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The sexual division of power: Physical exposures

Chapter 6. Sexual agency, condom negotiation and transactional sex

6.2 The sexual division of power: Physical exposures

Marina Antunes

Nha grupo ê nha alma1 Nha familia ê nha grupu

Nha cretcheu ê nha amigo di grupu

Ta xinti ki kel grupu tem un significadu spicial pami pamódi ê cima ke nha se- gundu lar

Ami ê un jovem ki tinha varius probulemas na bida n’tinha ki sabi lida ku ês, ami in pidi consedjo na guentis mas bedjos sempri ki era possivel n’ta pensa ki sin ca staba la gosi n’ca era o mesmu alguem

Si mi sta tristi e ku probulemas s’di mi sta la, n’ta fica contenti e muiti satizfeitu ku mi própri

… Kuando in da nha primeru espectaculo na lodu des tudo, in fica contenti e muiti sa- tizfeitu ku mi própri, tudu sô pa prazer di dança

É difícil “competir” com estas expressões para tentar explicar o significado do grupo Estrelas para os jovens que o integram. Em todo o caso, penso que é possível, sem um olhar adultocêntrico, desenhar o esboço de um estilo de so- ciabilidade de um grupo de jovens — os “Estrelas Cabo-verdianas” — que fa- zem do bairro Estrela d’África, na cidade da Amadora, o epicentro da sua in- teracção e o palco preferencial das suas actividades.

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1 Estas expressões correspondem à resposta dos jovens do grupo Estrelas Cabo-verdianas quando lhes foi colocada a questão “o que significa o grupo para ti?”; o crioulo é dos pró- prios sem correcções e significa: “O grupo é a minha alma; A minha família é o meu grupo; A minha paixão são os meus amigos do grupo; Sinto que este grupo tem um significado es- pecial para mim porque é como se fosse um segundo lar; Sou um jovem que teve vários problemas na vida e tive de saber lidar com eles, pedindo conselhos aos mais velhos, penso eu que se não estivesse no grupo poderia ser uma pessoa diferente, não haveria de ser a mesma pessoa que sou agora; Se estou triste e com problemas só de estar lá fico contente e muito satisfeito comigo próprio; Quando dei um primeiro espectáculo ao lado deles fiquei muito contente e muito satisfeito comigo próprio, tudo isso por ter o prazer de dançar”.

Apresentação do grupo Estrelas Cabo-verdianas

O grupo “Estrelas Cabo-verdianas” foi criado em 1984, na sequência de um projecto de desenvolvimento local “Nô Djunta Mon”,2que se desenvolveu nos anos 1980, na Estrada Militar do Alto da Damaia, na cidade da Amadora, por iniciativa da Associação Caboverdeana, sedeada em Lisboa. O nome do grupo resultou de um sorteio feito entre os jovens cuja composição era maio- ritariamente de afroportugueses de origem cabo-verdiana.

Ao longo dos anos, o grupo foi integrando rapazes e raparigas de dife- rentes idades, sobretudo descendentes de imigrantes cabo-verdianos, santo- menses e angolanos, que vieram para Portugal nos anos 1970 e 1980 e se fixa- ram junto às grandes empresas de construção civil da Venda Nova, Amadora. Com um número de participantes irregular, o grupo Estrelas Cabo-ver- dianas integra 30 elementos, 16 raparigas e 14 rapazes, com idades compreen- didas entre os 16 e os 31 anos, tendo mais de 2/3 idade inferior a 24 anos, que formam uma rede cuja “cabeça” é o líder do grupo. A proximidade de idades produz, no interior do grupo, uma identidade que parece redefinir as frontei- ras sociais e culturais com os progenitores. Este dado confere ao grupo uma marca importante, já que é nesta fase da vida que os jovens começam a arqui- tectar os seus projectos de vida, de acordo com um campo de possibilidades (Ve- lho, 1994: 46) configurado pelo quadro de interacção social e cultural (Costa, 1999: 296) em que se movem, bem como pela sociedade envolvente.

