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139 Esta expressão traz em si uma reflexão desenvolvida pelo Projeto PROCAD - Programa Nacional de

Cooperação Acadêmica que tem o título Cultura, Trabalho e Cidade: Muitas Memórias, Outras História. Envolve professores e alunos (mestrandos e doutorandos) da PUC/SP e da UFU/MG e espelha-se na publicação do mesmo título Muitas Memórias, Outras Histórias. Déa Fenelon Ribeiro,Laura Antunes (org). São Paulo, Olho Dágua,2004.

_______Capítulo 6: A história, que eu conheço, é bem outra____________________________

(...) Porque aqui em São Paulo, eu ouvia falar em Canudos, e chegando lá eu vi que a realidade e a história de Canudos tinha outro conteúdo, outro caminho, outra dinâmica. A história que eu conheço de Canudos é bem outra, não é aquela que eu li em livros didáticos. (José Alôncio, 2003)

A narrativa de José Alôncio remete ao campo de disputa, constituído pela memória de Canudos, propõe a percepção de outras versões e histórias sobre este acontecimento, além das que se aprendeu na escola. Inúmeras e diferentes maneiras de interpretação, deste período histórico, foram tecidas e colocam-se a público, por meio de escritas e linguagens, filmes, artigos, livros, teses acadêmicas, revistas, poesias, peças teatrais, entre outros.

A Guerra de Canudos, ocorrida na segunda metade do século XIX é registrada por várias visões e análises que se propõem o desafio de uma compreensão melhor daquilo que se conhece como verdadeiro “massacre”, contra o povo. Pesquisadores de outras áreas do conhecimento, que não a história, têm dedicado parte de seus estudos no sentido de entender e “desvelar” Canudos. A partir das pesquisas realizadas e das que estão em andamento, faz- se necessário reconhecer a importância deste tema para a história, analisando como a percepção sobre as mudanças nas interpretações dos significados da guerra, chegam aos moradores, sendo assumidas como marca de identidade.

Num trecho de sua narrativa José Alôncio afirma que, para ele, mudou o conteúdo da história de Canudos, e compreendeu esse fato ao retornar a Canudos, nos anos de 1990, após mais de quinze anos residindo na cidade de São Paulo. José Alôncio percebeu a mudança de interpretação, sobre a guerra de Canudos, no diálogo com os moradores, com diversos estudiosos e pesquisadores, agentes de pastoral, que lá estavam - num momento de redemocratização da sociedade brasileira - para estudar e construir novas interpretações desse período da história brasileira.

A história que eu conheço de Canudos é bem outra, não é aquela que eu li em livros didáticos. Desta forma, José Alôncio aponta a constituição de interpretações diferentes, que ele ainda não conhecia a respeito, da história de seu povo, e indica também como vai se apropriando deste tema e a sua importância sobre a maneira de viver e ser canudense, na cidade de São Paulo.

Para compreender estes movimentos dinâmicos, as mudanças e o desenvolvimento de algumas interpretações sobre Canudos, faz-se necessário articular esses aspectos, entre si e, à percepção dos canudenses, considerando-se a maneira como os familiares dos participantes da guerra de Canudos compreendem e interpretam esse período histórico.

Ao perceber uma pluralidade de estudos que interpretam esse acontecimento até os dias atuais indaga-se sobre a força desse tema na história do Brasil. Ao pensar nesta direção, verificam-se diversos temas co-relatos, que são relevantes à própria história e formação do povo brasileiro, ou seja, uma reflexão sobre a ação do Estado com seu aparato militar; a forma violenta com que são tratados os setores populares/marginalizados; o protagonismo de sujeitos sociais que reagem e lutam por direitos; a rebeldia dos populares, em busca de melhores condições de vida; a presença de uma religiosidade popular viva no interior do país; a capacidade de organização dos excluídos; a existência de líderes religiosos que aglutinam setores da população; e a construção da democracia no Estado brasileiro. Podem-se elencar diversas questões que se articulam a este tema específico e datado da história do Brasil. Destaque-se que as discussões públicas, sobre os significados sociais de Canudos, emergem com nova força, no decorrer da década de 1990, quando se aproxima do seu centenário. Em 1997, essa discussão já se organizava como um movimento, implicando diversas comemorações e mobilizações da sociedade.

