3. Theoretical Framework
3.1. The Resource Curse
Como já afirmado neste trabalho, as cirurgias plásticas são cada vez comuns, devido à busca de um corpo perfeito que corresponda a um modelo estético do momento. “Há algumas décadas eram quase sempre as mulheres que procuravam os cirurgiões, a fim de modificar de uma vez por todas alguma parte do corpo ou tentar retardar os efeitos do envelhecimento” (KURY et al., 2000, p.29). Atualmente, são esses profissionais que as convencem a esculpir suas formas físicas no sentido de atingir um corpo idealizado.
Segundo Kury et.al. (2000), é possível modificar profundamente os corpos e os rostos, já que as técnicas cirúrgicas se aprimoram dia a dia. Os novos procedimentos permitem que se criem uma nova pessoa, pelo menos, na aparência. As transformações físicas são de uma enorme variedade, podendo abranger todas as partes do corpo. Para tanto, basta ter dinheiro e contar com bons profissionais, além de uma certa coragem, sendo possível transformar o corpo dando-lhe novo modelo e adequação, conforme os gostos e exigências de cada um ou de determinado grupo social.
É preciso destacar que Wolf (1992) também trata do fenômeno da cirurgia plástica. A era da cirurgia, termo adotado pela autora para se referir a um novo tipo de controle, característico da cultura contemporânea, é entendida como uma “reencenação da medicina do século XIX”, que reduzia a mulher a seus ovários” (WOLF, 1992, p.310).
Ela acredita que, nos dias atuais, a mulher esta limitada à sua beleza. “O mito não está adoecendo as mulheres apenas fisicamente, mas também mentalmente”. Destaca, da mesma forma que, no tempo em que os médicos vitorianos auxiliavam a alimentar a cultura que percebia e conferia às mulheres um lugar social, por meio da procriação, os cirurgiões estéticos modernos fazem, na avaliação de Wolf (1992), o mesmo pela sociedade, ao criar um sistema marcado pela beleza. Da mesma forma, associa o sistema médico vitoriano e o contemporâneo como discursos que conferem um padrão de anormalidade aos aspectos mais específicos da feminilidade. Logo, a teórica exemplifica que o processo de medicalização da atividade reprodutiva pelos médicos vitorianos está em conformidade com os cirurgiões plásticos na atualidade os quais diagnosticam, como problemas para
operação, os efeitos no corpo dessa mesma atividade, tais como: estrias, seios caídos, o peso pós-parto, as rugas e a flacidez.
Nessa linha de pensamento, Wolf (1992) denuncia os médicos por influenciar, negativamente, certas partes do corpo da mulher que a incomodam, como a celulite e as estrias. Com o propósito de reparar esses incômodos, sugerem os procedimentos cirúrgicos, nem sempre recomendáveis por questões de saúde.
Sant’Anna (1995), em seu artigo “Cuidados de si e embelezamento feminino: fragmentos para uma histórica do corpo no Brasil”, ao analisar a exposição do corpo na contemporaneidade, concorda com Wolf (1992). Comenta que todos os discursos em torno da arte de embelezar a mulher são pautados por interesses econômicos e padrões morais. Desse modo, a exibição do corpo quase nu parece ser o balizador de uma beleza autêntica. “No contexto de uma sociedade em que o lugar do médico é fundamental para a organização moral e social das famílias de elite, a falta de beleza traduzida em termos de doença, merece o exame médico e o tratamento com remédios” (SANT’ANNA,1995, p.123).
Para a historiadora, a realização da mulher proporcionada pela cirurgia plástica, já que disfarça os defeitos do corpo, parece muito natural. Além disso, o sucesso e o desenvolvimento da cirurgia estética no universo feminino estão, segundo Sant’Anna (1995), em processo de mudança na relação das mulheres com o próprio corpo. Acrescenta que, para os defensores da cirurgia plástica, o que predomina é o discurso democrático de que todas as mulheres têm o direito à beleza. A ideia é que, ao cuidar do corpo, a mulher, torna-se bela, constitui-se o pilar fundamental para a felicidade feminina. “O corpo parece se transformar no único guia e na principal finalidade do processo embelezador. Embelezar-se é necessário não somente para garantir um bom casamento, mas para cultivar ‘o prazer de se curtir’” (SANT’ANNA,1995, p.136).
Nesse ponto, o mais interessante no pensamento da autora é que a estética tornou-se responsável pela autoestima da mulher. O ato de embelezar-se vai além de terminar com a feiura. Apresenta-se como uma forma de a mulher se conhecer internamente e buscar harmonia consigo mesma, com a certeza de um corpo jovem e belo.
Em vista disso, a cirurgia plástica é tema onipresente na sociedade. No caso do Brasil, a cirurgia popularizou-se. Uma pesquisa, realizada pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), revela que o Brasil é o segundo mercado de cirurgia do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. Mais de 629 mil cirurgias plásticas movimentam cerca de R$ 2 bilhões por ano. 12
Segundo Castro (2007, p.42), a cirurgia plástica passou a ser relevante atividade pertinente ao tema beleza feminina, visto que o “Brasil é atualmente o maior mercado deste tipo de cirurgia no mundo, superando os Estados Unidos que lideravam o ranking de cirurgias para fins estéticos”. O trecho a seguir foi retirado de uma matéria da Revista Plástica & Beleza, assinado por Lara Martins (2010, p.1), a qual reforça que, depois das celebridades, a prática da cirurgia estética faz parte do cotidiano da mulher. Entretanto, muitas artistas ainda negam quando são questionadas se fizeram alguma intervenção cirúrgica.
Elas apostam nesse artifício para fazer retoques que melhoram a aparência, rejuvenescem, secam gordurinhas...O problema é que mesmo sendo público e notório que estes procedimentos fazem parte da vida das famosas, nem sempre elas os assumem. Aliás, o comum é negarem até a morte. E isso gera muito pano para manga. Afinal, não é raro encontrar uma atriz que teve seus seios aumentados, como num passe de mágica, da noite para o dia, ou uma cantora que, de repente, aparece com um nariz mais arrebitado. Para desviar das especulações, ouvimos as mais variadas desculpas, algumas convincentes, outras nem tanto. 13
Como se pode notar, o discurso ressalta a praticidade da mulher em se tornar bela, e as celebridades são também grandes influenciadoras, pois propagam as receitas para ter um corpo escultural. Entre essas, apesar de algumas estrelas negarem, destacam-se as cirurgias estéticas, tornadas práticas de massa para realizar o desejo de cada mulher de ter seu corpo esculpido, conforme os padrões idealizados.