• No results found

Dado, informação, conhecimento e, menos frequentemente sabedoria, são palavras mencionadas na literatura que trata sobre sistemas de informação, gestão da informação, gestão do conhecimento (ROWLEY, 2006). O foco se concentra na natureza e definição de conhecimento, tanto que às vezes, as palavras dado, informação e sabedoria são apenas citadas ou seus conceitos pouco aprofundados (ROWLEY, 2006).

Dado, informação e conhecimento tem significado ligeiramente diferente, apesar de serem muitas vezes utilizadas como sinônimo (SCHREIBER et al., 1999) entre si e com os termos inteligência, notícia, significado e sabedoria (MEADOW et al., 2007). Para Stefik (1999), uma distinção precisa entre dado, informação e conhecimento, é ilusória. Geralmente, informação é definida em termos de dado, conhecimento em termos de informação e sabedoria em termos de conhecimento, apesar de não existir um consenso entre os autores na descrição de como tal processo acontece (ROWLEY, 2006).

A hierarquia dados-informação-conhecimento-sabedoria, em inglês DIKW, é utilizada para contextualizar a relação entre dados,

informação e conhecimento, menos frequentemente sabedoria, e para identificar e descrever os processos que transformam os elementos inferiores na hierarquia em seu subsequente ou mais elevado elemento (ROWLEY, 2006).

Há anos, a hierarquia faz parte da linguagem da ciência da informação, no entanto, não se sabe ao certo quando nem por quem tais relações foram apresentadas como uma hierarquia (WALLACE, 2007). Muitos autores concordam que ela apareceu pela primeira vez no poema de T.S. Eliot, intitulado The Rock, publicado em 1934 (ROWLEY, 2006; WALLACE, 2007), no qual Eliot questionava: Onde está a sabedoria que nós perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que nós perdemos na informação? (ROWLEY, 2006). Outros creditam à Russell Ackoff a criação da hierarquia, quanto este proferiu, em 1988, o discurso presidencial para a International Society

for General Systems Research intitulado From data to wisdom e, no ano seguinte, o publicou no Journal of Applied Systems Analysis (ROWLEY, 2006; WALLACE, 2007). No entanto, recentemente o crédito vem sendo atribuído a Milan Zeleny, que apresentou explicitamente dados, informação, conhecimento e sabedoria como taxonomia (hierarquia) do conhecimento em 1987, no artigo publicado na revista Humans Systems Management, intitulado Management

support systems: Towards integrated knowledge management

(WALLACE, 2007).

A hierarquia em formato gráfico não foi oferecida por Ackoff nem Zeleny (WALLACE, 2007). Foram Anthony Debons, Estner Horne e Scott Cronenweth que apresentaram pela primeira vez ela graficamente, com os seguintes estágios: a) eventos e progressos, b) símbolos, c) regras e formulações, d) dados, e) informação, f) conhecimento e g) sabedoria (WALLACE, 2007).

Segundo Rowley (2007), geralmente os autores dividem a hierarquia em dados, informação, conhecimento e sabedoria, organizados virtualmente nesta ordem. Alguns oferecem estágios adicionais, como Debons, Horne e Socott (1984 apud WALLACE, 2007) que, conforme já dito, apresentaram os estágios eventos e progressos, símbolos, regras e formulações; Russel Acktoff que propôs compreensão (understanding); Milan Zeleny, entendimento (enlightenment); Ashok Jashapara, verdade (truth). Geralmente, as definições e os processos são descritos segundo a perspectiva dos sistemas de informação, o desafio implícito, está em entender e explicar como dado é transformado em informação, informação em conhecimento e conhecimento em sabedoria (ROWLEY, 2007).

A sabedoria, nível mais alto da pirâmide do conhecimento ou da hierarquia do conhecimento, é um conceito negligenciado (tem recebido pouca atenção) na literatura sobre gestão do conhecimento e sistemas de informação (ROWLEY, 2006). O objeto desta investigação é o conhecimento, por isso a sabedoria não é detalhada a seguir, o que não significa que não tenha importância ou não deva ser estudada em nível individual e organizacional. Aliás, Rowley (2006) sugere que ela seja estuda em nível individual e organizacional.

2.1.3.1 Dados, informação e conhecimento

Não existe definição universalmente aceita do que é dado (KENDAL; CREEN, 2007). O mesmo ocorre com informação (MEADOW et al., 2007) e conhecimento, que compartilham fundamentos comuns e são utilizados, às vezes, para dizer a mesma coisa ou empregados de modo equivalente (ROWLEY, 2006). Segundo Schreiber et al. (1999), a dificuldade em responder o que é conhecimento está no fato que conhecimento depende muito de contexto; conhecimento para um indivíduo pode ser dado para outro. Para os autores (1999, p. 5, tradução minha), “as fronteiras não são nítidas entre dado, informação e conhecimento, visto que dado, informação e conhecimento são relativos em relação ao seu contexto de uso.” Nonaka e Takeuchi (1997) sustentam que existe uma diferença nítida entre informação e conhecimento, apesar de tais termos serem utilizados com frequência de forma equivalente. No entendimento deles (1997, p. 63), “informação é um meio ou material necessário para construir conhecimento”, afeta o conhecimento acrescentando algo ou reestruturando.