A década de 1990 foi um tempo de muitas movimentações em torno de Canudos. No ano de 1993 foi celebrado o centenário da fundação de Belo Monte e a sociedade civil organizada, a imprensa, pesquisadores e cineastas se deslocaram até a região para o registro de informações, debates, filmagens entre outros. Neste mesmo ano, a Universidade do Estado da Bahia - UNEB realizou a III Semana Cultural Canudos; O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST e a Igreja realizaram romarias com a cartilha Canudos não se rendeu: 100 anos de luta pela terra; o Movimento Histórico pelos Mártires de Canudos fez celebrações com o tema: Três Canudos, três Paixões e foi lançado o filme, de Antônio Olavo: Paixão e Guerra no sertão de Canudos.

Neste contexto, vários livros foram publicados dentre os quais, Canudos O Povo da Terra, de Marco Antônio Villa que é indicativo do tom da época, assumindo um sentido superlativo para o movimento

Descarto totalmente qualquer explicitação do arraial como uma comunidade messiânica,sebastianista,milenarista ou socialista utópica e indico a necessidade de compreender a experiência conselheirista como um grande momento da história nordestina, onde sertanejos lutaram para construir um mundo novo,enfrentando o estado dos landlords. 140

Neste processo histórico, o ano de 1997 foi simbólico porque marcou o centenário do fim da guerra. Diversas atividades culturais, debates, seminários, simpósio internacional, filmes, cartilhas e livros foram realizadas, em Canudos nesse ano, tornando-se um marco significativo de novos debates e abordagens para a história. Vale destacar a inauguração de um Parque Estadual de Canudos, um sítio histórico, arqueológico e ecológico. Nesse período foi lançado o filme Canudos, de Sérgio Resende, exibido nas grandes cidades do país.

Fig.5 Parque Estadual de Canudos

Fig. 7 Parque Estadual de Canudos

Fig. 8 Vale da Morte

Estas iniciativas, vale dizer, dialogavam com as memórias instituídas sobre a história de Canudos. Tendo por base escritos e documentos existentes da época, e principalmente a obra de Euclides da Cunha, Os Sertões, várias análises e interpretações eram colocadas a publico, no sentido de dialogar com esse documento, acrescentando, recriando, reelaborando esta análise, ou de outra maneira, reconstituindo outras memórias e histórias, sob outros olhares.

Neste cenário, assim proposto, e no diálogo com a memória identitária, que muitos dos canudenses entrevistados reivindicam, importa indagar: Como foram se constituindo estas várias

elaborações sobre Canudos? De que forma chegaram até hoje, no século XXI, traços, documentos, vestígios e explicações deste fato que tem suas origens no ano de 1893, ano de fundação da cidade de Canudos, designada por seus moradores Arraial de Belo Monte, moradia definitiva de Antônio Conselheiro?143

Após cem anos, a discussão volta a colocar em causa as análises diferenciadas que envolvem todas as questões citadas acima, e ainda, possibilita perceber, Canudos como uma chaga, um símbolo do Brasil, da luta e afirmação do povo brasileiro, em seu fazer-se histórico. Chaga que, de forma positivada, é assumida e publicizada pelos canudenses.

Em (re) leituras significativas144 sobre Canudos poderiam ser relacionados campos

diferentes e confrontos, com alguns pesquisadores que são comprometidos com a problematização da história e memória considerada oficial e, outros pesquisadores, que não o são. Este conjunto, de registros de autores, com perspectivas diferentes e em diversas temporalidades, expressa um embate existente nas próprias experiências destes, nos modos de vida e concepção de mundo que estavam e estão em permanente conflito.

Nesse sentido, constitui-se um desafio entender as diversas interpretações, sobre esse acontecimento, posto em discussão em vários setores da sociedade, tais como a Academia e a Igreja, e como estas mudanças ocorrem, ao longo dos anos, construindo, assim, um mosaico de análises e (re) elaborações, em um campo repleto de tensões, onde estão presentes recordações pessoais, bem como institucionais.

