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The Potential Fruitfulness of Multiversism vs. Universism

In document Fragmentation at the Foundation (sider 59-68)

De um ponto de vista estritamente científico, não é possível prever o futuro. Por isso, infelizmente, ações concretas em relação ao que orienta os objetivos desta pesquisa são necessariamente limitadas. Porém, é possível preparar-se para o futuro com base no que se sabe sobre o passado e presente. Se não é possível saber como será a tecnologia utilizada em SRIs no futuro de longo prazo – de fato, é difícil prever mesmo uma ou duas décadas a frente –, por outro lado, existem outras informações úteis.

Primeiro, é sabido que a ML existe de fato com base em muitos dados empíricos, na verdade esse é um fato incontestável. Segundo, os sistemas de recuperação da informação registrada em documentos dependem da língua (na forma escrita) para recuperar informações. Consequentemente, pode-se deduzir que falantes de língua portuguesa que tentarem recuperar informações, talvez daqui a um século, registradas em documentos arquivísticos produzidos e representados hoje tentarão fazê-lo com uma futura versão da língua portuguesa atual. E esse descompasso entre as duas versões pode significar falhas no processo de recuperação.

Mas tome-se uma porção de língua utilizada num acervo documental específico. Se é perfeitamente plausível que, com base em informações atualizadas sobre a evolução da língua portuguesa nesse acervo, os futuros sistemas poderão contornar (com procedimentos técnicos) as eventuais alterações ocorridas (lexicalmente, morfologicamente, sintaticamente, semanticamente ou até mesmo fonética e pragmaticamente), então o que se pode fazer hoje, em termos procedimentais? Podem-se registrar as evoluções parciais (monitoramento) ocorridas nessa porção de língua portuguesa. Esses procedimentos podem, inclusive, fazer parte da especificação do modelo cujo esboço é aqui apresentado com suas principais características.

Durante o século XIX, o que hoje se denomina linguística histórica desenvolveu e aprimorou métodos científicos para analisar a evolução fonética de línguas, trata-se do método comparativo. Um dos objetivos era estabelecer famílias de línguas e até mesmo (re)construir as línguas antigas já mortas que deram origem às atuais, essa é uma das justificativas para a existência de uma linguística histórica, "disciplina que estuda as alterações (supressões, acréscimos, adaptações, substituições, rearranjos) que se operam nas línguas através do tempo" (BORBA, 1986, p. 279). Em grande parte, essas análises comparativas eram baseadas em registros escritos, mas algumas leis foram derivadas e permitiram a dedução hipotética de formas antigas sem registro escrito (o que, em linguística histórica, é representado com um asterisco junto à palavra obtida, por exemplo, *fader).

O que é útil desse trabalho dos neogramáticos, filólogos e linguistas históricos é justamente um exemplo sobre comparação de textos de diferentes épocas, ainda que com objetivos muito distintos dos deste estudo e não considerando todos os aspectos modernos de estudo das línguas. "A comparação de dois textos de diferentes épocas evidencia diferenças em todos os componentes da estrutura linguística: o fonológico, o gramatical (morfologia e sintaxe) e o léxico." (BORBA, 1986, p. 279). As diferenças detectadas ocorriam através da comparação de elementos com séculos de diferença.

Veja-se um exemplo de análise comparativa em línguas derivadas do latim extraído de Lyons (1987) para o termo "cavalo". Em latim caballus, em francês cheval, em italiano cavallo e em espanhol caballo. Destaca-se nesse exemplo o interesse na comparação dos sons nas diferentes línguas, pois na verdade em latim o termo mais adequado seria "equus". O termo "caballus" era utilizado com sentido próximo, mas diferente do atual no latim antigo. Evidencia-se daí que o sentido das palavras muda com o tempo. Outro exemplo importante é o termo "canis", o qual a partir do latim deu origem a "chien" (F) e "cane" (I), mas não há correspondente sonoro em espanhol, pois esse termo desapareceu nessa língua (LYONS, 1987). Os cães em espanhol são chamados de "perro", palavra que não possui nenhuma relação fonética com "canis", ainda que tenha uma relação semântica.

O ponto de vista na Ciência da Informação é diferente daquele na linguística histórica. Especificamente, àquela interessam os possíveis efeitos deletérios de mudanças – como as exemplificadas no parágrafo anterior – para os futuros SRIs. Mas há elementos em comum, qual seja, observar a língua portuguesa em sua forma escrita, no caso em documentos de arquivo de guarda permanente e suas representações, para monitorar e documentar as mudanças.

