O uso que cada sujeito faz da língua é diferente de sujeito para sujeito e não depende (ou não está condicionado diretamente por) diretamente de um determinado estímulo. Isto constitui uma propriedade interessante e única da linguagem e ao mesmo tempo concede à linguagem um forte grau de liberdade que se repercute nas escolhas
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Cf. gémeas-gemidas, CHUR 134.
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Cf. Duarte (2001: 110), já referido, “ (...) é possível formar um número ilimitado de expressões, pelo uso reiterado das regras de combinação do número finito de elementos que as constituem.”
43 feitas por diferentes sujeitos perante um mesmo estímulo. Por outro lado, um mesmo sujeito, frente ao mesmo estímulo, pode tomar decisões diferentes, o que mostra que a um estímulo não equivale uma única resposta, mas uma multiplicidade de respostas (logo, a criatividade do sujeito perante a linguagem) ou nenhuma resposta.
É esta propriedade da língua que permite ao falante, e num plano diferente ao escritor, o uso criativo da língua. Embora apareça como uma evidência, referi-la é atribuir à língua um fator de liberdade necessário para todo o tipo de discursos e mais especificamente para o discurso literário, como refere Duarte (2001:17).
Esta característica aparentemente trivial do uso da língua distingue a linguagem humana da maioria dos sistemas de comunicação animal. Ela está na base de utilização deslocada da língua (i.e., uso da língua para descrever situações passadas próximas ou remotas, para formular hipóteses ou conjecturas, etc.), e de usos transpostos (como os que caracterizam a descrição de situações imaginárias ou a criação fictiva (...).
As escolhas de MC são supostamente diferentes das escolhas de Luandino Vieira ou de Guimarães Rosa, muito embora, tanto um como outro tenham tido um papel determinante no percurso do autor e na conquista da liberdade linguística que marca a escrita de Mia Couto.
As memórias coloniais funcionaram como estímulo para vários autores moçambicanos; no entanto, as representações de cada um permitem-nos um conhecimento multifacetado dessa realidade, vista por olhares diferentes. A título de exemplo, poder-se-ia referir Honwane que se preocupou com a vida dos negros em Nós Matámos o Cão-Tinhoso, a situação das mulheres na poesia de Paula Chiziane, ou as formas de resistência que emergem da poesia de José Craveirinha e de Noémia de Sousa. É o mesmo estímulo que encontramos em Terra Sonâmbula de Mia Couto.
O excerto seguinte que inicia a obra TS de MC mostra as opções do autor para descrever uma paisagem destruída pela guerra, que constitui o estímulo que motiva a descrição:
Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
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Os fatores que intervêm são diversos e permitem opções diferentes. O trabalho de tradução propriamente dito corrobora esta propriedade da língua. A um mesmo estímulo correspondem respostas diferentes dos leitores ou dos tradutores. Essa diferença é percetível a todos os níveis gramaticais da língua. Por outro lado, um mesmo tradutor tem também respostas diferentes a um mesmo estímulo, desde que este se encontre num tempo e num espaço diferente. Ilustremos com exemplos de tradução de excertos de Mia Couto a observação formulada acima.
A palavra brincriação38, criada por fusão de dois lexemas, ‘brincar’ e ‘criação’ corresponde a uma criação do autor. Esta nova palavra condensa, de certa maneira, o processo de escrita de Mia Couto, aliando, de forma exemplar, a escrita enquanto ato criativo e o prazer que este suscita. Funciona, ao longo do texto, como uma metáfora, uma espécie de recuperação do renascimento de uma infância do mundo, traduzido pela meninice das personagens. Perder de vista a sua forma em tradução é também perder um elo significativo na construção do sentido do texto enquanto todo.
Neste caso, a tradução pulveriza a brincriação em propostas diferentes - inventer des jeux, inventions pour amuser la galerie, jeu inventé, invention. A perda não está só, do nosso ponto de vista, na variedade das propostas, mas naquilo que essa variedade acarreta para o texto, enquanto elemento global.39
A amálgama atarantonto, produto da fusão de ‘atarantado’+’tonto’, surge em pelo menos duas das obras de MC, isto é, TS e VF, que foram traduzidas pela mesma tradutora. As escolhas da tradutora mostram propostas diversas para cada um dos contextos em que surge a amálgama original. No entanto, quando analisados os contextos originais, a escolha do autor pela repetição da amálgama mostra que essa repetição suporta uma condensação do sentido.
As propostas de tradução – troublhébété, embarassé e étourdi, hébété – acarretam, pela sua diversidade, uma diluição do sentido do original. Analisados os três exemplos, e a carga semântica de cada um, dentro do contexto em que ocorrem, a amálgama troublhébété seria a forma mais coerente e, do nosso ponto de vista, deveria ter sido mantida nos vários contextos, como é possível verificar nos contextos abaixo indicados:
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A palavra brincriação surge quatro vezes na obra Terra Sonâmbula. Cf. corpus das amálgamas. Anexo 6.
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A análise da tradução será feita no capítulo 4. As observações que aqui inserimos visam ilustrar a noção de liberdade em relação ao estímulo.
45 “Meu velho engoliu boas securas. Morrer?
Atarantonto, ainda se duvidou.” (VF 83)
“Mon vieux avala sec. Mourir? Troublhébété, il hésita encore.” (VF 112) “O menino cada vez mais se dificultava
em falar, atarantonto. Ao ver a criança assim rarefeita, Tuahir sentiu descer-lhe da cabeça o coração.” (TS 56)
Le petit étourdi, hébété, avait de plus en plus de mal à parler. De voir ainsi l’enfant réduit à la peau et les os, Tuahir avait senti son coeur lui descendre de la tête.” (TS 65) “O homem, primeiro, me desconfiou,
atarantonto.” (VF 148)
“L’homme commença, embarassé, par se méfier.” (VF 194)
A escolha de troublhébété manteria a condensação semântica do original, representaria uma palavra criativa e preservaria a originalidade da escrita do autor.