O espaço é como um território organizado para a aprendizagem; um lugar de bem-estar, alegria e prazer. Procuramos que o espaço pedagógico seja aberto às vivências e interesses das crianças e comunidades; seja organizado e flexível; plural e diverso; seja estético, ético, amigável; seja seguro; seja lúdico e seja cultural (Oliveira-Formosinho & Andrade, 2011, p. 11).
Oliveira-Formosinho e Andrade (2011) traçam, de forma clara e objetiva, o desenho de uma sala de atividades, destacando a relevância de o espaço ser aberto para o exterior. De facto, as portas e janelas não são apenas um adorno arquitetónico, mas representam o contacto efetivo das crianças com a comunidade, a cultura e as tradições de um povo. Simultaneamente, a sala simboliza um porto seguro para o grupo, um local onde impera a segurança, a compreensão e o conforto das crianças.
A Sala dos Ursinhos (vide figura 51) organiza-se em diferentes áreas, de acordo com as necessidades, interesses e sugestões do grupo. As crianças, tratadas como seres capazes, tiveram a oportunidade de participar na escolha, planificação e organização do espaço (Hohmann & Weikart, 2007).
Um aspeto positivo prende-se com o facto de os materiais se encontrarem visíveis e ao alcance das crianças, o que lhes permite optar por diferentes explorações, dotando igualmente a sala de flexibilidade e proximidade com o grupo, num ciclo de escolha-uso-arrumação (Hohmann & Weikart, 2007). Como refere Zabalza (1998), a sala “deve ser, antes de mais, um cenário muito estimulante, capaz de facilitar e sugerir múltiplas possibilidades de acção” (p. 53). As crianças têm ao seu dispor um conjunto de materiais e jogos de encaixe, como puzzles, livros, dominós, enfiamentos, construções (legos), jogos de memória e associação. Estes materiais e jogos representam “um sustentáculo incontornável da pedagogia que se organiza no espaço e no tempo. As interações são o seu coração” (Oliveira-Formosinho et al., 2011, p. 68).
As produções das crianças preenchem e dão vida às paredes e placares da sala, bem como os instrumentos de organização e regulação do quotidiano do grupo: quadros de planeamento e comportamento e os mapas de presenças.
Verifiquei, ao longo dos dias, que o grupo procura muito a área da casinha, pois agrada-lhe o faz de conta, particularmente as pequenas dramatizações, mas as crianças são muito recetivas às restantes áreas. As paredes da sala são revestidas por placares de cortiça, onde se encontram afixadas as identificações dos cantinhos/áreas da sala, nomeadamente: a casinha, a garagem e jogos, biblioteca, a expressão plástica e musical, placar dos trabalhos, placar do tema da Vida, o quadro dos aniversários (Diário de Bordo, 29 de março de 2014).
Figura 51. Planta da Sala dos Ursinhos.
1- Área Polivalente 2- Área da Expressão Plástica 3- Área da Casinha 4- Área da Garagem e dos Jogos 5- Área da Expressão Musical 6- Cantinho do Aquário
7- Área da Pintura 8- Área da Biblioteca
Deste modo, a sala de atividades consiste num espaço amplo onde se promovem e estabelecem relações de amizade, partilha e companheirismo, dando espaço às crianças para explorarem, vivenciarem e experimentarem novos momentos e aventuras. No fundo, estamos perante um espaço que facilita a construção de momentos ricos e diversificados, pois, como refere Moura (2009), “um espaço adequadamente organizado ajuda no desenvolvimento das potencialidades das crianças à medida que contribui para o desenvolvimento de novas habilidades, sejam elas motoras, cognitivas ou afectivas” (p. 142). 1 2 8 7 4 3 5 6
4.3.2.1 Organização e Gestão do Tempo Pedagógico: Rotina Diária.
A sucessão de cada dia ou sessão tem um determinado ritmo existindo, deste modo, uma rotina que é educativa porque é intencionalmente planeada pelo educador e porque é conhecida pelas crianças (ME, 1997, p. 40).