Machlup (1962) comenta que muitos autores insistem na distinção entre informação e conhecimento por acreditarem que informação refere-se ao ato ou processo pelo qual o conhecimento (sinal ou mensagem) é transmitido. Para o autor, sempre que possível deve-se utilizar a palavra conhecimento para o significado comum de informação, pois no uso comum da palavra toda informação é conhecimento, embora nem todo conhecimento possa ser chamado de informação. Conforme justifica, linguisticamente, a diferença entre informação e conhecimento está, principalmente, na forma verbal: informar é uma atividade pela qual o conhecimento é transmitido; conhecer pode ser o resultado de ter sido informado. Informação como o ato de informar é projetado para produzir o estado de conhecer na mente de um indivíduo, informação como o que está sendo comunicado torna-

se idêntico com conhecimento no sentido do que é conhecido. Assim, a diferença não está nos substantivos quando eles se referem ao que alguém conhece ou está informado; está nos substantivos somente quando eles são utilizados como referência ao ato de informar ou ao estado de conhecer, muitas vezes, informação não é utilizada no último estado (MACHLUP, 1962).

Na literatura acadêmica, dados, em latim datum, é frequentemente definido como fatos brutos, sem significado ou valor, não organizados nem processados (KENDAL; CREEN, 2007; ROWLEY, 2007). “Na maioria das definições sobre dado, informação e conhecimento, apenas dados podem ser transportados ou comunicados que, por sua vez, podem ser interpretados por indivíduos ou sistemas sociais” (MAIER, 2007, p. 71, tradução minha).

Segundo Zeleny (1987) dados não são simplesmente fatos objetivos semelhante para todos os indivíduos e igualmente “dados” para todos. Para alguns indivíduos são informação, para outros é o conhecimento de outro indivíduo, o que conduz a uma contínua e interdependente (até circular e autoprodutiva) criação e recriação de dados, informação, conhecimento e sabedoria na sociedade humana. Assim como informação, dados (sendo componentes) podem ser gerados por si, ou seja, sem direta interpretação humana.

Informação é geralmente definida como dado, processado ou transformado em forma ou estrutura apropriada de utilização (KENDAL; CREEN, 2007). Para grande parte dos autores, tem significado, comumente carrega a conotação de dados avaliados, validados e úteis (MEADOW et al., 2007). Na literatura de sistemas de informação e gestão do conhecimento é comum os pesquisadores definirem informação em termos de dados, focando a relação entre informação e dados (ROWLEY, 2007).

A palavra informação tem significados diferentes, o consenso de seu significado ainda não foi atingido, bem como se é a estrutura ou o significado que diferencia informação de dados. Se for a estrutura, a informação pode ser armazenada na mente humana e nos sistemas de informação, se for o significado, tudo o que pode ser mantido em sistemas de informação são dados (ROWLEY, 2007). Ackoff (1999a) postula que é a função que diferencia dado de informação, não a estrutura.

A informação pode se transformar em conhecimento e o conhecimento em informação. Quando o conhecimento é copiado, armazenado e transmitido eletronicamente, ele torna-se informação (DAWSON, 2005). Schmid e Stanoevska-Slabeva (1998) e Stanoevska-

Slabeva (2002) rotulam informação como a forma codificada do conhecimento externalizado, Nonaka e Takeuchi (1997) chamam de conhecimento explícito. A palavra também é utilizada para designar na linguagem cotidiana a comunicação de conhecimento (CAPURRO; HJORLAND, 2007), entendida por Eppler (2008, p. 325, tradução minha) como “[...] atividade (intencional) de transmissão interativa e coconstrução de entendimentos, avaliações, experiências ou habilidades através de meios verbais e não verbais.”

Na maioria das definições, conhecimento “[...] tem a qualidade de ser um conjunto integrado de informações recebidas de múltiplas fontes” (MEADOW et al., 2007, p. 41, tradução minha). Geralmente, conhecimento é definido com referência à informação, é visto como uma mescla de informação, entendimento, capacidade, experiência, habilidades e valores (ROWLEY, 2007). Não é à toa, que Zeleny (1987) define conhecimento como a habilidade humana de fazer distinções, escolhas e decisões. Kendal e Creen (2007) entendem que conhecimento é o que um indivíduo tem depois de compreender informações.

A ideia de que o conhecimento pode ser capturado, representado e modelado, segundo Zeleny (1987), é adequada para a inteligência artificial, mas não relacionada à inteligência humana. Conforme o autor, conhecimento e sabedoria (sendo relações) não podem ser gerados por si, são dependentes de humanos e de contexto, não podem ser contemplados sem envolver comparação humana (não máquina), tomada de decisão e julgamento.

Dawson (2005) acredita que uma distinção útil entre informação e conhecimento é perceber informação como algo que pode ser digitalizado e, como tal, por exemplo, armazenado em uma base de dados e, conhecimento, como a capacidade de agir efetivamente. “No mundo dos negócios, conhecimento só tem valor ou significado se ele resulta em ação” (DAWSON, 2005, p. 16, tradução minha).

