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Como observado em clínica, tanto na rotina hospitalar quanto na ambulatorial, podem ser observadas diferentes formas de o indivíduo reagir à enfermidade. Concordando com os teóricos supra-citados no capítulo 2 que tratam do enfrentamento, esta pesquisa mostra que, para preservar o ego de situações que ameacem a integridade, os participantes podem recorrer a variados mecanismos. Nesta busca, eles também podem encontrar recursos positivos de enfrentamento reorganizando-se frente à doença e aos episódios específicos do processo de tratamento. Além das características pessoais

desses integrantes, que muitas vezes podem determinar processos de resiliência frente à doença, também se mostram importantes a intensificação de algumas estratégias utilizadas para facilitar o desencadeamento de tais processos.

E1- Discurso sobre a intensificação da espiritualidade no percurso da doença

“Porque... as coisas de Deus... Ele mexe muito com a gente e...é

como se houvesse uma transformação a partir daquela hora.

Foi assim que eu me senti e me sinto até hoje.” (E1)

“Iniciou antes. Mas ele amadureceu e cresceu, com fé, antes

de eu sair de casa, que eu conversei com Deus, eu fui “pra” o meu quarto, fiquei diante de um espelho e fiz de conta que o espelho fosse Deus, e eu conversei com Ele ali, e me entreguei totalmente, ali, naquela hora, nas mãos Dele. E fui consciente que não... eu, no meu ponto de vista, não voltaria.” (E1)

“Então, uma pergunta que eu fiz a Deus, e Deus me deu resposta em seguida... Ë muito bonito quando você recebe a

resposta de Deus, é bonito demais! (E1)

F- O otimismo, o bom humor e a alegria auxiliam o doente em seu dia-a- dia

Embora algumas participantes tenham mostrado sinais de depressão, outras enfatizaram o otimismo, o bom humor e a alegria em seus discursos.

Pode-se pensar que tais atitudes se refiram a uma tentativa de adaptação a uma situação sobre a qual não têm controle. Neste sentido, funcionariam, mais ou menos, como um recurso de resgate do bem-estar, não apenas físico como também do

psicológico. Por outro lado, atitudes de otimismo, bom humor e alegria podem aliviar a tensão psicológica provocada pela dor e pelo sofrimento.

Astedt-Kurki e Isola (2001), segundo Araújo (2006), em seus estudos apontam que o bom humor e o riso são entendidos como a capacidade do indivíduo de ver o lado divertido e engraçado das situações.

Neste particular, em função das pausas e risadas que foram observadas ao longo do encontro, pode-se inferir certo amadurecimento do grupo em relação às primeiras reações frente ao recebimento do diagnóstico.

As mesmas autoras entendem que a risada possa produzir efeitos benéficos no organismo do indivíduo, tanto fisiológicos quanto emocionais. O relaxamento produzido pela risada pode levar à diminuição da pressão arterial, da frequência cardíaca e da tensão muscular.

Apontam ainda que a risada pode aliviar a ansiedade, a tensão e a insegurança, além de se transformar em estratégia de enfrentamento.

No que se refere a este aspecto, observou-se no presente Grupo de Pesquisa que as participantes valorizam o otimismo, o bom humor e a alegria. Tais expressões não deixam de ser uma manifestação de esperança em relação a uma melhora de seu quadro clínico, o que se pode denotar em algumas de suas falas:

F1- Discursos sobre otimismo, bom humor e alegria

“Deus, Deus, Deus. Deus me sustentou desde o primeiro momento, desde o bloco cirúrgico, que ali eu vi a obra de Deus feita dentro do bloco... é... uma transformação muito... muito bonita e muito difícil de descrever... e... muito emocionante, né? Porque... as coisas de Deus... Ele mexe muito com a gente e...é como se

houvesse uma transformação a partir daquela hora. Foi assim que eu me senti e me sinto até hoje.” (E1)

“Mas eu fui consciente. Disse ao médico... que fizesse o que fosse preciso. Eu precisava viver.” (E2)

“Todo dia eu faço um exercício, assim, mental “pra” me preparar “pra” morte. Entendeu? Eu quero viver! Eu quero viver!” (E3)

“Mas eu tinha certeza que eu não ia me “estribuchar” no chão. Tinha certeza. Acredito também muito em Deus, meus anjos da

guarda, Nossa Senhora “tava” ali comigo e “tava” me segurando.” (E5)

