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3.2 Parsing PLC program code

3.2.3 The POU data structure

Este trabalho visa compreender (Verstehen weberiano, portanto, estamos no plano da Sociologia compreensiva/interpretativa) para explicar as dinâmicas das artes plásticas em Moçambique, olhando para dois momentos distintos do estágio das mesmas, no período que vai de 1975 a 2016. Trata-se de um projecto do tipo o quê, como e porquê, cuja característica principal é o facto de os actores individuais (agentes) e actores colectivos (instituições) existirem em interacção e constituírem, por isso, uma realidade social distinta. Portanto, queremos captar e analisar conceitos, assunções, percepções, intenções de consciência e significados subjectivos que os actores envolvidos no campo das artes plásticas em Moçambique produzem e atribuem a si mesmos. Para o efeito, a perspectiva qualitativa pareceu-nos ser a que mais se adequa a este tipo de pesquisa, uma vez que, tal como Simmel (1983) sublinha, a interacção/ sociação, contempla formas e conteúdos que são produzidos pelos actores sociais. No caso, estão em interacção todos os agentes da cadeia do fenómeno artes plásticas em Moçambique que, nesse processo interaccionista, produzem e partilham significados. Daí que, no nosso entender, a interacção seja uma fonte privilegiada de captação do social e, consequentemente, se afirme como um factor legítimo na construção epistemológica de projectos de investigação científica, na perspectiva qualitativista.

O uso de métodos qualitativos e respectivas técnicas de recolha de dados favorece a obtenção de informação bruta, em cascata, sobre percepções dos sujeitos em estudo, formas e conteúdos, particularmente dos artistas. Aliás, no que tange aos artistas, Peirce (1985) sublinha que o artista é um fenomenólogo.

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Deduzimos que o enunciado de Peirce acima exposto seja depositário da fenomenologia husserliana. Para Husserl (1986), a ideia central da fenomenologia é a eliminação da oposição entre sujeito e objecto, isto é, entre subjectivismo e objectivismo. Então, tal como defende Husserl, Peirce está a dizer-nos que a reflexão fenomenológica parte da correlação de cada cogito com o seu cogitatum, que nunca é um objecto isolado, mas, desde logo, deve ser concebido como um objecto no seu mundo.

Neste caso, entendemos que cada artista é um expressionista do seu mundo, no sentido etimológico do termo, portanto, um artista é aquele que expressa seus significados acerca do seu mundo através da arte. Quer isto dizer que, se olharmos para o que o artista expressa nos diferentes suportes materiais, técnicas e formas, teremos, então, uma realidade múltipla, complexa, passível de ser compreendida, percebida e interpretada na perspectiva da ciência sociológica.

Daqui inferimos que a abordagem qualitativa nos permite dar conta do expressionismo de cada artista, particularmente sobre as dimensões propostas neste trabalho, uma vez que tem como fundamento epistemológico explicar como os agentes/actores constroem o seu ser e a sua existência em interacção com outros agentes/actores, incluindo sujeitos colectivos como sejam o Estado ou as instituições de diplomacia cultural. Seja do ponto de vista do individualismo metodológico ou do interaccionismo simbólico, isto é, do ponto de vista do significado que os sujeitos dão aos actos que praticam, ou do ponto de vista da partilha de significados (símbolos, índices, ícones) que intermedeiam essas inter-relações, entre pessoas e pessoas e entre estas e diferentes instituições.

Para Ramos e Naranjo (2014), a adopção da abordagem qualitativa baseia-se nos seguintes pressupostos que a caracterizam:

• A tentativa de explicar como os agentes/actores constroem o seu ser e a sua existência no mundo;

• A situação dos agentes/actores como o centro da atenção da pesquisa;

• A realidade é múltipla e foi construída pelos sujeitos particulares, ela é holística e interaccionista;

• O investigador é “compreensivo” para com o observado e é capaz de interpretar e descobrir percepções da realidade do ponto de vista dos sujeitos, donde se pode articular uma intersubjectividade relacionada com o fenómeno que estuda;

• A polarização de interesses microcósmicos antes dos macrocósmicos; • O estudo duma parte influi necessariamente nas demais;

• A descrição e a construção do conhecimento científico é feita de modo paulatino e cumulativo;

• Não-utilização de uma só corrente;

• Não é de vital importância a determinação da relação causa-efeito devido à multicausalidade para os sujeitos;

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• Os métodos e as técnicas fundamentais são a observação participativa, que regista aleatoriamente tudo, incluindo o contexto; a entrevista em profundidade, como estrutura aberta, para que o respondente use a sua “imaginação sociológica”, estudos de caso, anotações de campo (que podem ser filmadas, ou gravadas em áudio, ou simplesmente anotações), ao que se sucedem triangulações de informação, análise do produto da actividade, entre outros;

• Centram-se no significado que as pessoas atribuem às suas acções; • São interdisciplinares;

• Colocam a ênfase nos contextos e práticas culturais;

• Abordam o objecto de estudo nas suas relações contextuais, numa óptica integral.

Em conclusão, o método qualitativo socorre-se de tendências interpretativas (etnografia) e sociocríticas (investigação participativa, investigação-acção).

Sobre a abordagem qualitativa, Silvestre e Araújo (2012) asseveram-nos que,

"O propósito da abordagem qualitativa consiste em obter descrições detalhadas de uma realidade que permitam a interpretação de uma situação ou um contexto. Para tal,os métodos de recolha de dados como as entrevistas e a observação directa são importantes para obter informação que possibilite a construção de teorias que descrevem um determinado contexto ou expliquem um fenómeno"(Silvestre e Araújo,2012: 76).