Dentro deste número, há um subgrupo de oito pares de bailarinos e bai- larinas centrais, que funciona como “núcleo duro”, uma espécie de “elite” que se sujeita a duros ensaios semanais. O grupo integra, ainda, um conjunto de amigos e amigas,3que, apesar de não dançarem, acompanham todas as ac- tividades do grupo. A maioria dos jovens possui nacionalidade portuguesa, não obstante os pais serem naturais de Cabo Verde ou S. Tomé e Príncipe, exis- tindo um número muito reduzido de jovens com nacionalidade cabo-verdia- na e angolana; os mais novos já têm naturalidade portuguesa, uma vez que nasceram em Lisboa ou na Amadora.

No grupo são conhecidos pelo respectivo nominho,4o qual traduz, en- tre os jovens, um misto de carinho e de troça: Zé Gato, Levado, Grosso, Bucha, Kissas, Feia, Baixinho, Nhunha, Piteco, são alguns dos exemplos.

Grande parte dos jovens vive em habitações precárias, numa zona que se pode considerar intersticial (Park, 1990 [1916]) cuja malha é composta por bairros inter-étnicos com uma forte segregação social urbana, pois trata-se de

2 Expressão crioula que significa “nós juntamos as mãos”.

3 Parte destes são parentes e namorados que integram outras redes secundárias. 4 Gabriel Mariano (1991: 86) refere-se ao “nominho” como sendo “o nome de casa é um

nome não oficial, mas sim, familiar, doméstico; o de igreja, de baptismo, é o nome oficial que figura no Registo Civil”.

um continuum de bairros de habitat precário, habitualmente designado como “degradado”,5sobretudo nos bairros Estrela d’África, 6 de Maio, Fontaínhas e Bairro Novo das Fontaínhas, que separa os concelhos da Amadora e Lisboa. Um pequeno número reside em bairros de habitação social, nomeadamente no Zambujal ou em zonas de parque habitacional privado, nomeadamente Mem Martins, Rio de Mouro, Tapada das Mercês e Reboleira.

Os jovens do grupo têm como principal ocupação o trabalho ou a escola, embora alguns jovens trabalhem e estudem simultaneamente. As profissões dominantes estão relacionadas com áreas da construção civil e da restauração.6 Como referimos, o grupo “Estrelas Cabo-verdianas” tem uma composi- ção mista, de 14 rapazes e 16 raparigas, o que se torna um factor de construção e ajustamento permanente das formas de amizade e dos estilos de sociabili- dade adoptados por ambos os sexos em interacção. Assim, no grupo coexis- tem formas culturais que combinam traços de condutas, supostamente pró- prias das culturas juvenis femininas e masculinas (Wulff, 1988).7

No caso das raparigas, verificamos a existência de uma cultura pró- pria que se materializa em traços como: as horas passadas no quarto a fala- rem sobre os problemas de relação com os namorados ou com os pais, as atitudes narcisistas de se vestirem de forma sensual utilizando o preto e o branco como cores dominantes, bem como as roupas interiores sedutoras; de aplicarem as cosméticas sofisticadas no rosto e nos olhos, trabalharem os penteados, marcarem o corpo com piercings ou tatuagens (Valerie, 1999: 133),8deixando antever que fazem parte de uma cultural juvenil (Feixa, 1999: 85) mais lata.9

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5 Evito esta designação pelo carácter estigmatizante de que é portadora e que se estende aos próprios habitantes transformando-os em “feios, porcos e maus” imagem que faz parte de uma cartografia imaginária de representações dos urbanitas que vivem noutros habitats mais consolidados.

6 Empregadas de balcão no McDonald’s, por exemplo.

7 Na obra Twenty Girls (1988), centrada num grupo de jovens amigas de South London, He- lena Wulff questiona a subordinação assumida pelas raparigas que, supostamente deve- riam ser invisíveis, escondidas nos seus quartos de dormir (bedroom culture), enquanto os rapazes ocupavam as esquinas das ruas. Esta antropóloga coloca, pois, a ênfase nas cultu- ras juvenis como contributo substantivo para o desenvolvimento do conceito de cultura, num sentido mais lato e define “microcultura” como o fluxo de significações e valores manipulados por pequenos grupos de jovens na vida quotidiana, tendo em consideração situações locais concretas.

8 Como refere Valerie Fournier (1999: 133), estas marcas “tribais” configuram, simbolica- mente, a pertença ao grupo de referência. No caso do grupo Estrelas Cabo-verdianas são poucos os jovens que aderem a estes traços, sendo mais comuns os elementos ligados ao desporto.

