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5. Results

5.1 Qualitative results

5.1.2 Theme 2: Private, personal, and professional – a tightrope balance

Quando Freud reconhece a consciência como órgão sensorial, está-lhe a reduzir substancialmente os poderes que os filósofos legislaram como seus carateres. Basta comparar com Descartes ou até mesmo com o idealismo alemão. A consciência passa a ser uma instância psíquica entre outras, e não é mais uma categoria privilegiada que reúna no seu conteúdo vivencial, e exclusivo, aquilo que concretiza o substrato inteligível que definimos (de uma forma pré-tematizante) como alma. A conscientização de um determinado processo é uma coisa bem diversa da formação de uma ideia ou até mesmo de uma representação. Estas últimas são duas modalidades inteligíveis fora do plano da consciência, segundo Freud, e pela sua própria natureza podem ter um papel ativo no nosso ser. Ao se reconhecer a autonomia de uma ‘ideia’ por relação à consciência, podemos vislumbrar a acessibilidade de um mundo essencialmente normativo que desliza por fora da consciência, e que pode ser, consoante os casos, a motivação última do nosso comportamento.

Há um deslocamento, tal como aferimos anteriormente, radical quanto ao conceito de identidade, na medida em que os diversos móbeis se podem substancializar enquanto tais (ou, num processo eventualmente ulterior, concretizarem-se), sem um exame prévio da sua eventual valoração efetiva. E, por outro lado, a própria noção de representação é naturalmente imprescindível neste esquema: toda a nossa conceção cosmológica, para recorrermos a uma expressão magistral, se cristaliza e se consolida em várias camadas da nossa vida psíquica, havendo já todo um horizonte de sentido inscrito no mundo já dado antes da consciência. Ao recolher, no essencial, ‘dados externos’, a expressão ‘órgão sensorial’ faz ressaltar uma determinada passividade intrínseca da consciência, o que não corresponde a uma eventual posição neutral. Ela compreende o mundo da concreção sensível consoante a especificação das ideias e das representações que em nós se formaram dentro da infância e desde esta. (56). Para usar as próprias palavras de Freud, ela não pode ser considerada, para que o quadro clínico

56 Como veremos a seguir na infância ainda não estão desenvolvidos vários “reinos”

psíquicos. Só com a nossa actividade de pensar, ulterior à infância, é que nascerá o fundamento para uma divisão da nossa topografia mental, como veremos no texto mais à frente.

61 assuma o máximo rigor, como uma instância ‘omnipotente’57. Como um órgão reconhecedor das qualidades constitutivas de cada objeto, o processo de conscientização só é ‘palpável’ se houver todo um mundo ‘espiritual’ que a precede em dignidade. Caso contrário, o próprio ato de recolha de objetos traduzir-se-ia numa intencionalidade vazia, e tornar-se-ia redundante falar de tal instância. Se as ideias e as representações são independentes de cada ato de conscientização, mas, e se Freud respeita o fundamento conceptual mais remoto de cada um destes termos, há toda uma série de pensamentos que vai condicionar, e não determinar,, no essencial, a relação da consciência com os dados externos, pois são nestes dois conceitos, e não numa acumulação de dados sensíveis, que podemos, aqui, procurar definir o mundo (onde sempre nos encontramos) na sua componente fundamental. Aliás, o conceito de representação remete para uma exterioridade (por contraste com a lógica hegeliana), e o mundo se nos dá, não como um fenómeno com o qual temos um nexo originário, mas como já previamente delimitado por uma mente que opera uma síntese representativa dos fenómenos do mundo, síntese essa condicionada por todo o conteúdo mental prévio ao reconhecimento do mundo como problema ontológico.

O mundo é o sinónimo percetivo para os ‘arredores’ da nossa vida. Daí, nunca se poder sublimar a exterioridade que arrasta consigo a representação. Todos os conteúdos mentais, que se orientam para o mundo externo prévio a um ato de conscientização, delimitam o horizonte do mundo aos nossos objetos de desejo, e isso torna impossível, tanto em termos teóricos como práticos, a apresentação (o termo é crucial) do mundo na sua máxima transparência, prévio a qualquer determinação. Se as pulsões, dada a natureza do seu nome, parecem enquadrar-se muito mais num plano empírico da nossa onticidade, elas neutralizam as categorias existenciais, e colocam, se assumidas como constitutivas do nosso ‘si’, o problema do mundo para um segundo plano.

Como tal, o próprio universo praxiológico já se configura como uma realidade efetiva; e, por outro lado, dado o seu estatuto, vemos a total falta de autonomia da consciência (não-tematizante) de operar por ela própria, no sentido de as suas operações serem constituídas de tal modo em que o novo58 aparece. Todos os seus atos são uma remissão para uma realidade psíquica já existente, e só são modalidades compreendidas na sua potencialidade concretizadora pressupondo esse mesmo algo que lhe é anterior.

57 Cf. Capítulo 3.6 do nosso trabalho.

62 Contudo, não queremos dizer que Freud define a consciência como uma instância que opera exclusivamente a remissão. Cada ato de conscientização permite-nos uma maior compreensão de todo o nosso aparato psíquico, e, na medida em que a sua intencionalidade é subsidiária, do ponto de vista significante, de outras instâncias, é por ela que conseguimos compreender, em mediações com os dados sensíveis que ela determina, o fundamento da nossa própria onticidade, o que permite transcender o mero caráter individual. Há um reconhecimento gradual das nossas ideias e representações, e isso opera uma alteração na própria ordem social. Contudo, os desenvolvimentos dessa mesma ordem social repousam sempre na configuração da nossa estrutura mental. Se, em Hegel, o processo histórico comporta o significado que dá saber ao espírito, e se este, como uma instância apenas emancipadora no mundo sensível, se altera na sua radicalidade essencial nos diferentes estádios dialéticos, aqui podemos observar algo muito diverso.

As diferentes ordens sociais (dos povos bárbaros à civilização) traduzem, de uma maneira variada, a tal comunidade de gestos de pensamento que configuram as nossas vivências:

“A imagem que um filho faz do pai é habitualmente investida de poderes excessivos desta espécie e descobre-se que a desconfiança do pai está intimamente ligada à admiração por ele. Quando um paranóico transforma a figura de um de seus associados num ‘perseguidor’, está elevando-o à categoria de pai; está colocando-o numa posição em que possa culpá-lo por todos os seus infortúnios. Assim (…) entre selvagens e neuróticos nos dá um vislumbre de que grande parte da atitude de um selvagem para com seu governante provém da atitude infantil de uma criança para com o pai.”59

Isto permite-nos afirmar que a organização social, e que se vai alterando, tem um determinado propósito, só compreensível caso estudemos, num retorno o mais primordial, a constituição arcaica da nossa mente. E só isso nos permite aceder ao verbo: as palavras ganham o seu significado derradeiro, já que o conceito, estudando os mecanismos mais recônditos da nossa psique, deixa de ter uma matriz especulativa, mas, decorrendo de factos observáveis, garante uma unidade significante pelo qual se torna possível compreender os fenómenos históricos (a aparição de Cristo)60, mas sem

59 Freud, S., Totem e Tabu, pág. 36. 60 Freud, S., Totem e Tabu, pág. 98.

63 se recolher a um olhar natural. É a própria psicologia que se assume como ciência do espírito.