A rotina da Sala do Ursinhos tem em consideração o ritmo e as necessidades das crianças, correspondendo aos tempos e períodos do quotidiano escolar. Através da rotina, o grupo conhece a sucessão dos diferentes momentos que marcam o dia. Os tempos pedagógicos (vide tabela 1) iniciam-se no acolhimento, passando pelas atividades livres e orientadas, sem olvidar os momentos de alimentação e higiene das crianças, tendo sempre “em conta o bem-estar e aprendizagens, incorporando os requisitos de uma dinâmica participativa na organização do trabalho e do jogo” (Oliveira-Formosinho & Andrade, 2011, p. 72).
Tabela 1. Rotina diária da Sala dos Ursinhos.
Turno Horário Atividade
Manhã 08:30 – 09:00 Atividades Livres 09:00 – 09:30 Acolhimento do Grupo 09:30 – 10:00 Lanche 10:00 – 10:30 Recreio 10:30 – 11:30 Atividades Orientadas 11:45 – 12:30 Almoço 12:30 – 13:00 Higiene Tarde 13:00 – 14:45 Descanso 14:45 – 15:15 Atividades Livres 15:30 – 16:00 Lanche 16:00 – 16:30 Recreio 16:30 – 18:00 Atividades Orientadas 18:00 – 18:30 Atividades Livres
Aquando da prática pedagógica, questionei-me acerca da importância da rotina diária, principalmente nas semanas em que tive a necessidade de a alterar. Com efeito, as rotinas “actuam como as organizadoras estruturais das experiências quotidianas, pois esclarecem a estrutura e possibilitam o domínio do processo a ser seguido e, ainda, substituem a incerteza do futuro” (Zambalza, 1998, p. 52). Efetivamente, as crianças necessitam de segurança e a rotina proporciona-
a, uma vez que o grupo sabe com o que pode contar, gerindo de forma autónoma o seu dia. Se, por outro lado, não existisse um planeamento do quotidiano, as crianças nunca saberiam o que esperar, o que provocaria ansiedade e receio relativamente à novidade.
Apesar de, inicialmente, a existência de uma rotina diária me suscitar algumas dúvidas, apercebi-me da estabilidade que incute nas crianças, as quais dirigem o seu dia-a-dia, sabendo qual a atividade a realizar e em que momento. Percebi rapidamente que as rotinas são fundamentais no quotidiano de uma escola; porém, é necessário que o seu conteúdo seja um fiel reflexo dos valores que regem a ação educativa. Como enuncia Zambalza (1998), mais do que discutir a existência ou não de rotinas, é importante perceber se o conteúdo das mesmas promove momentos de intencionalidade educativa com vista ao sucesso escolar, social e intelectual da criança, tendo como principal objetivo “o desenvolvimento equilibrado da criança, tendo em vista a sua plena inserção na sociedade como ser autónomo, livre e solidário” (ME, 1997, p. 15).
Quando temos uma rotina estabelecida, é mais fácil torná-la flexível, ou seja, mudar algum acontecimento do dia sem destabilizar o grupo, cabendo ao educador alterar a rotina para promover aprendizagens diversificadas, tendo em conta as diferentes áreas de conteúdo. Nas semanas em que senti a necessidade de proceder a alterações nesta rotina, expliquei ao grupo o motivo e qual o objetivo, tendo as crianças reagido com aceitação, sem denotarem qualquer lacuna temporal. Embora estivesse apreensivo relativamente a esta mudança, cheguei à conclusão que esta minha atitude me possibilitou encarar de forma diferente a rotina diária de uma criança. Tomei consciência de que é importante existir uma rotina, ainda que esta deva ser flexível de modo a proporcionar novos momentos às crianças, tendo sempre em conta o seu bem-estar emocional e social.