Ressalta-se a importância da realização de um diálogo com a bibliografia a respeito de Canudos, que, a partir do centenário, teve uma outra e nova visibilidade, contribuindo, assim, para o enriquecendo das reflexões sobre esta temática.

Com referência a outras abordagens, convém lembrar as histórias de José Alôncio, quando se remete para além dos livros escolares e, neste caso, podem ser lembradas muitas memórias que não estão nos circuitos ditos oficiais. Para tanto, busca-se valorizar outras histórias existentes, excluídas da história, porém latentes, vivas no cotidiano, nos espaços outros que não a academia, a escola, o arquivo. São dimensões de uma disputa, que se traduzem sob formas diferentes, em lugares, tempos e práticas, também diversificadas, como sendo uma luta significativa e atualizada na afirmativa, que “são lutas de ontem e de hoje também”.

143 Há divergências sobre o nome da cidadela, e seu registro possui várias grafias: Belomonte, Bello

Monte, Belo Monte, Belo Montevidéu.

144 Entende-se por releitura significativa atribuição de sentidos ao que foi lido e/ou interpretado. Cf.

TAVARES, Celeste Fragoso. A Palavra Escrita Pelo Ensino Da Leitura Significativa Na Aprendizagem Dos Repertórios Culturais Do Conto De Fada Pele De Asno – Charles Perrault- Mestrado em Língua Portuguesa, PUC/SP , 2004.

Alessandro Portelli aponta ainda, a necessidade de confrontar memórias de um mesmo campo, por serem fragmentadas e diferentes, não somente entre uma memória considerada “oficial”, mas diversas memórias existentes, das instituições, das igrejas, dos grupos, das famílias, enfim, as memórias múltiplas e divididas.

Também vale considerar que, nestes últimos 20 anos, o tema se transformou em documentários, dissertações de mestrado e teses de doutorado, sites, filmes na TV, cinema entre outros. Além disso, está presente nas memórias da história do país, principalmente na cidade de Canudos. Trabalhos acadêmicos foram elaborados sobre o tema Canudos no ano de 1996, na USP e UNICAMP como a dissertação Revisitando Canudos Hoje no Imaginário Popular, da pesquisadora Patrícia de Santana Pinho, com orientação da Professora Maria Teresa Sales de Melo Suarez, na UNICAMP. Outro trabalho, uma tese de doutorado na USP do pesquisador José Maria de Oliveira Silva com o título Rever Canudos - Historicidade e Religiosidade Popular (1940-1995) sob a orientação do Professor Marcos Antônio da Silva na USP.146

Canudos é tema polêmico, e discutido, a partir das décadas de 1970, 1980 e 1990 significando, que, ao existirem várias versões sobre este, é possível entender que a memória é um campo de disputas, e, desta forma, são “memórias divididas” como informa Alessandro Portelli. Em seu estudo, sobre um confronto entre alemães e italianos, no ano de 1944, este autor aponta a necessidade de o historiador interpretar criticamente todos os documentos e narrativas, comentando inclusive, da real possibilidade do confronto, entre duas memórias, a que designou “memória dividida”:

Na verdade quando falamos numa memória dividida, não se deve pensar apenas num conflito entre a memória comunitária pura e espontânea e aquela ”oficial” e “ideológica”, de forma que, uma vez desmontada essa última, se possa implicitamente assumir a autenticidade não mediada da primeira. Na verdade estamos lidando com uma multiplicidade de memórias fragmentadas e internamente divididas, todas de uma forma, ou de outra, ideológica, e culturalmente mediadas.145

145 PORTELLI. Alessandro. “O massacre de Civitella Val di Chiana (Toscana: 29 de junho de 1944): mito,

política luto e senso comum”. In: Ferreira, M. de M. e Amado, J. (orgs). Usos e abusos da História Oral. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1988p. 106-109.