9 Carles Feixa (1999: 84) na obra De jóvenes, bandas e tribus, define as “culturas juvenis” num sentido amplo, isto é, a maneira como as experiências sociais dos jovens são expressas co- lectivamente mediante a construção de estilos de vida distintos, localizados fundamen- talmente no tempo livre, ou em espaços intersticiais da vida institucional; num sentido

No caso dos rapazes, também identificamos comportamentos e a adop- ção de marcas identitárias próprias dos jovens destacando-se, por exemplo, os desenhos feitos na cabeça e na cara através de cortes especiais do cabelo e da barba, os dreadlocks, as tatuagens, o modo de vestir em que predomina as roupas e calçado de desporto de marca, com grife, a apetência para o desporto, especialmente o futebol, a apropriação do espaço exterior, como o beco, a rua, o café, lugares de convivialidade, por excelência.

Estas marcas servem para a autodefinição dos jovens, enquanto pessoas e grupo, mas também para comunicarem com outros jovens comprometidos com diferentes estilos juvenis (Feixa, 1999: 97).10Neste contexto, parece óbvio que pretendem demarcar-se das práticas culturais dos progenitores com um

background (Mitchell, 1980: 53) africano,11embora não rejeitem completamen- te alguns traços de inspiração afro, que a moda se encarregou de valorizar. O que importa aqui destacar é o facto de não estarmos perante uma segunda ou terceira geração de imigrantes precariamente “suspensa entre duas culturas” (Baumann, 1996: 1), mas de jovens portugueses, nascidos e criados num con- texto urbano, cuja maioria nunca visitou o país de origem dos pais, nem vi- venciou a experiência da imigração senão através de relatos dos pais e vizi- nhos. Poucos são os elementos do grupo que já visitaram Cabo Verde ou São Tomé, embora desejem fazê-lo para melhor compreenderam as tradições cul- turais dos pais. De facto, a identidade cultural dos pais dos jovens marca-os em vários aspectos da sua vida e tem reflexo nos estilos juvenis (Feixa, 1997: 97) que adoptam,12apesar de conhecerem a cultura de origem dos pais de for- ma filtrada por inúmeras estratégias de sobrevivência, numa reinvenção per- manente condicionada pelo contexto urbano.

Dinâmica do grupo no bairro e espaços de sociabilidade

A composição e o modelo organizativo do grupo Estrelas Cabo-verdianas

mais restrito, definem o surgimento de “microsociedades juvenis” com graus significati- vos de autonomia em relação às “instituições adultas”, que se dotam de espaços e tempos específicos e que se configuram historicamente nos países ocidentais a seguir à segunda guerra mundial, coincidindo com grandes processos de mudança social no campo econó- mico, educativo, laboral e ideológico.

10 Segundo Feixa (1999: 97) “estilo” pode definir-se como a manifestação simbólica das cul- turas juvenis, expressa num conjunto mais ou menos coerente de elementos materiais e imateriais, que os jovens consideram representativos da sua identidade de grupo. 11 Para Clyde Mitchell é necessário investir mais na análise do contexto interaccional do

que no background dos indivíduos implicados na situação ou nas “culturas” em nome das quais interagem.

12 Marcas culturais como a utilização do crioulo como meio de comunicação privilegiado no interior do grupo ou a reinvenção de danças tradicionais cabo-verdianas no seio do grupo.

foram moldados, ao longo dos anos, por fases de maior ou menor dependên- cia relativamente às associações locais e pelas etapas e experiências de vida dos próprios jovens.

As diferentes fases do grupo explicam-se pelo grau de informalidade que sempre o caracterizou,13não obstante existirem códigos éticos e de con- duta, regras e sanções, responsabilidades partilhadas, espaços de crítica, de autocrítica e elementos estruturantes que têm cimentado a amizade e o senti- mento de pertença, evitando a erosão do grupo. O carácter liminar, de mar- gem, é reforçado mais pelo exterior do que pelos seus membros,14os quais sentem o grupo como um espaço de sociabilidade e de integração por exce- lência. Para este efeito, contribuem quatro factores estruturantes, que funcio- nam como pontos nodais de ancoragem dos jovens ao grupo: o líder carismá- tico que é um mediador com o qual os membros do grupo partilham vidas, competências, afectos, tristezas e euforias; as actividades de rotina (ensaios de dança nos fins de semana) e as cíclicas (festas, deslocações para fora de Lisboa, etc.); as relações de amizade e o sentimento de pertença ao grupo e ao bairro, que dão substância à rede de amigos que o grupo configura; o bairro Estrela d’África, como referente simbólico e lugar da interacção por excelência.

