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The tectonometamorphic evolution of northern Norway

5   Synthesis

5.1   The tectonometamorphic evolution of northern Norway

Pois bem, como sugeriu Laurent (2010), a mascarada nos permitiu uma leitura do efeito de feminização a partir da articulação do falo como significante, assim como da apassivação dos homens de ação. Contudo, como vimos, o enigma ainda fica do lado da mulher. Afinal, o que Lacan queria dizer com rejeitar “uma parte essencial da feminilidade” (Lacan, 1958/1998, p. 701)? Ou como entender o comentário de Riviere (2005) de que a máscara não é incompatível com a feminilidade genuína, mas, sim, o uso que sua paciente faz da mesma? Vimos que para Laurent (2010) as discussões sobre o efeito de feminização só podem avançar caso incluamos o gozo na discussão. Para tratarmos disso, retomemos algumas leituras que apresentamos sobre a articulação falo e feminino.

No caso de Bonaparte, entende-se o falo como o pênis e o feminino como sua ausência, o que leva à busca pelo mesmo. Como o gozo se apresentaria nesse caso? Podemos fazer uma hipótese, a partir de um comentário do psicanalista francês Serge André (2011). Este situa quais as consequências de se interpretar o gozo feminino como possível de ser extraído por um deslocamento metonímico do pênis para o clitóris. Bonaparte aparece, aqui, não como teórica, mas como um exemplo clínico: “Marie Bonaparte,… afetada por uma frigidez irredutível, submeteu-se a uma operação cirúrgica que consistia em aproximar o clitóris da entrada da vagina” (André, 2011, p. 21).Sua posição em relação ao seu sintoma de frigidez parece ser compatível com sua leitura biológica da psicanálise: em ambos percebemos uma hipótese de que a ausência do pênis seria um impedimento para um gozo feminino. Segundo André (2011), para Bonaparte a esperança de experimentar tal gozo estaria no clitóris, por esse ser um órgão na mulher mais próximo do pênis no homem. Trata-se de uma noção da feminilidade que remete a uma anatomia genital.

Nesse sentido, já poderíamos localizar uma diferença entre a concepção lacaniana e a bonapartiana sobre o feminino. Ao radicalizar a leitura freudiana e definir o falo como significante, Lacan (1958/1998) critica a “existência da genitalidade, da maturação genital

como um conceito psicanalítico” (Rabinovich, 1995, p. 12). Por outro lado, ainda não apresenta elementos para pensarmos o gozo.

Façamos a transposição da questão do gozo para o artigo de Riviere. Neste, resta pouco explicada a observação sobre “o puro deleite do gozo” (Riviere, 2005, p. 17): o problema da mascarada não é que sejam falsos seus semblantes de mulher, mas que ela os vive com uma defesa. Assim, a paciente tinha “a capacidade feminina” (Riviere, 2005, p. 17), mas sua feminilidade teria um papel secundário, e não seria uma forma primária de prazer.

Riviere, portanto, estava atenta às questões do gozo. Quanto a isso, o que é exemplar no caso é a observação de que, ao manter relações sexuais com o marido, ela só conseguia extrair prazer quando assumia a posição masculina. Se traduzirmos isso em termos lacanianos, podemos dizer que para se satisfazer essa paciente rejeitava uma parcela importante de sua feminilidade, pois seu modo de satisfação estava completamente condicionado ao falo.

Contudo, para André (2011), existe um ponto deste caso que nos permite pensar no gozo, para além das questões fálicas. Assim, como vimos, ao ter uma posição masculina reconhecida pelos homens, a paciente se identifica com o pai e toma suas insígnias masculinas exatamente para restituir à mãe, ou às mulheres mais frágeis que ela, o falo. Assim, temos aqui dois tipos de reconhecimento: aquele da sua masculinidade pelos colegas de trabalho e o seu disfarce como mulher para se salvar da possível vingança. Este último, já trabalhado por nós, seria apenas um primeiro objetivo. O segundo seria o reconhecimento materno: uma vez identificada como aquela que não tem o falo, ela precisa restituí-lo às mulheres. Tal situação era ainda mais complexa que a primeira, pois gerava uma angústia mais difícil de ser evitada e apresenta maiores dificuldades para a paciente33. Mas por quê?

Para André (2011), isso se deve ao fato de que, na mascarada, a feminilidade, vivida como castração, tenta velar o horror da posição da qual uma mulher tem que se haver com o que ultrapassa o falo. Portanto, conclui-se que a mascarada só pode se aceitar como não fálica sob a forma de um abandono, de uma cessão: se algo passa ao largo do falo, é porque ela o tinha e se desfez dele. Desta forma, para este psicanalista, ao encenar a castração, a mascarada estaria defendendo-se de um gozo alhures ao falo.

Podemos pensar que essa hipótese é compatível com a observação de Riviere (2005). Ou seja, o problema da paciente não seria a máscara, mas tentar encerrar todas suas possibilidades de satisfação no falo. Ela se prendia na dialética de tê-lo ou ser castrada do

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Recordemos que Riviere (1929/2005) observa que essa estratégia foi usada pela paciente por toda sua vida, e, às vezes, quase a levou à morte.

mesmo e, assim, defendia-se de uma “parcela essencial da feminilidade” (Lacan, 1958/1998, p. 701): de um gozo que “não fosse” fálico.

Esse ponto é fundamental para nossa discussão. Lembremos que nossa leitura do efeito de feminização pela carta/letra orienta-se pelo Seminário 18. Neste seminário, embora não descarte suas elaborações do falo como significante, Lacan (1971/2009) confere-lhe o estatuto de semblante. Esta noção, como veremos, terá uma importância teórica para a psicanálise e possibilitará uma articulação entre o gozo e falo e o que está para além dele.

Aqui, como introduz Laurent (2010), temos um desafio, pois, em “O seminário...”, a questão do gozo não aparece explicitamente. Poderíamos pensar que, tal como a carta/letra, o gozo circula “envelopado”, o que não deixa de ter suas consequências sobre aqueles que detêm a carta.

Assim, vale notarmos que é exatamente com o efeito de feminização que Lacan assinala algo do campo do gozo que parece trazer questões que ultrapassam o que pode ser investigado a partir da referência ao tratamento simbólico do falo. Em relação a esse, o feminino resta na sombra, como o continente negro freudiano.