Estes e outros trabalhos direcionam-se para o momento de debates e redescoberta da História de Canudos analisando-a através de diversas fontes como poemas, artigos de jornais, revistas, livros, romances, músicas, cânticos, filmes e peças de teatro, ampliando assim as elaborações sobre este tema. Estudam e criam novas interpretações nos aspectos cultural, ideológico e religioso. 147

A história de Canudos, que para José Macedo e José Alôncio são as histórias de seus antepassados, é a história do povo brasileiro, dos canudenses de hoje. Quando explicitava que meu trabalho se tratava dos canudenses, ouvi sugestões de como pesquisar então a pesquisa é sobre a guerra? Deve falar que todos os canudenses foram assassinados; não esqueça de dizer que mesmo depois de tanta luta, Canudos continua ao Deus dará; deve incluir os familiares dos que participaram da guerra. As sugestões foram no sentido de “dar voz” aos canudenses, de fazer com que as opções e vidas dos mesmos aparecessem na história do país e que o povo simples fosse personagem e sujeito da história.

O texto mais conhecido que remete as histórias dos livros lidos nas escolas, que fala José Alôncio, são as elaborações de Euclides da Cunha, reunidas no livro do ano de 1902, Os Sertões.148

Na história e na memória social sobre Canudos há que destacar a importância e o peso da obra de Euclides da Cunha, que constituída como relato jornalístico de época, transformou- se na ”voz autorizada” dos setores letrados da sociedade, para divulgar o ocorrido, em Canudos. É considerada como a principal referência para os estudos sobre Canudos. Desta forma, houve em certa medida, um “ofuscamento” de outros textos da época, um “abafar” de obras como o texto de Martins Horcades Descrição de uma viagem a Canudos e o Libelo Republicano de César Zama. Ambos expressavam um teor de denúncias dos crimes cometidos contra a população de Belo Monte.

A obra Os Sertões passou a ser uma leitura quase exclusiva para o estudo da guerra de Canudos, durante os cinqüenta anos que se seguiram. Considera-se que este documento, escrito por Euclides da Cunha, foi se constituindo e se afirmando como único publicizado; constata-se que este se tornou um monumento, como aponta Le Goff, monumento que é um sinal do passado, ou seja, um sentido de perpetuação do passado. É a partir desta reflexão que se localiza a polêmica que tem por base o trabalho de Euclides da Cunha, que não é somente um relato mas uma pesquisa que se transformou em um monumento, e, segundo o autor do livro Universos em confronto: Canudos x Bello Monte (Sérgio Guerra), se tornou um “monumento aos vencedores”.149

149 LE GOFF, Jacques. História e Memória. (Tradução de Bernardo Leitão). Campinas, UNICAMP, 1990. 148 Apesar de não estudar profundamente esta obra, é importante saber que este autor, carioca, escritor

enviado ao sertão para fazer a cobertura jornalística de Canudos, militar reformado, republicano e sua obra, num primeiro momento, demonstrou indiferença e desprezo aos sertanejos, apresentando-os à sua sociedade como “mestiços de raça inferior” representantes do atraso e, seguidores de um “fanático insano” chamado Antônio Conselheiro que era considerado um “gnóstico branco”, “um bufão com delírios de apocalipse”. CUNHA. Euclides da. Os Sertões. 33ª edição – Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1987.

Neste contexto Marco Antônio Villa enfatiza que esta obra acabou se transformando em uma barreira para o conhecimento histórico da comunidade criada por Antônio Conselheiro. 150

E, como afirma Eduardo Menezes, existe até hoje, um significativo grau de intolerância e de incompreensão teórica desses movimentos de que faz parte o de Canudos, mesmo entre alguns de nossos estudiosos aparentemente melhor instrumentados. 151

Convém estar atento às várias produções do conhecimento, visto que nas décadas seguintes, esta obra era, a única considerada e cuja exclusividade, sufocou escritos contemporâneos a ela, como o romance do jornalista Manoel Benício, escrito no ano de 1899, três anos antes de Os Sertões, 1902. A obra de Manoel Benício continha dados e análises sobre Canudos e, no entanto, só obteve uma reedição, quase cem anos do ocorrido, por ocasião das comemorações do centenário, em Belo Monte.

