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No campo das pesquisas sobre o bem-estar da população, a renda tem sido vista como um indicador central das condições de vida de um indivíduo e das oportunidades disponíveis a ele. A validade desta afirmação tem sido confirmada em análises empíricas que mostram que a renda está relacionada às outras condições de bem-estar, tais como saúde, emprego e os riscos com a vitimização (NILSSON; ESTRADA, 2006).

Em muitos trabalhos sobre vitimização, o grande foco tem sido a questão da distribuição dos crimes e a desigualdade na distribuição de renda. Pesquisadores que estudam sobre o assunto têm encontrado constantemente que os crimes são distribuídos desigualmente entre diferentes grupos sociais. Com isso, a questão central a ser examinada é se um aumento na desigualdade de renda da região impacta nos riscos de vitimização e quais grupos sociais mais sofrem com isso, já que se tem testemunhado nas últimas décadas que o rico tem ficado cada vez mais rico e o pobre, cada vez mais pobre.

Partindo do trabalho de Becker (1968), tem-se que uma pessoa rica se torna um alvo altamente atrativo quando sua renda aumenta. Entretanto, se o rico se comportar de tal forma que reduza o seu risco de vitimização, como investindo em segurança privada, então o seu risco de vitimização pode até diminuir. Conseqüentemente, a vitimização do pobre pode aumentar em relação ao rico.

Uma importante questão sobre a diferença na distribuição da vitimização entre os grupos sociais é que o nível de renda influencia na maneira de uma pessoa mais rica se proteger de algum delito. Como visto anteriormente, estudos empíricos reconhecem que cuidados com segurança privada podem reduzir o nível de criminalidade em algumas áreas, mas podem aumentar em outras. Isto porque esse tipo de proteção pode gerar externalidade negativa nas áreas mais pobres.

Apesar de não utilizar nenhum indicador de desigualdade, e sim a renda média familiar, Levitt (1999) afirma em seu trabalho que, devido ao aumento da desigualdade de renda nos Estados Unidos, as pessoas com baixa renda passaram a sofrer mais com a vitimização, isto porque os crimes passaram a ficar mais concentrados nas áreas mais pobres. Uma possível explicação para a diminuição do risco de vitimização entre os ricos, segundo o autor, seria o

aumento dos gastos com segurança privada. Ou seja, com um poder aquisitivo maior, pode-se investir mais nesse tipo de segurança.

Além de investigar a vitimização entre os grupos sociais, Levitt (1999) também analisa este fenômeno entre os brancos e não brancos. Segundo o autor, os não brancos que têm uma determinada renda são mais vitimizados freqüentemente que os brancos. Além disso, os mesmos são duas vezes mais passíveis de serem vítimas de roubo do que os brancos; e entre aqueles que são não brancos e ricos, têm duas vezes mais chances de terem seu veículo roubado do que os brancos ricos.

Seguindo essa mesma linha de pesquisa, o trabalho de Di Tella et al. (2002), baseando- se também na renda média da família, analisa qual grupo social se tornou a principal vítima com o aumento da criminalidade na Argentina. A principal motivação para esse estudo foi o fato de que a criminalidade tem aumentado significantemente no país nos últimos anos, juntamente com o desemprego e com a deterioração das condições sociais da população.

Nesse trabalho, os autores verificaram que, para assaltos a casa, os pobres se tornaram as principais vítimas dos delinqüentes, tornando evidente que os ricos investem mais na segurança patrimonial do que os pobres. Além disso, como a probabilidade de se tornar vítima de algum delito aumentou, os ricos aumentaram o seu consumo em segurança privada. Entretanto, com relação a assaltos no meio na rua, os dois grupos apresentaram aumentos parecidos na taxa de criminalidade, já que a capacidade de se usar proteção contra esse tipo de delito parece ser mais limitada.

Outro trabalho que aborda a relação entre desigualdade de renda e vitimização é o de Thacher (2004). Nele o autor mostra que apesar de a criminalidade ter declinado durante o período de 1974 a 2000 nos Estados Unidos, este benefício não foi compartilhado igualmente. Dito em outras palavras, os pobres passaram a sofrer mais com a vitimização do que as pessoas com renda mais elevada em todos os tipos de delito, confirmando os resultados obtidos em outros trabalhos, nos quais se tem que com o aumento da desigualdade da distribuição de renda, os indivíduos com menor poder aquisitivo passaram a ser mais vitimizados.

No Brasil, a maior parte das discussões sobre a economia do crime diz respeito à influência de fatores socioeconômicos sobre a criminalidade, além da mensuração dos custos econômicos da violência para a sociedade. Entretanto, são escassos os trabalhos encarregados

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de investigar a problemática em torno da vitimização. E entre esses poucos, nenhum verifica a relação entre desigualdade de renda e vitimização. Diante disto, este trabalho irá focar, a partir de agora, a vitimização recorrente no Brasil, verificando quais características do indivíduo podem interferir na ocorrência da sua vitimização e se a desigualdade de renda influencia no acontecimento deste fenômeno. Apesar de este trabalho ser cross-section, ou seja, faz um estudo apenas para o ano de 1988, a análise do impacto da distribuição de renda na vitimização repetida será possível porque existe uma diversidade no índice de Gini entre os estados para este ano, conforme pôde ser visto na tabela anterior. Com isso, será apresentada, no próximo capítulo, a base de dados que será utilizada no modelo de vitimização repetida.

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BASE DE DADOS