Mas esse monitoramento não pode ser feito por linguistas históricos? E não estão esses profissionais, de seu ponto de vista, mais qualificados para executar esses procedimentos? Os linguistas não só podem como estão fazendo esse procedimento e, atualmente, em relação a todos os aspectos da língua portuguesa (como também em outras línguas no mundo). Porém, os objetivos deles não são os mesmos do ponto de vista da Ciência da Informação, nem é o mesmo o nível de profundidade do estudo sobre essa mudança. Por exemplo, em linguística há preocupação em entender por que uma língua muda. Além disso, em função da profundidade científica do que é feito por linguistas, o trabalho é lento em relação a uma língua totalmente considerada.

Esta proposta é sobre o monitoramento da ML em relação aos elementos linguísticos presentes num acervo determinado, um universo muito menor do que o total de

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elementos numa língua qualquer, por maior que seja esse acervo de documentos. Isso significa que a emergência das informações sobre a ML nesse acervo pode ser mais facilmente disponibilizada, evitando, assim, os efeitos indesejados nos SRIs. No fundo, o que se defende é uma postura não reativa quanto ao problema da ML num acervo documental, ou seja, não esperar que essa evolução produza efeitos indesejados, mas monitorar e possibilitar a permanente adaptação dos sistemas envolvidos. Isso é coerente, pois a preservação da memória é um problema do ponto de vista da Ciência da Informação. Aliás, como ficou evidente da sondagem na produção de CI na última década e meia (teses), o tema da memória tem sido recorrentemente abordado.

Outra diferença fundamental em relação ao que a linguística histórica executa é que, quando se defende o "monitoramento da ML", não se está sugerindo estudar o que ocorre em relação a causas ou efeitos, mas apenas DOCUMENTAR as alterações linguísticas detectadas ao longo do tempo. E, nesse ponto, os produtos dos estudos linguísticos em relação à ML serão valiosas fontes de informações. Ao lado de outras fontes como a história da instituição que deu origem aos documentos, estudos e produtos arquivísticos, seus termos e idiossincrasias específicas, ou seja, há várias fontes para alimentar esse monitoramento, que, insista-se, limita-se a documentar as mudanças linguísticas apenas quanto aos elementos linguísticos no acervo considerado.

Uma obra que pode ilustrar adequadamente o estudo da língua portuguesa e sua evolução do ponto de vista linguístico é o livro Fundamentos Histórico-Linguísticos do Português do Brasil (ELIA, 2003). Nesse trabalho, o autor faz um levantamento das primeiras obras que trataram da língua portuguesa de um ponto de vista científico no Brasil, vide quadro 12.

Quadro 12 – Primeiras obras brasileiras sobre nossa língua

Obra Autor Ano

O dialeto caipira Amadeu Amaral 1920 O português do Brasil Renato Mendonça 1936 O linguajar carioca Antenor Nascentes 1922 O falar mineiro José A. de Oliveira 1934 Linguagem de Goiás José A. de Oliveira 1944 A influência africana no português do Brasil Renato Mendonça 1933 A língua portuguesa no Brasil Virgílio Lemos 1916 A gramática e a evolução da língua

portuguesa

Herbert Parentes Fortes 1933

A língua do Brasil Luís Viana Filho 1936 O problema da língua brasileira Sílvio Elia 1940

Língua brasileira Edgard Sanches 1940 A língua do Brasil Gladstone Chaves de Melo 1946 Introdução ao estudo da língua portuguesa Serafim da Silva Neto 1950 Fonte: extraído de Elia (2003).

Com base nas obras do quadro 12 e várias outras, o livro apresenta análises sobre o quadro histórico, literatura e língua (incluindo análises sintáticas, de léxico e morfológica) para o período colonial (dividido entre século XVI, XVII e XVIII) e período do Brasil independente (ELIA, 2003).

O monitoramento que se propõe como procedimento de gestão do acervo de documentos arquivísticos de guarda permanente possui quatro características essenciais:

(1) delimitação de acervo;

(2) utilização de todas as fontes documentais disponíveis; (3) intervalos regulares de registro;

(4) independência tecnológica.