Por outro lado, outras elaborações sobre este tema nasciam, e outras visões eram divulgadas, como o livro do historiador Edmundo Moniz, no final da década de 1970 que, buscou desmistificar a figura de Antônio Conselheiro e sua prática, ao afirmar:

Canudos não era aquele lugar de refúgio de fanáticos, mal feitores e preguiçosos, imagem que muitos tentaram difundir... Ali progredia uma cidade tranqüila e labutadora, de habitantes que se dedicavam a agricultura, à criação e ao artesanato. Ali era o refúgio de todos os camponeses que eram expulsos de suas terras,perseguidos pelos latifundiários e pelas autoridades policiais e políticas. Canudos acreditava numa cidade ideal dos que acreditavam numa existência próspera e feliz 152

150 VILLA, Marco Antônio. Canudos. O Povo da terra. São Paulo, Ática, 1995. 151 MENEZES. Eduardo. D. B. A historiografia tradicional de Canudos

152 MONIZ, Edmundo. A Guerra social de Canudos. Rio de Janeiro, civilização brasileira, 1978. Edmundo

Moniz nasceu na cidade de Salvador, Bahia, em 2 de novembro de 1911. Formou-se em Direito e, transferiu- se para o Rio de Janeiro, onde, em 1929 começou a trabalhar nas publicações “A esquerda” e “A Batalha”. Fazia o trabalho de redação, reportagem e, inclusive, administração. Em 1968, é exilado através da Embaixada do México no Rio, passa pela Argélia e cumpre exílio em Paris. Regressa em 1976. Foi diretor do Serviço Nacional do Teatro, nos governos Juscelino Kubitschek e João Goulart. Tem vários livros publicados, entre eles estudos sociais (“O Espírito das Épocas”), obras de teatro, com três peças e o recente “A Guerra Social de Canudos”, escrito no exílio.

Nesta seqüência de publicações sobre Canudos vale considerar os escritos de Rui Facó do ano de 1976 em que faz um questionamento à época

Deveria o homem do campo permanecer inerte, passivo, cruzar os braços diante de uma ordem de coisas que se esboroa sobre ele? Neste contexto a revolta pode ser a mais justa reação (...) pega em armas (...) apenas para sobreviver em um meio que é seu.153

Constata-se, nestas reflexões, que as análises e as interpretações, sobre os significados de Canudos, se transformam, as novas interpretações aparecem apesar das restrições ao debate público imposto pela censura da ditadura militar.

O tempo do silêncio formou, em certa medida, um “hiato”, um corte, um período em que memórias existiam, no entanto não se explicitavam, não havia debates sobre o assunto, sendo este fato histórico, marcado como uma memória nacional, como “versão oficial”, uma forma única de remeter ao tema. E todo este processo foi vivenciado pelos canudenses, através das diferentes gerações.

Este processo é afirmado por José Alôncio, que reaprendeu sua própria história, e recorda que a história dos seus antepassados não eram “permitidas” publicamente. Em certa medida, estas memórias nem sempre puderam vir à tona, nem sempre tiveram expressão social. Quando indagado, sobre sua visão da história de Canudos, José Alôncio lembra dos acontecimentos, quando morava em Canudos,

José Alôncio: Até meus treze anos, meus avós não passaram a história de Canudos porque ninguém falava. Era negócio meio proibido. Falar da guerra, de Conselheiro, era contravenção. Era um negócio que Antônio Conselheiro era o pior mal da terra: era considerado comunista sectário ou então fanático religioso. Era proibido falar dele...O pessoal queria mais era esquecer tudo isto. O pessoal se sentia mal... Inclusive muita gente comenta que Canudos era feita só de ladrão, marginal, prostitutas, porque lá existiam os negros que fugiam das fazendas. Eram pessoas humildes que queriam uma vida melhor para eles... Eu vim pra São Paulo muito jovem.154

154 Depoimento concedido,em sua casa, em julho de 2003.

153 FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanáticos. 4ª Edição, Rio de Janeiro, Civilização brasileira, 1976. jornalista e

escritor, Rui Facó nasceu em 4 de outubro de 1913, na cidade de Beberibe, no Ceará. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro, além de artigos e reportagens sempre tendo o povo como tema, Cangaceiros e