“Quando a gente é espiritualizada, a gente passa isso, transmite isso aí, sem querer até. Até mesmo pelo jeito de olhar, do jeito

de sorrir, do jeito de falar e do jeito que as coisas vêm “pra” gente. A gente não se sente tão agredido, quanto poderia ser.” (E5)

“Levando sempre na brincadeira, eu acho que isso é um

espiritual. Deus dá uma força diferente “pra” cada um da gente, e a gente sabe lidar com cada problema de uma forma diferente.” (E5)

“Você parece que... a gente vem aqui, prega uma coisa ‘pra’ você,

mas você dá outra ‘pra’ gente, que é uma resposta positiva daquilo. Você dá muita coisa.” (E5)

“...Mas é aquela história, que a gente descobrir a coisa, o positivo do negativo, “né”?” (E5)

“Eu completei dezesseis anos.” Não é? Aí eu nunca falo quando

eu tive. Que já passou. Eu nunca penso, nunca deixei de sair, de ir “pra” festa, de ir “pra” nada, mesmo carequinha, boto o lenço. Na época que foi minha primeira quimioterapia, minha irmã me deu uma peruca.” (E7)

“Deus me quis assim. Se Ele me curou mais uma vez é porque Ele ‘tá’ aí me dando essa chance e Ele ainda tem muitos propósitos na minha vida.” (E7)

G- A barganha é utilizada numa tentativa de controle sobre a situação

De acordo com os estudos de Araújo (2006), Anjos e Zago (2006) têm a percepção de que as pessoas que vivenciam a situação de uma doença grave utilizam-se sua fé, quer seja sob o aspecto de uma religião formal quer seja como expressões de sua espiritualidade, como base de superação de dificuldades. A observação de algumas destas pessoas dá a entender que passam a fazer um discurso de uma pessoa melhor, mais forte, que prega a solidariedade, com participação ativa em determinado grupo social.

A maioria dos participantes (05), do presente Grupo de Pesquisa, declara pertencer à religião católica. Duas participantes declaram pertencer à religião evangélica. Por isso, seus discursos revelaram certa elevação moral e o teor de seu relacionamento com Deus. Porém, ao mesmo tempo em que denotam fé, amparo e confiança por um Ser Supremo, também imprimem a seus discursos certa conotação de troca, a qual Kubler- Ross, (1998) denomina “barganha”.

Ainda em consonância com as ideias de Kubler-Ross (1998), em um contexto hospitalar, existem várias demandas, algumas das quais podem ser observadas em outros contextos, como é o caso do presente Grupo de Pesquisa.

Embasado na autora supra-citada, estar diante do quadro de uma patologia severa é uma realidade que muitos dos que são acometidos por estas doenças precisam digerir internamente e assimilar. Consequentemente, este processo requer muita compreensão e paciência por parte das pessoas e profissionais que acompanham o doente.

Elizabeth Kubler-Ross (1998) elenca cinco estágios pelos quais os pacientes em estado terminal podem ou não passar: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação.

Observou-se que alguns participantes deste Grupo de Pesquisa transitam por este estágio, numa tentativa, talvez, de manter certo controle sobre a situação de acordo com as falas que seguem abaixo:

G1- Discursos sobre barganha

“Oxe”, é só com essa? “Apois”, vou tomar até o final, sem

reclamar! E Jesus me abençoou... “que” eu não reclamei, e demonstrei ter mais força “pra” outros que estavam do meu lado” (E1)

“Mas eu fui consciente. Disse ao médico... que fizesse o que fosse preciso. Eu precisava viver....eu pedi muito à Deus que me

tirasse. Porque eu precisava lutar.”(E2)

“Eu tinha muita missão aqui... “pra” cumprir ainda” (E2)

“Então, eu creio que... eu fiquei aqui... é... que Deus viu que eu

tinha a missão de que? Da família e de ajudar sempre quem me procura. Porque depois desse meu problema, muita gente

me procura!” (E2)

“Não meu fim, assim... Eu digo assim... Se for a minha história! Se a minha história foi essa, permitida por Deus, “num” é? Porque tudo esta permitido, “tá” embaixo do controle do Senhor. Então

que o Senhor me dê força, né? “Pra” poder eu enfrentar isso.

Agora eu pergunto: “Eu quero?” (E3)

“... E Deus faz a gente fazer essa coisa, “pra” justamente passar isso “pras” pessoas. Eu me acho instrumento dessa obra.” (E5)