Primeiro, é preciso delimitar o acervo que será considerado no procedimento. Em termos práticos, ao não delimitar o acervo considerado, podem surgir limites de recursos que impeçam o trabalho. Trata-se de procedimento não trivial e envolve várias etapas indefinidamente ou enquanto o acervo continuar existindo. Documentos que não tenham sido definidos como sendo de guarda permanente deveriam ser excluídos do conjunto total. Caso se trate de um fundo aberto (ainda recebendo novos documentos de guarda permanente), será inevitável receber novos documentos, mas em geral essa quantidade é menor, desde que os procedimentos de gestão documental (avaliação e seleção) tenham sido corretamente executados.

Segundo, a pesquisa permanente sobre o monitoramento da mudança deve se basear em fontes confiáveis como dicionários de primeira linha, normas (como acordos ortográficos) e estudos linguísticos como o citado anteriormente nesta seção. Estudos arquivísticos sobre as origens e funcionamento da instituição ou pessoa que deu origem aos documentos também podem ser considerados. Da mesma forma, produtos e procedimentos de análise documentária como tesauros, vocabulários controlados e socioterminologias podem ser também considerados como fontes importantes para o registro das mudanças.

Terceiro, a periodicidade das atualizações deve ser constante. O intervalo para atualizar os registros dependerá de vários fatores, como o tamanho do acervo e

disponibilidade de recursos (pelo menos pessoas). Além disso, trata-se de uma variável que deve ser experimentada para definir, com mais segurança, o melhor intervalo de anos para que as atualizações ocorram. Intervalos de uma ou duas décadas parecem um valor adequado. Com intervalos muito longos, corre-se o risco de assumir uma postura (re)ativa. O que significa essa postura será tema da seção seguinte.

Quarto, com independência tecnológica, quer-se dizer que os procedimentos de registro da ML devem evitar ao máximo a dependência tanto de sistemas como de instrumentos que podem vir a ser desativados, comprometendo, assim, o prosseguimento do monitoramento, o qual deve ser permanente. Por exemplo, veja-se uma instituição com uma (socio)terminologia que englobe todos os elementos linguísticos no acervo e, além disso, nela existam procedimentos para atualização da terminologia em questão. Ocorre, porém, que, em algum momento, pode-se preterir esse instrumento para utilizar alguma outra tecnologia, ou mesmo não fazer nada em substituição. Se o monitoramento linguístico dos elementos do acervo depender exclusivamente desse instrumento, então isso aumenta o risco de os efeitos da ML afetarem a recuperação no futuro, já que haverá uma interrupção no monitoramento.

Finalmente, é preciso tecer comentários sobre a aplicabilidade das informações obtidas no processo de monitoramento para uso nos futuros SRIs. Apesar de ser sabido que qualquer tecnologia para recuperação da informação não pode prescindir de elementos linguísticos tanto na representação quanto na recuperação e que essa situação não deve mudar ao longo do tempo, ao mesmo tempo não é possível saber qual tecnologia específica será utilizada no futuro. Como será a indexação e a recuperação automática em texto integral? De que maneira ocorrerá a integração com ontologias ou linguagens documentárias? Em relação ao longo prazo, é impossível responder a essas perguntas hoje. Esse é um limite neste trabalho. Simplesmente não é possível antecipar como será a integração com os futuros sistemas, pois não se pode prever como serão esses sistemas. O princípio adotado aqui é o de subsidiar, com informações linguísticas sobre a ML, esses futuros sistemas.

Uma última questão sobre o monitoramento vem de uma proposta teórica recente da linguística sobre a língua e sua evolução. Trata-se da hipótese de que uma língua só pode ser compreendida em seus variados "contextos de uso". "A associação entre pressupostos variacionistas e pressupostos funcionalistas se apoia essencialmente num ponto de partida comum: o de que a língua só pode ser entendida nos seus variados contexto de uso" (WEINREICH; LABOV; HERZOG, 2006, p. 147). Estando essa hipótese correta, pelo menos em parte, isso implica monitorar as mudanças numa língua, a partir de seu uso original (inclusive contextualizando a instituição que produziu determinados elementos linguísticos),

muito mais do que tentar "resgatar" os aspectos linguísticos do passado.

Todos os elementos linguísticos, em todos os aspectos linguísticos presentes no acervo considerado, devem ser relacionados e submetidos ao monitoramento. A análise documental executada na parte sobre metodologia e métodos ilustra esse procedimento para o caso de documentos produzidos no passado.

In document Fragmentation at the Foundation (sider 59-68)