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As indicações de Pedro Pagni (1997)49 são profícuas para entendermos essa

reordenação de sentidos. Ele nos apresenta a atividade física e o esporte como práticas que vão sendo incorporadas como cuidados com o corpo; e a educação física, como um meio de educação geral que corrobora a formação moral e do caráter do homem. Esse autor aponta como circulante a prescrição de exercícios físicos para jovens e crianças desde a segunda metade do século XIX, observada a publicação de manuais pedagógicos e theses de medicina. Entretanto, no seu entendimento, os colégios estavam mais preocupados com seu potencial

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Completa Melo em nota de rodapé: “Para se ter uma idéia, em 1904 já existiam na cidade de São Paulo 72 clubes futebolísticos, 9 de ginástica, 2 de canoagem, 4 de esgrima, 5 de tiro, 1 de corridas, 2 de ciclismo, 8 de atletismo, 3 de lawn-tennis, 4 de baseball, 2 de peteca, 2 de cinquilho, 1 de equitação, 2 de pedestrianismo, 1 de patinação [...]. No Rio de Janeiro, o número de clubes ligados as mais diversas modalidades esportivas também não ficava atrás e era crescente”.

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disciplinar do que com o higiênico, sendo, por isso, o exercício físico incorporado inclusive em instituições religiosas. Tal tolerância proveria, argumenta, da imposição de novos hábitos e comportamentos exigidos pela vida moderna que aos poucos se instalava com a “civilização”.

A questão é que o conhecimento produzido cientificamente – pelos médicos – “desencanta”

...um dos objetos concebidos como o mais perigoso para a vida moral, o corpo, dissecando-o e formulando técnicas que visavam colocá-lo a serviço da razão humana, e consequentemente também da formação da moral do indivíduo (Pagni, 1997, p. 63).

Esse conhecimento incluiu, entre outros, algumas formulações sobre a educação física e a ginástica, “...sobre a sua necessidade na educação das crianças e dos jovens, bem como sobre como essas deveriam ser ministradas às novas gerações” (p. 63). Em última instância, esse conhecimento argumentava que, “...quando adequadamente ministrados e praticados, os exercícios físicos poderiam produzir não somente efeitos físicos e fisiológicos, mas sobretudo efeitos morais importantes para a formação do caráter” (p. 64). Em suma, um conhecimento que servia em muito à educação. Porém, apesar dessas argumentações, ao que tudo indica, a implementação dessas práticas ocorre sem organicidade e não seduz a elite brasileira (sim, nesse momento é a ela que se dirige essa produção),

...pois até o início [do século XX], mesmo entre essa camada da população, a prática da ginástica, das caminhadas e dos banhos não haviam sido adotadas como pretendiam os médicos. Pode-se dizer que o peso de uma organização social baseada no trabalho escravo e de uma tradição cultural heterogênea foi maior do que a influência do discurso e das prescrições médicas. Estes não foram suficientes para alterar significativamente o modo de vida e os comportamentos das camadas sociais mais ricas de nossa população (Pagni, 1997, p. 66).

Esse quadro parece só se alterar já no século XX, quando alguns grupos intelectuais buscam, com entusiasmo, “...a solução para os nossos problemas respaldados no conhecimento científico difundido – entre outros, o saber médico” (p. 68). Gozando então de respaldo de outros segmentos profissionais, médicos e

outros intelectuais se empenham na construção e realização de um projeto de modernização social e cultural para o Brasil. Apesar de um pouco longa, vale a pena acompanhar a avaliação de Pagni (p. 69-70):

O exercício físico, nesse momento, apesar das inúmeras resistências que ainda persistiam, era representado como uma das fontes de saúde, da beleza física e da possibilidade de regenerar nossa constituição racial. Desta vez, porém, reivindicava- se que os exercícios físicos fossem disseminados não apenas para alguns, mas para a maioria da população brasileira. Sem tal abrangência e universalização de sua prática seria impossível efetivar as promessas por ele anunciadas e, muito menos, instaurar um processo de regeneração racial [...] – elemento considerado imprescindível para a formação de uma ‘cultura brasileira’.