Dado, informação e conhecimento não são coisas estáticas, mas estágios de um processo de usar dados e transformá-los em conhecimento (KENDAL; CREEN, 2007). À luz de Buhn (1994), Tjaden (1998) entende dado, informação e conhecimento formando um

continuum, com dados de um lado e conhecimento do outro, conforme ilustra a Figura 2. Davenport e Prusak (1997) acreditam que o melhor é construir um continuum dos termos, em razão da dificuldade de separar dados, informação e conhecimento na prática.

Figura 2 - Relação entre dado, informação e conhecimento

Fonte: Traduzido de Tjaden (1998, p. 7).

O Quadro 1 apresenta o que significa dado, informação e conhecimento para Ackoff (1999a; 1999b), o autor mais citado sobre o assunto, e para autores da área de gestão do conhecimento (DAVENPORT; PRUSAK, 1997; ZACK, 1999) e engenharia do conhecimento (MEADOW et al., 2007; SCHREIBER et al., 1999). Não foi encontrada a distinção entre os termos nos trabalhos encontrados que tratam o tema mídia do conhecimento, apenas Stefik (1986), faz uma breve menção dizendo, conforme já mencionado, que uma distinção entre os termos é fantasiosa.

Observando os conceitos apresentados no Quadro 1 percebe-se que Davenport e Prusak (1997) e Zack (1999) preferem utilizar a palavra observações para conceituar dados enquanto Ackoff (1999a; 1999b) e Meadow et al. (2007) utilizam símbolos e, Schreiber (1999), sinais. Em relação ainda a dados, nota-se que eles necessitam de processamento e contexto para adquirir significado. Informação é conceituada por todos os autores como dados, processados de forma útil (ACKOFF, 1999a; 1999b), dotados de relevância, proposta (DAVENPORT; PRUSAK, 1997), significado (SCHREIBER et al.,1999) e contexto (ZACK, 1999), que alteram o estado de um sistema (humano ou não) que os percebe (MEADOW et al., 2007). Conhecimento, para Davenport e Prusak (1997), Zack (1999), Meadow et al. (2007) e Schreiber et al. (1999), é fruto de entendimento, da mente humana. O conceito de conhecimento de Ackoff (1999a; 1999b) se diferencia dos outros em razão de o autor considerar que o conhecimento se transmite por instrução (é fruto da mente humana), se obtém por experiência e por reputar que sistemas armazenam e distribuem conhecimento.

Quadro 1 - Conceitos de dado, informação e conhecimento

Dado Informação Conhecimento

Ackoff

(1999a; 1999b) Símbolos que representam objetos, eventos e suas

propriedades. Produtos da observação humana ou realizada por instrumentos, tais como termômetros,

ohmímetros e velocímetros

Dados processados de forma útil. Está contida em descrições, em respostas para questões que iniciadas com as palavras “quem”, “o que”, “onde”, “quando” e “quantos”

Transmitido por instruções, respostas para perguntas “como”. Pode ser obtido por experiência, através de tentativa e erro ou experimentação, também de um indivíduo que obtém conhecimento por experiência própria ou de outros. Sistemas especialistas são sistemas que armazenam e distribuem conhecimento, pois tem o conhecimento de um

especialista programado em seu sistema

Davenport e Prusak (1997) Simples observações de estados do mundo, facilmente estruturados, capturados em máquinas e transferidos; frequentemente quantificados Dados dotados de relevância e proposta. Exige unidade de análise, necessita de consenso no significado e necessária mediação humana. É difícil de transferir com absoluta fidelidade

Informação valiosa originária da mente humana. Inclui reflexão, síntese e contexto. Difícil de estruturar, transferir, capturar em máquinas; frequentemente é tácito

(conclusão) Quadro 1 - Conceitos de dado, informação e conhecimento

Dado Informação Conhecimento

Zack

(1999) Observações ou fatos fora de contexto; sem significado

Dados colocados dentro de um contexto

significativo,

geralmente na forma de mensagem

É aquilo que o indivíduo acredita e valoriza baseado na acumulação significativa de informações organizadas (mensagens) através da experiência, da comunicação ou da inferência

Meadow et al.

(2007) Série de símbolos elementares, tais como dígitos ou letras, que não precisam apresentar significado para todos os indivíduos

Dados que alteram o estado de um sistema que os percebe, seja um computador ou o cérebro humano

Implica entendimento. Tem a característica de informação

compartilhada e acordada dentro de uma comunidade. Conjunto integrado de informações recebidas de várias fontes

Schreiber et al.

(1999)

Sinais não interpretados que chegam aos

sentidos humanos

Dados dotados de

significado Dados e informações reunidos pelos indivíduos para suportar o uso prático em ação, a fim de realizar tarefas e criar novas informações. Possui sentido de propósito e capacidade generativa Fonte: Ackoff (1999a; 1999b), Davenport e Prusak (1997), Zack (1999), Meadow et al. (2007) e Schreiber et al. (1999).

2.2 MÍDIA, CONHECIMENTO E MÍDIA DO CONHECIMENTO