, quando a população favelada representava 1.5% da população do município.Em 1970, em pleno Milagre Econômico, o crescimento das favelas é da ordem de 45% ao ano "índice dez vezes superior à taxa de incremento populacional da Região Metropolitana de São Paulo”, conforme análise de Nabil Bonduki: “[...] Configura-se, assim, durante a década de 1970, uma alteração significativa no quadro de opções habitacionais em São Paulo, crescendo
aceleradamente a favela e a moradia de aluguel.” Em 1996, no município de São Paulo, havia 576 favelas, com uma população de 747.322 , representandoo
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cultural. Os anos de Milagre Econômico, também conhecidos como os “anos de chumbo”, foram marcados pelo desaparecimento de temáticas polêmicas e controversas, resultado tanto da censura direta e da autocensura984 por parte dos autores, produtores e editores, quanto pelo exílio, autoexílio e prisões de intelectuais, jornalistas, artistas e arquitetos como Rodrigo Lefèvre e Sérgio Ferro.
O Tropicalismo foi um dos retratos daquele período. Definido como movimento pela imprensa985, em 1968, foi inspirado no “Manifesto Pau-Brasil” de Oswald de Andrade, e criou a “estética antropofágica contemporânea”986 cujo objetivo seria “deglutir os movimentos de vanguarda”987 apresentando contrastes da cultura nacional “moderno e o arcaico, o místico e o industrializado, o primitivo e o tecnológico”988, com exemplos no cinema, teatro, artes plásticas, música, literatura e arquitetura cênica.
No cinema, o Tropicalismo teve início com o filme de G. Rocha, Terra em Transe, de 1967. O cineasta, consagrado internacionalmente com sua estética da fome989, sofria perseguição política e
muda substancialmente seu cinema. O filme foi considerado o epitáfio de uma época e o “balanço da
derrota da esquerda no calor da hora”990 e influenciará tanto o teatrólogo Zé Celso quanto o músico C. Veloso que declarou que ele fora o “deflagrador do movimento” na música. 991
A Tropicália musical, de G. Gil, C.Veloso, Torquato Neto, entre outros, tem início com o álbum manifesto “Tropicália ou Panis ET circencis” [Fig. 70], de 1968, que procurava expressar tanto na capa992, quanto no texto de contracapa, a representação de um álbum conceitual à semelhança do
da pobreza. Tese de livre docência, Sã Paulo, FAU-USP, 2001; BONDUKI, Nabil Georges. Criando territórios de utopia: a luta pela gestão popular em projetos
habitacionais. Dissertação de Mestrado, São Paulo, FAUUSP, 1987 e KEHL, Luis. Breve história das favelas. São Paulo: Claridade, 2010.
984 OS IMPASSES DA CULTURA. Revista Visão, São Paulo, n°. 6, p.101-106, ago. 1973.
985 Jovens jornalistas identificaram o Tropicalismo como novo movimento cultural - Ruy Castro, Luiz Carlos Maciel, e Nelson Motta, este último identificou convergências entre algumas manifestações do ano de 1967: o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, a peça O Rei da Vela de José Celso Martinez Correa, de 1967; a instalação Tropicália, de Hélio Oiticica e as músicas Alegria, Alegria, de Caetano Veloso e Domingo no Parque, de Gilberto Gil, além da poesia de Torquato Neto. Cf. PAIANO, Enor. Tropicalismo bananas ao vento no coração do Brasil. São Paulo: Scipione, 1996. Cf. DUNN, Cristopher. Brutalidade jardim: a tropicália e o surgimento da contracultura brasileira. São Paulo: Editora UNESP, 2009, p. 148.
986 BRANDÃO, Antonio; DUARTE, Milton. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Editora Moderna, 1990. 987 Ibidem, ibidem.
988 Ibidem, ibidem.
989 O principal porta voz e ideólogo do Cinema Novo,Glauber Rocha definiu o ideário de seus pares em seu texto mais conhecido, “Eztetyka da fome”, escrito após o sucesso internacional de seu filme “Deus e diabo na terra do sol” (1964) e apresentado em 1965. Glauber define a originalidade do Cinema Novo, frente ao cinema internacional, na exposição da maior miséria brasileira - a “fome”, conforme definiu: “[...] o Cinema Novo narrou, descreveu, poetizou, discursou,
analisou, excitou os temas da fome: personagens comendo terra, personagens comendo raízes, personagens roubando para comer, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens feias, descarnadas, morando em casas sujas, feias, escura”. Glauber foi preso em outubro 1965,
juntamente com escritor Antônio Callado, o pintor e diretor de fotografia Mário Carneiro, o jornalista Carlos Heitor Cony e o cineasta Joaquim Pedro de Andrade, pela manifestação antiimperialista numa reunião da Organização dos Estados Americanos, no Rio de Janeiro. Cf. PIERRE, Sylvie. Glauber Rocha: Textos e
entrevistas com Glauber Rocha, Campinas: Papirus, 1996.
990 XAVIER, Ismail. Cinema brasileiro moderno.São Paulo: Paz e Terra, 2001, p. 63.
991 Caetano Veloso em seu livro declarou que: “ eu assiti com a mente assombrosamente aberta a grandes expectiativas de mudanças” e quando o “ poeta de Terra em Transe decretou a falência da crença nas energias libertadoras do “povo” eu na platéia, vi não o fim das possibilidades, mas o anúncio de novas tarefas para mim”. Cf. VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.114 e 116.
992A Capa do disco foi objeto de análise de Enor Paiano, a saber: “À primeira vista, assemelha-se a qualquer capa de disco, com foto do artista - no caso, o
grupo tropicalista [...] cada personagem tem um significado oculto. /Gal /costa e /Torquato Neto representam o inferno do casal de classe média - a bolsa d’ água de Torquato traz na cabeça não deixa margem a dúvidas e o tema será retomado na canção ‘Panis ET circencis’, Tom Zé com uma mala de couro na mão é o retirante nordestino também personagem de uma canção ‘Mamãe coragem’. O arranjador Rogério Duprat segura um urinol, uma alusão à irreverência das vanguardas da virada do século - num gesto ousado, o escultor francês Marcel Duchamp tinha enviado um penico a um museu demonstrando seu desprezo
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