O meio proposto para consegui-lo foi a instituição da obrigatoriedade da educação física nas escolas oficiais e particulares. Juntamente com as lutas pela extensão da rede de ensino e da constituição de um sistema nacional de educação, a educação física deveria ser estendida a todos [...]. Esta deveria ser a sua nova responsabilidade, porém, entre as pessoas que apostavam numa constelação de mecanismos de controle social para garantir a regeneração da raça – isto é, a tese da eugenia – poucas eram aquelas que acreditavam que esse processo de ‘transformação étnica’ [...] deveria restringir-se a um fortalecimento físico, a uma robustez e a uma maior resistência às doenças [...]. Além de saberem que a prática do exercício físico isoladamente nada poderia fazer em relação a eugenia, a maioria dos profissionais envolvidos nessa discussão [...] sabia que esta só se daria com uma reforma profunda de nossa cultura e da mentalidade de nossa população [...]. Sabiam que essa transformação pretendida, portanto, dependeria da educação geral da população.

Essa é uma das grandes discussões das décadas de 1930 e 1940, que, entretanto, começa a ser colocada desde o final do século XIX, com o não votado parecer de Rui Barbosa. As questões em jogo eram problemas relacionados com a saúde individual e coletiva e com a formação do caráter e da identidade próprios ao homem brasileiro. Se, por um lado, a rígida disciplina ginástica não emplaca nas escolas e fora delas (Moreno, 1998) como a “maior” manifestação da construção dessa “brasilidade”, o esporte vai se apresentando como uma das vias dessa construção. Aparentando ser algo mais espontâneo, vivificante e moderno, o esforço físico e a disciplina nele contidos parecem ser “...[suplantados] pelos desafios e pelos códigos [de honra] nele inscritos” (Pagni, 1997, p. 71). É ele que parece melhor congregar jovens, adultos, famílias em seu tempo livre, sendo desfrutado não só como prática “física” mas, também, “visual”. Como observam as pesquisas já citadas de Lucena e Melo e ainda este texto de Pagni. Para ele,

A motivação para sua prática não dependia tanto das promessas formuladas por especialistas [leia-se médicos,] depois disseminadas com o intuito de convencer as

pessoas sobre os seus benefícios – tanto que, durante esse período apenas era noticiado como uma novidade e como um fato jornalístico (Pagni, 1997, p. 71).

A grande reordenação parece ter se dado com a pedagogização/escolarização dessas práticas físico-esportivas em termos diferenciados das colocações do tipo

prescrição médica.50 O estudo de Pagni aponta o esboço dessa situação na

década de 1910, ganhando maior força na de 1920. Segundo ele, a estratégia inicialmente adotada por médicos que ocupavam postos importantes no Governo e que elaboravam políticas públicas foi a de “...transmitir à população pobre das grandes cidades alguns hábitos higiênicos e cuidados com o corpo de modo impositivo” (p. 73). Sem o sucesso esperado e com forte reação da população, é então repensada a forma de transmissão desses hábitos (não há dúvida sobre a necessidade de transmiti-los), ou seja, a reformulação dessas estratégias sociais. O que se queria era um caminho que diluísse as resistências esboçadas pela população e o que se vislumbrou foi o estabelecimento de procedimentos pedagógicos, pois acreditava-se que boa parte da resistência advinha da ignorância. Tornavam-se imperiosas reformas educacionais que ampliassem o número de escolas e, dentro delas, os mecanismos (que não se restringiram à disciplina de educação física) de difusão e incorporação desse novo habitus.

