Calculamos, para cada indivíduo, a Taxa de Proficiência, dividindo a freqüência absoluta de Episódios de Quebra de Cocos bem sucedidos (Quebra Proficiente) pela freqüência absoluta de Episódios de Quebra de Cocos (Quebra Proficiente + Quebra Adequada + Quebra Inepta), (Tabela 11); os critérios para determinar as categorias de Quebra de Cocos constam da Tabela 2 do Material e Métodos.
Episódios bem sucedidos na quebra de cocos (Quebra Proficiente) foram mais freqüentes do que os demais tipos de episódios de Quebra de Cocos. A média não ponderada da Taxa de Proficiência foi de 0,768. Em comparação com o estudo realizado por Resende (2000-2002), notamos um aumento nas Taxas de Proficiência, dado que, na época, apenas 39% dos episódios registrados foram bem sucedidos.
No presente estudo, três machos adultos - Edu, Joaquim e Pedro – conseguiram quebrar ao menos um coco em todos os episódios de Quebra de Cocos que protagonizaram, e assim a Taxa máxima de Proficiência foi igual a 1; as Taxas dos demais adultos também foram extremamente altas, com 11 dos 13 adultos obtendo sucesso no rompimento da casca do coco em mais de 80% dos episódios de Manipulação Percussiva executados. Já no estudo de Resende, a maior Taxa de Proficiência foi de 0,813 (Vavá), seguida de Taxas próximas a 0,5.
Tabela 11. Taxa de Proficiência por indivíduo. Calculada dividindo-se a freqüência absoluta de Quebra de Cocos bem sucedida (Quebra Proficiente) pela freqüência absoluta de episódios de Quebra de Cocos.
Taxa de Proficiência Quebrador Total de Quebra de Cocos Presente estudo 2006-2007 Resende† 2000-2002 Edu 4 1,000 0,425 ↑ Joaquim 10 1,000 - Pedro 11 1,000 0,545 * David 52 0,981 - Suspeito 38 0,974 0,522 * Medeiros 48 0,958 0,333 * Z 18 0,944 - Janete 10 0,900 0,353 * Vavá 20 0,900 0,813 ↑ Cisca 35 0,886 0,000 Ana 16 0,813 0,333 *↑ Darwin 20 0,800 - Filó 22 0,545 - Física 0 - - X 4 0,000 - Adulto/Subadulto 308 0,893 0,482 Vavá - - 0,500 * Edu - - 0,387 * Darwin - - 0,221 * Cisca - - 0,000 * Angélica 17 0,647 - Jabá 14 0,143 ↑ - Chuchu 24 0,125 - Amora 5 0,000 - Claudia 1 0,000 - Frida 2 0,000 - Vicki 2 0,000 - Juvenil 65 0,246 0,330 Filó - - 0,000 Jabá 4 0,000 - Vicki 2 0,000 - Cacá - - - Flufi - - - Infante 6 0,000 0,000 Total 379 0,768 0,389
† calculada a partir das Tabelas 10 (freqüência de Quebra) e 12 (freqüência de Quebra Proficiente) de
Resende (2004). *Taxas utilizadas em Ottoni et al. (2005), no qual foram considerados apenas episódios da faixa etária na qual o indivíduo esteve mais ativo. ↑ aumento na Taxa de Proficiência após mudança na faixa etária.
Esta discrepância pode ser fruto de uma diferença metodológica: como no presente estudo os episódios foram filmados, foi possível assistir novamente aos mesmos e verificar se de fato algum coco foi quebrado, coisa que não podia ser feita com registros coletados em tempo real no campo, como no estudo anterior. Essa diferença metodológica teria resultado em uma subestimação dos episódios Proficientes no estudo de Resende (2004), quando comparado ao nosso. Naquele caso, quando na incerteza de quebra ou não, o episódio era qualificado como Quebra Não Determinada, somado à freqüência absoluta de quebra de cocos e “inflando” o divisor, o que reduz a taxa de episódios Proficientes. No estudo atual, os episódios incertos podiam ser assistidos novamente a fim de verificar se houve ou não a quebra do coco.
No primeiro estudo de uso de ferramentas para quebrar cocos, realizado por Mannu entre 1997 e 1999 (Mannu, 2002), as Taxas de Proficiência calculadas para os indivíduos foram ainda mais reduzidas do que as encontradas por Resende. Infelizmente, apesar do método de amostragem de ambos ser semelhante, a categorização dos episódios que compõem a Quebra de Cocos do primeiro estudo não é compatível com a adotada nos estudos posteriores – Resende (2004) e o presente. A definição mais ampla da categoria de Quebra Inepta – incluindo formas de manipulação não-percussiva – resulta em um maior divisor dos episódios bem sucedidos (Quebra Proficiente), e como conseqüência, uma subestimação da Taxa de Proficiência, em comparação com os estudos posteriores.
Apesar das diferenças metodológicas descritas acima, existe a possibilidade que os indivíduos tenham aprimorado suas habilidades no uso das ferramentas, e que estejam obtendo sucesso mais freqüentemente hoje do que há quatro anos; da mesma forma, a diferença entre os dois estudos anteriores pode, em parte, ser resultado desta melhora na habilidade manipulativa dos indivíduos. Se de fato o aumento na Taxa de Proficiência refletir essa melhoria no uso dos martelos para quebrar cocos, podemos
supor que as baixas Taxas de Proficiência do primeiro estudo (Mannu, 2002) reflitam a fase inicial, de Transmissão do comportamento – como proposta por Huffman (1996) – na qual todos os indivíduos, mesmos os adultos, seriam pouco proficientes na técnica. O presente estudo, em contrapartida, representaria a fase de Tradição, na qual os indivíduos adultos seriam altamente proficientes e seriam os principais modelos para os observadores (v. Seção 1.3 da Introdução).
Não há diferença significativa entre os sexos quanto à Taxa de Proficiência (Kruskal-Wallis, H = 2,716; g.l. = 1; p = 0,099), mas sim entre as faixas etárias (H = 9,166; g.l. = 2; p = 0,002), com adultos apresentando, consistentemente, Taxas maiores de Proficiência. No mais, dentro de cada estudo, indivíduos passando para a próxima faixa etária sempre apresentaram um aumento na Taxa de Proficiência, como indicado na Tabela 11 pelo símbolo (↑).
Em Ottoni et al. (2005), essa taxa foi utilizada para distinguir os indivíduos quanto à eficiência de quebrar cocos, e então foi correlacionada com a Observação por co-específicos. No entanto, no atual estudo ela perde seu valor como forma de discriminar os indivíduos, dado que muitos deles passam a apresentar a taxa máxima (1,00) e a diferença entre as Taxas de Proficiência dos indivíduos é tão pequena que deixa de ser expressiva. (Tabela 11). Além dessa semelhança entre indivíduos quanto à Taxa de Proficiência, o critério de “quebrar ao menos um coco no episódio” é um critério grosseiro, que não necessariamente reflete a proficiência do Quebrador. A Taxa de Produtividade calculada a seguir pretende ser uma medida mais precisa para avaliar qual Quebrador seria mais interessante de se observar.