O enfoque qualitativo apoia-se em técnicas que dão primazia a entrevistas abertas, semi- estruturadas, observações de campo, pesquisa documental (escritos, áudio, vídeo, pictóricos, grupos focais). Partindo desse pressuposto e socorrendo-nos do nosso referencial teórico, foi possível mapear práticas, valores, sistemas classificatórios de universos sociais específicos a partir dos quais analisámos a informação a que tivemos acesso. Procuramos, por isso, entender como os agentes alvos da pesquisa percebem e constroem significados sobre a sua própria realidade vivencial.

Do mesmo modo, as histórias de vida, a utilização de informantes privilegiados e a leitura de estudos anteriores permitiram-nos escolher conceitos a partir dos quais privilegiámos dimensões de análise de forma exploratória, que foram sendo consolidadas ou rejeitadas ao longo da pesquisa. Esta estratégia permitiu-nos entender as lógicas de acção subjacentes que dão sentido e significado às práticas sociais que são sedimentadas naquilo a que Dubet (1994) chama de experiência social. Essa experiência social, por seu turno, revela a auto-inscrição, isto é, como os agentes se inserem e se reconhecem a si mesmos dentro da sua história;como descrevem e verbalizam as suas narrativas, quer dizer, o que os agentes dizem sobre si e a sua condição e situação na vida quotidiana; e, finalmente, revela, sobretudo, a sua (dos respondentes) reflexividade, isto é, como os agentes internalizam e representam a sua própria referência inseridos numa sociedade.

Sabemos que, do ponto de vista positivista, a abordagem qualitativa é interpelada pela negativa, por causa da subjectividade a ela subjacente. Todavia,

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"A subjectividade, elemento constitutivo da alteridade presente na relação entre sujeitos, não pode ser expulsa, nem evitada, mas deve ser admitida e explicitada e, assim, controlada pelos recursos teóricos e metodológicos do pesquisador, vale dizer, da experiência que ele, lentamente, vai adquirindo no trabalho de campo" (Geraldo Romanelli, 1998: 128).

A construção e a escolha dos conceitos em análise resultaram de temas anteriormente prospectados. Por outro lado, tais conceitos foram sendo consolidados nas discussões tidas nos diferentes grupos focais realizados no Núcleo de Arte em Maputo, no Museu Nacional de Arte de Moçambique, nos grupos informais de discussão sobre artes, em Maputo, e nas entrevistas individuais exploratórias a diferentes artistas plásticos. Diz-nos, a propósito, Silvestre e Araújo (2012):

"No caso dos investigadores qualitativistas, constroem a teoria passo a passo, a partir dos exemplos e das experiências recolhidas durante as entrevistas e a observação directa. Assim, nas entrevistas exploratórias, o investigador começa por testar ideias e escolhe os conceitos e assuntos a explorar. Com base nesta informação, são feitas entrevistas subsequentes para analisar os temas e explicações preliminares. É esta informação que sugere as questões a perguntar e quais os temas a aprofundar"(Silvestre e Araújo, 2012: 76 - 77).

Na verdade, estamos perante uma abordagem interpretativa que se baseia nos aportes e definições que nos são fornecidos pelos próprios indivíduos ou grupos em estudo, exigindo do investigador uma espécie de hermenêutica permanente quando analisa as entrevistas administradas, os documentos oficiais, ou não, e, complementarmente, os artefactos disponíveis (obras de arte, no caso). Deshaies (1992) diz-nos que as técnicas de análise e observação (crítica histórica, hermenêutica) aliadas aos testemunhos registados (imagem visual) e testemunhos figurados (objectos materiais, telas e esculturas, sujeitos a análise iconográfica) são uma base estruturante para este tipo de trabalho. Sem esquecer as chamadas técnicas vivas (observação directa), portanto, observação extensiva, apoiámo-nos nas técnicas supracitadas uma vez que tivemos deanalisar telas, esculturas e discursos transformados em narrativas sobre a condição social dos artistas, seu ofício, sua relação com as instituições do Estado e com os agentes legitimadores e outros actores envolvidos na dinâmica das artes plásticas em Moçambique.

Faço aqui referência aos documentos analisados, produzidos tanto pela Assembleia da República, pelo partido-Estado então vigente, pelos ministérios que, ao longo dos anos, tutelaram o sector da Cultura, pela Comissão da União Europeia, em tanto que parceiro multilateral com interesses na área das artes e cultura em Moçambique.

Para Flick (2002), a investigação qualitativa é particularmente importante para o estudo das relações sociais dada a pluralidade dos universos de vida. Para ele, esta pluralidade traduz-se em expressões-chave como a nova pluralidade, termo que pede por empréstimo a Habermas (1992) que refere a crescente “individualização dos modos de vida e padrões biográficos (Beck, 1992).

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Por tudo isto, a investigação qualitativa sobrevive de estratégias mistas, onde é privilegiado o método indutivo, sem contudo negligenciar as deduções que resultam, por um lado, do quadro teórico proposto e, por outro, da teoria que vai sendo construída ao longo da pesquisa.

Quer dizer que os eixos centrais orientadores da pesquisa qualitativa são, segundo Flick (2002), os seguintes:

• Adequação dos métodos e teorias;

• Perspectivas dos participantes na sua diversidade; • Reflexão do investigador sobre o estudo;

• Variedade de métodos e perspectivas na investigação qualitativa; • Verstehen (a compreensão) como princípio epistemológico; • A reconstituição dos casos como ponto de partida;

• A construção da realidade como base, e; • O texto (corpus) como material empírico.

1.7. Sobre a escolha dos períodos em trato: paradigmas opostos