A sugestão de Pagni é que esse processo ganha vida, dentre outras coisas, pelas mãos de Fernando de Azevedo que se (re)apropria das formas pedagógicas que podem assumir a educação física e o esporte, bem observado: dentro e fora da escola. Na sua longa carreira intelectual e política, Fernando de Azevedo não se ocupou só com a educação física, mas para ela chegou ao detalhamento de, numa reflexão bem mais ampla, pensar um programa. Em síntese,

Nesse programa [...] as dores e o sofrimento que o exercício físico pressupunha deveriam ser minimizados por uma série de procedimentos pedagógicos que visavam tornar mais prazerosa a sua prática. Ao mesmo tempo, [propunha] uma prática de esporte que pretendia disciplinar a espontaneidade e o entusiasmo pressuposto nessa atividade através de um controle racional dos movimentos e das emoções, a ser internalizado pelos indivíduos durante um treinamento físico desenvolvido antes de sua prática (Pagni, 1997, p. 75).

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É preciso pensar se isso pode ser identificado como uma das rupturas fundamentais para o processo de especialização necessário ao campo nos termos em que pensa Bourdieu. Foi a partir dessa observação que construí minha hipótese de estudo e trabalho.

O que Fernando de Azevedo tinha em mente era a formação de “homens de ação”. Homens que teriam a agressividade controlada, o desejo educado, a solidariedade desenvolvida e fossem portadores de um sentimento de identidade nacional, tudo isso forjado pela educação, dentro e fora da escola, dentre outros, por uma educação física e abarcava, doravente, a prática metódica e sistematizada de esportes.51

É sabido que as idéias e propostas de Fernando de Azevedo “...pouco influenciaram os programas de educação física e a prática do esporte desenvolvidas nas décadas seguintes, só alcançando parcialmente suas ousadas pretensões” (p. 80). Na avaliação de Pagni, inclusive, ainda que hoje se observe essa mudança de hábitos e comportamentos com relação ao corpo e ao movimentar-se, isso aconteceu

...menos em função dos médicos e dos educadores, ou mesmo dos especialistas formados para trabalhar com tais atividades, e mais em função da transformação do corpo – e de todas as atividades relacionadas a ele – em objeto de consumo, bem como da exploração de sua imagem pelos meios de comunicação como uma promessa de felicidade a ser desfrutada na vida privada individual [...].

Com isso, os exercícios físicos e o esporte perderam [...] boa parte da finalidade educativa, por mais questionável que fossem, prescrita pelos médicos e educadores no período aqui analisado. A formação moral e a formação do caráter foram deixadas de lado em sua prática, restando apenas a relação do indivíduo com seu próprio corpo como um fim em si mesmo. Nessa relação, os indivíduos buscam desesperadamente encontrar [nele] sua identidade pessoal, destituída do mundo do trabalho e das responsabilidades sociais, deslocando para a sua vida privada toda a satisfação não mais desfrutada no mundo público (Pagni, 1997, p. 80-81).

Considerando que essa situação, pela sua própria historicidade, não estava sequer esboçada nas theses de medicina e nos manuais pedagógicos apresentados pelos médicos no século XIX, nem na reflexão e nas propostas de Fernando de Azevedo, para Pagni, é o acompanhar e analisar essa história da prescrição das atividades físicas e cuidados com o corpo que pode jogar novas luzes para o enfrentamento das discussões a respeito da educação física e do esporte. Concordando, no que tange às possibilidades de enfrentamento, e não

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descartando a tenacidade do mercado, quero esboçar uma reflexão que enceta a compreensão dessa pedagogização e escolarização de determinadas exercitações (uso o termo empregado pelos médicos no século XIX) como forte concorrente para o engendramento do campo, porque, “definitivamente”, colocam como sendo da educação (escolar e não escolar) as questões da educação física. Essa me parece uma reordenação importante a ser observada, tanto no que se refere às condições de possibilidade que permitem a configuração de um campo por volta de 1930, como no que tange à autonomia tardia de o campo pensar-se. Uma questão a ser enfrentada é se, como sugere Oliveira (1997), já abrimos mão – no campo e como campo – de sermos intelectuais da cultura, autofagicamente legando à indústria e ao comércio “do corpo” os destinos da educação – não só física.