Estes elementos constituem forças centrípetas que “puxam” os jovens para o interior do grupo, transformando-o num “porto de abrigo”, num “an- coradouro”, onde amarram as suas vidas. Estas quatro dimensões do grupo estão intimamente ligadas, configurando um certo estilo de vida e uma certa visão do mundo, que servem de suporte emocional e cultural a uma identida- de individual e colectiva que extravasa o próprio grupo.

a) O líder

O líder do grupo, de 31 anos, que se autoclassifica como “um falso badio”,15 viveu durante anos com a avó materna num núcleo de habitat precário no Alto da Damaia,16Amadora. Neste bairro, entre 1981 e 1984, alguns miúdos, que brincavam e jogavam à bola na rua, começaram a juntar-se num espaço

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13 A informalidade do grupo prende-se mais com o facto de não constituir uma organização legalizada em termos de registo formal. Porém, o grupo apresenta um grau de formalida- de interna elevado, que se objectiva através da existência de cartões individuais de mem- bro do grupo, de relatórios de actividades, actas de reuniões, processos de avaliação das performances, etc.

14 O discurso hegemónico sobre este tipo de habitat e de grupos, tende a destacar o seu ca- rácter marginal, onde reina a delinquência e a criminalidade. O estudo antropológico centrado nestes casos permite-nos um afastamento, quase radical, desta perspectiva pa- tológica, criminalista e de contágio social, dominante na literatura da Escola de Chicago. 15 Filho de pai “sampadjudo” de São Vicente e de mãe “badia” da Praia/Santiago. 16 Trata-se de uma “badia” retinta que veio, em 1980, da Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde.

para ouvirem música e para dançarem os ritmos frenéticos do funáná e das coladeras.

Assim, oito rapazes e raparigas, com idades entre os 10 e os 18 anos, pas- saram a encontrar-se regularmente num espaço improvisado para dançarem, partilharem experiências e entreajudarem-se.

Nessa altura, o jovem Victor começou a revelar características de lide- rança e um poder aglutinador de vontades, de gestão de afectos e de mobili- zação de crianças e jovens. Como ele próprio afirma, aceitava a sua mestiça- gem sem complexos, valorizava a cultura dos pais dessas crianças, tentava tornar positivo tudo aquilo que os envergonhava: a história de pobreza dos pais, as profissões que os inferiorizam, a comida e a música, o vestir colorido, a cor escura da pele, todo um conjunto de coisas que, para a maioria, não valia a pena seguir! Por isso, ele contribuía para que os jovens ganhassem força para resolverem esta confusão interior, para construírem a sua própria cultu- ra, e não a raiva que rapidamente se transformava em agressividade. As ruas destes bairros estavam cheias de heróis sem causa, que vagueavam pelas ruas à procura de sentido para as suas vidas, deixando os pais com o coração nas

mãos, pois não viam os filhos num rumo certo. Daí, o surgimento da ideia do

alargamento deste pequeno grupo aos mais novos, crianças e adolescentes, que não encontravam em casa nem na escola, a segurança, o afecto e o prazer de viver, pelo que se juntavam em pequenos grupos de aventuras, que anda- vam à deriva um pouco por todo o bairro, entregues a si próprios. O líder sur- giu, assim, como o elo que faltava para construírem o seu grupo de amigos. O líder joga, ainda, um papel importante na gestão dos conflitos gera- dos endemicamente ou provocados pelo exterior, demonstrando uma capaci- dade para accionar diferentes gramáticas culturais, operando como um me-

diador transcultural (Vianna, 1997) que põe em contacto diferentes realidades

socioculturais, articulando “mundos” complexos e diferentes.

b) A dança e as actividades do grupo

A vida do grupo está marcada por um conjunto de actividades, que têm como centro a dança. As actividades do grupo são, pois, de dois tipos: por um lado, as actividades de rotina, isto é, os ensaios semanais no coração do bairro Estrela d’África, que constituem um espaço fundamental na vida do grupo, pelo que os jovens anseiam que chegue o fim de semana para estarem juntos e para po- rem à prova as suas capacidades performativas. Com efeito, é nos interstícios da actividade semanal de dança, no bairro Estrela d’África, que toda a aten- ção está concentrada na disciplina do grupo, na superação das dificuldades da interacção intra-grupo, submetendo-se os jovens a uma avaliação não só da capacidade performativa como de comunicação e de compreensão do ou- tro, do(a) companheiro(a) de grupo, com que partilham esta travessia

colectiva; por outro, as actividades cíclicas, que ocorrem em determinados pe- ríodos do ano como, por exemplo, as jornadas de reflexão e de convívio fora de Lisboa. Estas actividades têm também como pano de fundo outros espaços urbanos fora da realidade dos bairros onde residem como, por exemplo, o centro comercial ou a discoteca.

O Centro Comercial Colombo é um lugar de convivialidade e de consu- mo onde os jovens se encontram e divertem, contribuindo para contrariar a ideia destes espaços como não lugares (Augé, 1994: 99) ou lugares do homo

anonymus (Freitas, 1996: 123). Neste caso, o centro comercial constitui um

ponto central de encontro,17de lazer e diversão que faz parte do “roteiro” das sociabilidades flutuantes dos jovens “Estrelas”.

A discoteca N’Genga,18situada nas Docas Secas, Amadora, constitui ou- tro espaço de eleição dos jovens do grupo.

Com efeito, a emergência das discotecas (Feixa, 1999: 118) como espaços de ócio,19provocou um grande impacte social nas formas de comunicar e de consumir dos jovens passando a ser centros difusores de modas juvenis asso- ciadas à música, transformaram-se em megapalcos de encontros, de estilos e cosméticas, de relações efémeras. Mas tornaram-se, também, no lugar onde a

tribo celebra os ritos de passagem que se querem eternizados,20onde se actua- liza a, por vezes precária, identidade individual e social.

As deslocações para fora da Amadora, sobretudo as estadias nas pousa- das da juventude numa qualquer zona do país,21constituem espaços de aven- tura, de divertimento, de prazer, mas também servem para o aprofundamen- to do afecto e conhecimento dos jovens, bem como de discussão de formas de organização para encararem novos desafios.

A dança constitui uma dimensão central na vida do grupo. É através da dança que os jovens exercem o domínio sobre os corpos e estabelecem uma in- teracção mais profunda desenvolvendo, simultaneamente, códigos de comu- nicação e de informação que pretendem passar mensagens tanto no interior do grupo como para o exterior. Deste modo, a dança, como sistema de movi- mentos humanos e de comunicação, permite aos jovens do grupo Estrelas

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17 Ricardo de Freitas (1996) aborda estes espaços na perspectiva de simulacros dos princi- pais elementos da cidade.

18 “N’genga” é uma expressão angolana que significa “a festa”.

19 Feixa (1999: 117-118) faz uma abordagem muito curiosa sobre o papel destes espaços disco no quadro das sociabilidades dos jovens. Refere que a discoteca reflecte o papel de “insti- tuição social total”, que pode “conceber-se como uma microsociedade com as suas regras próprias”… ao mesmo tempo reflecte “as condições económicas, sociais, matrimoniais e de consumo vigentes na sua envolvente social”… actua como difusora de determinadas modas musicais e juvenis… mas também como cenário de encontro e redistribuição de diversos estilos.

20 Sobretudo os aniversários dos membros do grupo e dos/as amigos/as.

21 Durante o trabalho de campo tive oportunidade de participar em duas estadias nas pou- sadas da juventude de Esposende e de Mira.

Cabo-verdianas identificarem algumas opções culturais e sociais, através das formas culturais que resultam do uso criativo dos corpos num espaço e num tempo determinados (Bridget, 2001: 490).

A selecção musical, cuidadosamente elaborada pelo líder do grupo, constitui um repertório que já entrou nos ouvidos dos bailarinos, os quais uti-